Zoologia

Como o poraquê soma centenas de volts, e por que ainda não se sabe como escapa do próprio choque

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

O poraquê (Electrophorus) empilha milhares de células elétricas, os eletrócitos, em série. Cada uma gera cerca de 0,15 V, e as tensões se somam: grandes exemplares passam de 600 V. Em 2019, o registro de 860 V em Electrophorus voltai, uma das duas espécies novas descritas naquele ano, o tornou o maior gerador bioelétrico conhecido. Já a razão de ele não se eletrocutar não tem estudo direto: há explicações plausíveis, mas ainda não testadas.

O poraquê vive nas águas doces da Amazônia e de áreas vizinhas. Apesar do nome comum em inglês, não é uma enguia verdadeira: é um peixe-faca, da ordem Gymnotiformes. Seu corpo abriga três órgãos elétricos. Um deles, o órgão de Sachs, emite pulsos fracos, de cerca de 10 V, usados para se orientar e localizar objetos. Os outros dois, maiores, produzem as descargas fortes para atordoar presas e para defesa. Durante muito tempo se supôs que existia uma só espécie. Em 2019, um estudo com 107 exemplares, com participação de pesquisadores de instituições brasileiras como INPA, Museu de Zoologia da USP e Museu Goeldi, separou três linhagens: E. electricus, E. voltai e E. varii.

A descarga também serve para "perguntar" se algo está vivo

Experimentos de Kenneth Catania mostraram que o poraquê emite um pulso breve que faz o músculo da presa escondida se contrair. O movimento da água revela onde ela está. Depois, uma sequência de pulsos rápidos a imobiliza.

Uma pilha viva

Um eletrócito é uma célula achatada que, ao receber o comando do nervo, abre canais e produz uma diferença de potencial de cerca de 0,15 V. Sozinha, é pouco. Mas os eletrócitos do poraquê formam pilhas longas, ligadas em série, e as tensões se somam, como as pilhas de uma lanterna. Pilhas paralelas, que ocupam a parte traseira do corpo, também somam corrente. Com milhares de células em série, o resultado passa de 600 V em grandes exemplares.

Três órgãos, dois usos

Os eletrócitos se dividem em três órgãos. O de Sachs emite pulsos fracos, de cerca de 10 V, que funcionam como um radar elétrico para localizar objetos e presas. Os outros dois, maiores, geram as descargas fortes. Catania mostrou que a descarga forte também ajuda a localizar: um pulso breve provoca um espasmo na presa escondida, e o movimento da água a revela. A mesma estrutura serve para sentir e para atacar.

Os 860 volts de Electrophorus voltai

O estudo de 2019 separou três linhagens de poraquê e descreveu E. voltai e E. varii. O registro de 860 V veio de um único exemplar de E. voltai, com 1.219 mm. Como é uma medida isolada, ela mostra que o valor é possível, não o que é típico da espécie. No mesmo trabalho, E. varii produziu de 151 a 572 V em quatro exemplares. Entre os autores há pesquisadores do INPA, do Museu de Zoologia da USP, do Goeldi, da UFPA e do ICMBio.

E o autochoque?

A pergunta do título não tem resposta fechada. A explicação mais citada é que o pulso dura cerca de 1 ms e que, na água, grande parte da corrente se espalha em vez de atravessar o corpo. Mas a autora do texto de divulgação reconhece que não há estudos específicos, e Catania (2019) lista a proteção do sistema nervoso do próprio animal como questão em aberto. Por isso, aqui, é hipótese.

Como sabemos

Voltagens, estrutura em série e taxonomia estão bem fontadas; o mecanismo de proteção do animal é explicitamente hipótese.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications (de Santana et al., 2019; PMC6736962) — Unexpected species diversity in electric eels with a description of the strongest living bioelectricity generator
    consultada em 11/10/2026
  2. Frontiers in Integrative Neuroscience (Catania, Vanderbilt University, 2019) — The Astonishing Behavior of Electric Eels
    consultada em 11/10/2026
  3. Nature (Schroeder et al., 2017; PMC6436395) — An electric-eel-inspired soft power source from stacked hydrogels
    consultada em 11/10/2026
  4. Animal Diversity Web, Museu de Zoologia da Universidade de Michigan — Electrophorus electricus (electric eel)
    consultada em 11/10/2026
  5. FAPESP (Observatório de Divulgação Científica) — A new species of electric eel produces the highest voltage discharge of any known animal
    consultada em 11/10/2026
  6. Scientific American — How do electric eels generate a voltage and why do they not get shocked in the process?
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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