Botânica
Como se descobriu que as plantas renovam o ar: Priestley (1771–72), Ingenhousz (1779) e o papel da luz
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Plantas em ação
Em agosto de 1771, Joseph Priestley pôs um ramo de hortelã em ar onde uma vela havia se apagado; dez dias depois, outra vela ardeu nele. Em 1779, Jan Ingenhousz mostrou, em mais de 500 experimentos, que isso depende da luz do sol e das partes verdes: à sombra ou no escuro, as plantas passam a liberar um ar nocivo.
No século XVIII, "ar" era o nome dado a gases em geral, e estudar o ar era estudar a química dos gases. O teste era prático: uma vela que se apaga ou um camundongo que morre indicavam um ar "viciado", impróprio para a respiração. A explicação em uso era a do flogisto, uma suposta substância liberada na combustão e na respiração; o "ar deflogisticado" dos textos é o que hoje chamamos de oxigênio. Priestley mostrou que uma planta viva podia devolver a um ar viciado a capacidade de sustentar chama e vida. Ingenhousz, ao repetir e ampliar o trabalho, achou o que faltava: a luz. Nenhum dos dois conhecia a fotossíntese como hoje a descrevemos.
O resultado que não se repetiu
No fim de 1771, alguns experimentos de Priestley deixaram de dar o mesmo resultado, e o ar "restaurado" voltou a ficar nocivo. Ele suspendeu o juízo sobre o efeito das plantas e só retomou os testes no verão de 1772, quando diz ter obtido a prova mais indiscutível.
Como sabemos: o desenho dos experimentos de Priestley
Priestley usou dois detectores simples: uma vela que arde ou se apaga e um camundongo que vive ou morre. O ar viciado era dividido em duas porções, uma com planta e outra sem, sob a mesma exposição e em frascos imersos em água. A diferença entre as duas sustenta a conclusão, e a repetição (oito ou dez vezes no verão de 1771) a reforça. Limites: o indicador é qualitativo, o texto não descreve controle da luz, e o próprio autor registra falhas no fim de 1771.
Como sabemos: o que Ingenhousz acrescentou
Em 1779, Ingenhousz fez mais de 500 experimentos num único verão. Pôs folhas em jarros invertidos com água, expôs ao sol e recolheu as bolhas que subiam. Testou plantas à sombra e no escuro, e fez o teste de inversão, trocando as posições para ver o efeito se desfazer. O contraste entre sol e sombra com a mesma planta permite isolar a luz como variável. Limite: a obra é lida aqui pelo prefácio, por seções selecionadas e por comentário histórico.
Por que os resultados de Priestley variavam
Ingenhousz diz ter descoberto a razão de as plantas às vezes melhorarem o ar e às vezes o piorarem: a luz. A explicação é coerente com o que ele observou. Gest acrescenta que Priestley costumava omitir o trabalho de Ingenhousz e que este ainda se queixava disso em 1796, e propõe um segundo fator: como o CO2 é produto da respiração da planta e fonte de carbono da fotossíntese, condições mal controladas geravam observações confusas. É leitura retrospectiva, não prova feita na época.
O que os dois ainda não sabiam
Em 1779 a linguagem era a do flogisto: o gás das folhas era "ar deflogisticado". Segundo Gest, só depois, com a nomenclatura de Lavoisier, a fotossíntese pôde ser escrita como gás carbônico mais luz dando matéria orgânica mais oxigênio, e Ingenhousz passou a reinterpretar seu trabalho nesses termos em 1796. O mecanismo bioquímico moderno (onde a luz entra, como o carbono é fixado) está fora do alcance dos dois e é tratado em outro lugar.
Como sabemos
Os experimentos de Priestley estão confirmados no texto do livro de 1774 e os de Ingenhousz no prefácio de 1779, mas o artigo de 1772 e a obra de 1779 inteira não foram lidos na íntegra, e a digitalização de 1779 tem erros de OCR.
Em debate: Ingenhousz escreveu em 1796 que descobrira por que as plantas ora melhoram o ar ruim, ora o pioram, algo que, segundo ele, Priestley e Scheele nem suspeitavam. Gest afirma que Priestley, em seus escritos, geralmente omitia as descobertas anteriores de Ingenhousz. Este post expõe a posição de cada lado e não arbitra a prioridade.
- Fato estabelecido: Em 17 de agosto de 1771, Priestley pôs um ramo de hortelã em ar no qual uma vela de cera havia se apagado; em 27 de agosto, outra vela queimou bem nesse ar. Ele repetiu o experimento oito ou dez vezes no resto do verão, sem variação no resultado. [1] Parte I, seção sobre o efeito das plantas no ar
Contexto: Relato do próprio Priestley, no livro de 1774 que reúne seus artigos de 1772 na Parte I, com correções. · Limitações: Fonte é o texto do livro de 1774 (Parte I), que Priestley descreve como os artigos de 1772 com observações e correções; o artigo original da Philosophical Transactions não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Priestley dividiu o ar em que a vela se apagou em duas porções, pôs a planta numa e deixou a outra sem planta, sob a mesma exposição: a vela ardia na primeira e não na segunda. Em geral, cinco ou seis dias bastavam quando a planta estava vigorosa. [1] Parte I, seção sobre o efeito das plantas no ar
Contexto: O ar-controle ficou num frasco de vidro imerso em água, sem planta, sob a mesma exposição. · Limitações: O indicador era qualitativo (a vela queima ou não); Priestley não mediu a composição do ar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num teste com ar tornado nocivo por camundongos que morreram nele, o ar mantido com um ramo de hortelã por oito ou nove dias deixou um camundongo viver; o ar mantido sem planta matou o animal no instante em que foi colocado. [1] Parte I, seção sobre ar viciado pela respiração
Contexto: Experimento iniciado por volta do começo de agosto de 1771, segundo Priestley. · Limitações: Priestley adverte que a duração da vida do animal varia muito de um teste para outro e não é fácil tirar conclusão dela. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Priestley concluiu que a restauração do ar dependia de a planta estar viva e em crescimento (folhas frescas de hortelã apenas mantidas no ar não surtiram efeito) e que o efeito não era peculiar à hortelã: também ocorreu com melissa, com tasneirinha (groundsel) e com o espinafre. [1] Parte I, experimentos de 1772
Contexto: Experimentos de maio a julho de 1772, com ar de velas, de álcool e de palitos de enxofre queimados. · Limitações: Tradução de "groundsel" por tasneirinha é nossa, por aproximação; a identificação botânica exata não foi checada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No fim de 1771, o efeito falhou em alguns experimentos: o ar restaurado voltou ao estado nocivo. Priestley suspendeu o juízo e retomou os testes no verão de 1772, quando diz ter obtido a prova mais indiscutível da restauração do ar pela vegetação. [1] Parte I, seção sobre ar viciado pela respiração
Contexto: Falha registrada no fim de 1771; Priestley não identifica a causa. · Limitações: Priestley não identifica o motivo da falha; a explicação pela luz vem de Ingenhousz, em 1779. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Priestley explicava o efeito dentro da teoria do flogisto: para ele, a respiração emitia flogisto e a vegetação o reabsorvia; no texto de 1774 ele considera "extremamente provável" que a planta extraia da atmosfera o "eflúvio pútrido" por meio das folhas. [1] Parte I, seção sobre ar viciado pela respiração [2] Seção 3, Aerial philosopher
Contexto: Explicação do século XVIII, abandonada com a química de Lavoisier. · Limitações: É a interpretação de Priestley, não um resultado do experimento; McEvoy lembra que ele tratava o flogisto como hipótese e o separava dos fatos observados. · Interpretação histórica; o experimento em si (vela e camundongo) é independente do flogisto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num verão em que obteve licença da corte de Viena, Ingenhousz fez mais de 500 experimentos com plantas numa casa de campo perto de Londres e os publicou em 1779 em Experiments upon Vegetables. [3] Texto, p. 66
Contexto: Ingenhousz era médico da corte de Maria Teresa, em Viena, e usou uma licença de verão para trabalhar na Inglaterra em 1779. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Ingenhousz concluiu que a purificação do ar pelas plantas não se devia à vegetação em si, mas à influência da luz do sol sobre a planta; Gest resume que ele estabeleceu a exigência de luz na fotossíntese. [4] Prefácio, p. xxxiv [3] Resumo
Contexto: Experimentos de 1779 com folhas de várias espécies, em jarros com água e ar. · Limitações: O texto de Ingenhousz é lido a partir de uma digitalização com erros de reconhecimento de caracteres (o s longo aparece como f, por exemplo "fun" por "sun"). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na sombra ou na escuridão, segundo Ingenhousz, as plantas não depuram o ar e passam a lançar um ar nocivo aos animais. [4] Prefácio, p. xxxv
Contexto: Relato do autor sobre plantas à sombra de edifícios ou de outras plantas, e sobre a noite. · Limitações: Resumo feito pelo próprio Ingenhousz; a obra de 1779 não foi lida na íntegra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Ingenhousz concluiu que o efeito não é realizado pela planta inteira, mas só pelas folhas e pelos caules verdes que as sustentam. [4] Prefácio, p. xxxv [3] Resumo
Contexto: Experimentos de 1779. · Limitações: Leitura baseada no resumo do próprio Ingenhousz no prefácio e no resumo de Gest. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Ingenhousz recolheu o gás liberado pelas folhas: sob o sol, ele surge na superfície das folhas na forma de bolhas, que sobem e se juntam no fundo do jarro invertido, e ele o identificou como "ar deflogisticado", que hoje chamamos de oxigênio. [4] Seção sobre folhas dentro d'água, p. 16 [3] Texto, p. 68
Contexto: O vocabulário de 1779 é o do flogisto; "ar deflogisticado" vira "oxigênio" com a nomenclatura de Lavoisier. · Limitações: A equivalência entre ar deflogisticado e oxigênio é de Gest; o método de Ingenhousz para identificar o gás não foi examinado aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num teste de inversão, Ingenhousz mostrou que o efeito é reversível: ao trocar de lugar uma planta da janela e outra da sombra, o ar do jarro que melhorara ficava pior que o ar do quarto, e o que fora contaminado voltava a ser corrigido. [4] Seção XVII, p. 70
Contexto: Descrição de um experimento que, segundo o autor, pode ser demonstrado "em poucas horas". · Limitações: Descrição qualitativa; os números dos testes de pureza do ar não foram examinados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo Ingenhousz, os resultados de Priestley não eram uniformes, às vezes até contraditórios, como o próprio Priestley reconhecia, e o modo como as plantas agiam sobre o ar permanecia desconhecido. McEvoy descreve o trabalho de Priestley como a base dos experimentos de Ingenhousz e Senebier. [4] Prefácio, p. xxiv [2] Seção 3, Aerial philosopher
Contexto: Ingenhousz cita Priestley (e o próprio texto de Priestley de 1777-78) para mostrar a variabilidade dos resultados; a citação de Priestley chega aqui de segunda mão. · Limitações: A leitura de Priestley (1777-78) é a de Ingenhousz; o texto de Priestley de 1777 (vol. III) não foi lido nesta pesquisa. A citação de Priestley chega aqui de segunda mão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O gás carbônico, que a planta consome na fotossíntese e libera na respiração, explica em parte as observações confusas dos primeiros investigadores; o esquema "gás carbônico + luz → matéria orgânica + oxigênio" só ganhou forma com a química de Lavoisier, e Ingenhousz passou a reinterpretar seu trabalho nesses termos em 1796. [3] Texto, p. 70
Contexto: A conexão com as condições experimentais mal controladas é a leitura de Gest, não um fato mostrado por Priestley ou Ingenhousz. · Limitações: O vínculo causal entre CO2 e a variabilidade nos experimentos de Priestley é interpretação moderna, não demonstrada pelos experimentos originais. · Tradução do esquema: a equação aparece em Gest como "carbonic acid + light → organic matter + oxygen". · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Em 1796, Ingenhousz escreveu que descobrira a razão de as plantas ora melhorarem o ar ruim, ora o piorarem, razão que Priestley e Scheele jamais teriam suspeitado; Gest afirma que Priestley, em seus escritos, costumava omitir as descobertas anteriores de Ingenhousz. [3] Texto, p. 68
Contexto: Ensaio de Ingenhousz de 1796 e comentário de Gest (1997). · Limitações: Gest cita Smit (1980) e Sachs (1875/1890) sobre a atribuição; essas obras não foram lidas. · Disputa de prioridade entre partes interessadas; Priestley não foi ouvido aqui e Gest toma o lado de Ingenhousz. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Project Gutenberg (transcrição do livro de Priestley, 1774) — Experiments and Observations on Different Kinds of Air (Parte I, "Experiments and Observations made in, and before the Year 1772")
Joseph Priestley · 1774 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Philosophical Transactions of the Royal Society A — Gases, God and the balance of nature: a commentary on Priestley (1772) 'Observations on different kinds of air'
McEvoy, J. G. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2014.0229 - Photosynthesis Research (Indiana University) — A 'misplaced chapter' in the history of photosynthesis research; the second publication (1796) on plant processes by Dr Jan Ingen-Housz, MD, discoverer of photosynthesis
Gest, H. · 1997 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1023/A:1005827711469 - Wellcome Collection (digitalização no Internet Archive) — Experiments upon vegetables, discovering their great power of purifying the common air in the sun-shine, and of injuring it in the shade and at night
Ingen-Housz, J. · 1779 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)