Astronomia

Proxima b: massa mínima de 1,2 Terra na zona habitável, e as dúvidas trazidas pelas explosões da estrela

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

Proxima b orbita Proxima Centauri a cerca de 7 milhões de km, em 11,2 dias, com massa mínima de cerca de 1,2 a 1,3 vez a da Terra, em uma região onde a água poderia ser líquida. Mas a estrela emite fulgurações e raios X em excesso, e as fontes lidas não trazem medida de atmosfera ou de água: habitável é hipótese, não constatação.

Proxima b foi achada pelo método da velocidade radial: o planeta puxa a estrela e o espectro dela se desloca, para lá e para cá, por efeito Doppler. Esse método só dá a massa mínima, porque depende da inclinação da órbita, que não se conhece. A zona habitável é a faixa de distâncias em que um planeta com atmosfera adequada poderia ter água líquida na superfície; estar nela não garante que haja água ou ar. Fulguração (flare) é uma explosão de brilho na estrela, com luz ultravioleta e raios X. Rotação síncrona é quando o planeta mostra sempre a mesma face à estrela, como a Lua à Terra. Ozônio é o gás que, na Terra, absorve boa parte da radiação ultravioleta.

Uma estrela que se move na velocidade de um passo

O planeta foi detectado por um balanço minúsculo: em alguns momentos Proxima Centauri se aproxima da Terra a cerca de 5 km/h, ritmo de uma caminhada, e em outros se afasta na mesma velocidade, num ciclo de 11,2 dias.

Como sabemos que o planeta existe

A detecção não foi uma imagem, e sim um padrão repetido: a velocidade radial de Proxima Centauri varia com período de 11,2 dias, o que se interpreta como o puxão gravitacional de um planeta. Na campanha Pale Red Dot (2016) foram analisadas noites seguidas de espectros do HARPS, juntamente com dados anteriores do HARPS e do UVES. A equipe monitorou o brilho da estrela, para descartar que manchas ou fulgurações imitassem o sinal, e excluiu dados tomados durante fulgurações. Em 2020, o ESPRESSO, um instrumento independente, recuperou o sinal sem indício de origem na atividade da estrela.

Por que a massa é só um mínimo

O método da velocidade radial mede apenas a parte do puxão que aponta para a Terra. Se a órbita estiver inclinada, o planeta é mais massivo do que o valor medido. Um trânsito (passagem diante da estrela) ajudaria a fixar a inclinação, mas nenhum trânsito foi detectado nas curvas de luz da campanha. Por isso o texto fala em massa mínima de 1,2 a 1,3 massa terrestre. A massa mínima não diz se o planeta é rochoso: a ideia de que é um mundo rochoso é uma inferência razoável, não uma medida.

O que as fulgurações podem fazer

Proxima b está tão perto da estrela que recebe muito mais EUV e raios X que a Terra (30 e 250 vezes, na estimativa de Ribas). O superflare de 2016, 68 vezes mais brilhante que o normal no óptico, mostrou que a estrela pode ir muito além do que se supunha. No cenário de Howard e colegas, um planeta com atmosfera parecida com a da Terra perderia o ozônio com fulgurações repetidas e receberia ultravioleta intenso. Mas esse é um cenário de modelo: se o planeta tem atmosfera, de que tipo, e se há campo magnético protetor, ninguém mediu.

Água, rotação e atmosfera: o que ainda não sabemos

Há simulações em que a água líquida persiste na face voltada para a estrela ou numa faixa tropical, e estudos que veem o planeta como candidato viável. Mas a quantidade de água inicial, a rotação (síncrona ou em ressonância 3:2) e a atmosfera seguem sem medida direta nas fontes lidas. Também há indício de um segundo sinal, de 5,15 dias, que não está confirmado. Dizer que Proxima b é habitável vai além do que os dados mostram: o que há é um planeta de massa terrestre numa órbita onde a água poderia ser líquida.

Como sabemos

Descoberta e confirmação são bem sustentadas por artigos e pelo ESO; habitabilidade, rotação e atmosfera são cenários de modelo, e não foram checadas observações posteriores a 2020.

Em debate: Modelos divergem: um indica perda de 90% do ozônio em cinco anos num cenário terrestre; outro estima perda pequena de hidrogênio e vê Proxima b como candidato viável. O resultado depende de atmosfera e água que não foram medidas.

Fontes

  1. Nature 536, 437 — A terrestrial planet candidate in a temperate orbit around Proxima Centauri
    Anglada-Escudé, G. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature19106
  2. European Southern Observatory (ESO) — Planet Found in Habitable Zone Around Nearest Star (eso1629)
    ESO · 2016-08-24 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Astronomy & Astrophysics 639, A77 — Revisiting Proxima with ESPRESSO
    Suárez Mascareño, A. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/202037745
  4. Astronomy & Astrophysics 596, A111 — The habitability of Proxima Centauri b I. Irradiation, rotation and volatile inventory from formation to the present
    Ribas, I. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/201629576
  5. The Astrophysical Journal Letters 860, L30 — The first naked-eye superflare detected from Proxima Centauri
    Howard, W. S. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3847/2041-8213/aacaf3
  6. Astronomy & Astrophysics 596, A112 — The habitability of Proxima Centauri b II. Possible climates and observability
    Turbet, M. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/201629577
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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