Zoologia

A preguiça-de-três-dedos desce da árvore cerca de uma vez por semana para defecar no chão

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Passa a maior parte do tempo na copa, quase parada, mas cerca de uma vez por semana a preguiça-de-três-dedos desce até a base da árvore, abre uma cova com a cauda atrofiada, defeca e a cobre com folhas. É o momento mais perigoso da rotina: em estudo na Costa Rica, mais da metade das mortes de adultos documentadas foi por predação com o animal no chão ou perto dele. Por que ela faz isso ainda é debatido.

A preguiça-de-três-dedos (Bradypus) vive de folhas, que dão pouca energia. Para compensar, gasta muito pouco: medições na Costa Rica indicaram cerca de 460 quilojoules por dia, ou cerca de 110 quilocalorias, o menor gasto de energia já medido em um mamífero, e o metabolismo fica abaixo de metade do esperado para o seu peso. A digestão é a mais lenta entre os mamíferos. Nesse regime, descer ao solo custa caro: os pesquisadores estimam que a viagem consome cerca de 8% do orçamento diário de energia. No Brasil, a preguiça-comum (Bradypus variegatus) ocorre na Amazônia e na Mata Atlântica e, segundo o ICMBio, é muito vulnerável quando está no chão.

Uma mariposa que só vive em preguiças

A mariposa Cryptoses choloepi bota ovos nas fezes frescas e depois volta ao pelo da preguiça. Na Costa Rica, preguiças com mais mariposas tinham mais nitrogênio e mais algas no pelo. Que a preguiça lucre comendo essas algas é hipótese: elas apareceram no estômago de 2 de 12 preguiças-de-três-dedos.

Folhas, pouca energia

As preguiças-de-três-dedos comem folhas de poucas espécies de árvores, alimento pobre em nutrientes. Elas têm a digestão mais lenta entre os mamíferos e um metabolismo abaixo de metade do esperado para o peso. Em medições de campo na Costa Rica, gastaram cerca de 460 quilojoules por dia, o menor gasto de energia medido em um mamífero. A lentidão não é preguiça no sentido comum: é economia de energia.

O ritual semanal

Cerca de uma vez por semana, a preguiça-de-três-dedos desce até a base da árvore que mais usa, faz uma depressão com a cauda vestigial, defeca e cobre o local com folhas antes de subir. As preguiças-de-dois-dedos seguem rotina bem menos fixa e às vezes defecam da copa. Os autores do estudo estimam que a descida consome cerca de 8% da energia diária, e que, no estudo, mais da metade das mortes de adultos documentadas ocorreu com o animal no chão ou perto dele.

O jardim no pelo

As fezes frescas são o berçário da mariposa Cryptoses choloepi, que só vive em preguiças. Os adultos voltam ao pelo e, no estudo de 2014, preguiças com mais mariposas tinham mais nitrogênio e mais algas. Os autores propõem que as mariposas fertilizam as algas e que a preguiça as come para completar a dieta; as algas são ricas em lipídios e digeríveis em testes de laboratório. Isso é uma hipótese: o ganho para a preguiça não foi medido em animais vivos.

O que ainda se discute

Em 2021, o pesquisador Julian Monge-Nájera publicou uma revisão que rejeita o modelo. Ele lembra que 83% das amostras de Bradypus variegatus não tinham algas no estômago e propõe que defecar no chão é um hábito ancestral que nunca sofreu seleção contrária suficiente para desaparecer. As duas explicações seguem em discussão, e nenhuma foi testada de modo decisivo. Nem todos os números vêm do Brasil: o estudo de 2014 foi feito na Costa Rica.

Como sabemos

A descida semanal, o risco e o metabolismo baixo estão bem documentados, mas o motivo da descida é debatido e os dados vêm da Costa Rica, não do Brasil.

Em debate: Por que a preguiça-de-três-dedos arrisca a vida descendo ao chão é debatido. A hipótese de Pauli e colegas (2014) liga a descida a um ciclo entre preguiça, mariposa e algas do pelo. Uma revisão de 2021 (Monge-Nájera) a rejeita e propõe um comportamento ancestral sem seleção contrária. Nenhuma das duas está demonstrada de forma definitiva.

Em debate: O estudo de 2014 foi feito na Costa Rica com Bradypus variegatus e Choloepus hoffmanni. A frequência semanal e as medidas de energia não foram verificadas em populações brasileiras.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B — A syndrome of mutualism reinforces the lifestyle of a sloth
    consultada em 05/10/2026
  2. University of Wisconsin-Madison (CALS) — Putting the sloth in sloths: Arboreal lifestyle drives slow motion pace
    consultada em 05/10/2026
  3. ICMBio, SALVE — Bradypus variegatus (ficha de avaliação do risco de extinção)
    consultada em 05/10/2026
  4. UNED Research Journal (Universidad Estatal a Distancia, Costa Rica) — Why sloths defecate on the ground: rejection of the mutualistic model
    consultada em 05/10/2026
  5. The Royal Society — The sloth and the moth: A mutually beneficial relationship
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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