Ciências da Terra
Calcário, arenito e ferro: onde estão as 30.225 cavernas cadastradas do Brasil e o que esse número não mostra
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Um só grupo de calcários, o Bambuí, que vai de Minas Gerais à Bahia, reúne cerca de 31,5% das cavernas conhecidas do Brasil, segundo um artigo de 2025. Calcários do Grupo Corumbá abrigam cavernas em Mato Grosso do Sul; arenito, quartzito e minério de ferro formam outras (mais de 3.000 só em ferro). O CECAV/ICMBio contava 30.225 cavernas cadastradas até 24/11/2025, mas o cadastro não representa todas as que existem.
Carste é a paisagem em que a água dissolve a rocha e abre sumidouros, cavernas e nascentes; está ligado a rochas solúveis, como calcário, mármore e gipsita. No Brasil, a maior unidade desse tipo é o Grupo Bambuí. Nas últimas duas décadas, a espeleologia também passou a reconhecer cavernas em rochas siliciclásticas (sedimentares não carbonáticas, como o arenito) e em formações ferríferas, cobertas por uma crosta de ferro chamada canga. O número oficial vem do Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (CANIE), mantido pelo CECAV, o centro de cavernas do ICMBio. Ele conta o que foi prospectado e informado, não o que existe no subsolo: por isso a geografia do cadastro mistura geologia e esforço de pesquisa.
1.200 km² com cerca de 2.600 cavernas
Na região de Arcos, Pains e Doresópolis (MG), no Grupo Bambuí, um artigo de 2025 registra cerca de 2.600 cavernas em apenas 1.200 km², a maior densidade da América do Sul segundo os autores. Ali também há mineração de calcário.
Calcário: a rocha que a água dissolve
Cavernas de carste nascem onde a água dissolve a rocha, e isso ocorre em calcário, mármore e gipsita. No Brasil, as grandes unidades calcárias nomeadas nas fontes são o Grupo Bambuí (de Minas Gerais à Bahia, com a região de Serra do Ramalho), os grupos Una-Irecê e Rio Pardo na Bahia e o Grupo Corumbá em Mato Grosso do Sul, na Serra da Bodoquena. O Bambuí, descrito como o maior grupo carbonático da América do Sul, responde por cerca de 31,5% das cavernas conhecidas. As fontes lidas não separam o efeito do clima do efeito da rocha, então o texto não atribui o resultado ao clima.
Arenito, quartzito e ferro: cavernas em rocha pouco solúvel
A espeleologia brasileira passou a reconhecer cavernas fora do calcário. Rochas siliciclásticas, como o arenito da Chapada Diamantina, e formações ferríferas são hoje incluídas nas áreas favoráveis, que somariam cerca de 8% do território. Só as cavernas de ferro passam de 3.000, cerca de 20% das conhecidas, segundo um artigo de 2022. O ferro é pouco solúvel, o que desafia a explicação de dissolução; uma hipótese recente atribui a abertura a microrganismos que reduzem o Fe(III) na interface entre o minério e a canga. Ela ainda precisa de replicação.
Como sabemos quantas são: o que o cadastro conta
O número vem do CANIE, criado pela Resolução CONAMA 347/2004 e mantido pelo CECAV. Em 24 de novembro de 2025 havia 30.225 cavernas cadastradas; um artigo de 2025 cita cerca de 29.000 a partir do Anuário de 2022, o que mostra o cadastro crescendo. O próprio CANIE avisa que seus arquivos não representam todas as cavernas. Quem pede licenciamento ambiental deve cadastrar as cavidades, e cerca de 75% delas estão em municípios com mineração. Em parte, portanto, o mapa de cavernas é também um mapa de onde se procurou. Isso é uma inferência nossa, não uma medição.
Uma região, muitas cavernas: Arcos, Pains e Doresópolis
O exemplo mais extremo é a região de Arcos, Pains e Doresópolis, no centro-oeste de Minas Gerais, com cerca de 2.600 cavernas registradas em 1.200 km², a maior densidade da América do Sul segundo os autores de um artigo de 2025. A rocha é o calcário do Grupo Bambuí, que também sustenta uma das mais importantes áreas de extração de calcário do país. Minas Gerais concentra cerca de 14.000 das cavernas, segundo o Anuário citado. Quem vive nessas cavernas, e de onde vem a energia que sustenta essa fauna, é assunto do texto sobre a ecologia das cavernas brasileiras.
Como sabemos
Os números do CECAV e a ligação entre rocha e caverna vêm de páginas oficiais e artigos abertos lidos, mas os totais por estado são de segunda mão e a origem das cavernas de ferro é hipótese.
- Fato estabelecido: O CECAV/ICMBio informa 30.225 cavernas cadastradas até 24 de novembro de 2025. [1] Painel «Números do ICMBio/Cecav», página Cavernas
Contexto: Contagem do cadastro nacional (CANIE) na data indicada pelo próprio órgão. · Limitações: O número cresce com novos cadastros e depende de quem prospecta e informa; não é uma contagem de todas as cavernas existentes. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O CANIE avisa que seus arquivos disponíveis para download não representam todo o universo de cavernas do território brasileiro; a versão de dados descrita na página tem data de incorporação de 31/12/2021. [2] Item 4, detalhamento dos dados para download
Contexto: Aplica-se aos arquivos de shapefile e KMZ oferecidos pelo CECAV, não necessariamente ao banco de dados atualizado do CANIE. · Limitações: A página não diz que fração das cavernas reais está no cadastro. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quem requer licenciamento ambiental precisa cadastrar previamente no CANIE os dados do patrimônio espeleológico citados no processo. [2] 1 - Base legal, §4º da Resolução CONAMA 347/2004
Contexto: Resolução CONAMA nº 347, de 10 de setembro de 2004. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: Um artigo de 2025 cita cerca de 29.000 cavernas oficialmente registradas no país e cerca de 14.000 em Minas Gerais, números que atribui ao Anuário Estatístico do Patrimônio Espeleológico Brasileiro de 2022, do ICMBio. [3] Introdução
Contexto: Números de segunda mão: o artigo cita o Anuário do ICMBio de 2022 (acessado em maio de 2023), que não pôde ser aberto, pois a página estava em manutenção em 13/10/2026. · Limitações: Defasados em relação aos 30.225 do CECAV de novembro de 2025; as contagens por estado da Bahia e de Mato Grosso do Sul não foram obtidas. · Valores arredondados e de segunda mão (artigo que cita o Anuário 2022). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Grupo Bambuí é descrito como o maior grupo carbonático da América do Sul e responde por cerca de 31,5% das cavernas conhecidas do Brasil. [3] Área de estudo
Contexto: Percentual atribuído pelos autores ao Anuário do ICMBio de 2022. · Limitações: A frase do artigo liga o percentual ao grupo, mas gramaticalmente poderia se referir ao cráton do São Francisco; lido aqui como o grupo, como a frase sugere. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na região de Arcos, Pains e Doresópolis (MG) há cerca de 2.600 cavernas registradas em 1.200 km², a maior densidade de cavernas da América do Sul segundo o artigo de 2025. [3] Introdução
Contexto: Região no centro-oeste de Minas Gerais, na porção sul do Grupo Bambuí. · Limitações: O superlativo é dos autores; é densidade de cavernas registradas, e o registro depende do esforço de pesquisa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Estimativas revistas indicam que cerca de 8% do território brasileiro (aproximadamente 600.000 km²) tem condições geológicas favoráveis à formação de cavernas, ao incluir rochas siliciclásticas e minério de ferro, além das carbonáticas. [3] Introdução
Contexto: Referências 25 e 26 do artigo; não abertas. · Limitações: Área favorável não é área com cavernas conhecidas. Os dois números (8% e 600.000 km²) vêm do artigo, que os dá como aproximados. · Estimativa de segunda mão, com os dois valores arredondados pelos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Cerca de 75% das cavernas registradas ficam em municípios com mineração e só 12% estão em unidades de conservação. [3] Introdução
Contexto: Percentuais citados de outros trabalhos (referências 25 e 28 do artigo). · Limitações: Município com mineração não significa caverna sob a mina; e a data da base usada pelos autores citados não é dada no trecho. · Percentuais aproximados e de segunda mão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Carste é uma paisagem em que a dissolução da rocha cria sumidouros, riachos que somem, cavernas e nascentes, e está associada a rochas solúveis como calcário, mármore e gipsita. [5] Karst Landscapes, parágrafo de abertura
Contexto: Definição geral, de um serviço de parques dos Estados Unidos; vale para o mundo, não só para o Brasil. · Limitações: A página não trata do papel do clima nem das cavernas brasileiras. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na Bahia, as áreas de cavernas listadas incluem a região de Serra do Ramalho e São Desidério, no Grupo Bambuí, os grupos Una-Irecê e Rio Pardo, o supergrupo Canudos e, em arenito, a Chapada Diamantina. [6] Resultados, estados com mais espécies
Contexto: Lista feita para identificar onde há espécies subterrâneas obrigatórias; serve aqui só pelas unidades geológicas citadas. · Limitações: O artigo não é um levantamento do número de cavernas por rocha; o trecho não diz quantas cavernas há em cada unidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Mato Grosso do Sul, as regiões de Bonito e Jardim aparecem associadas a calcários do Grupo Corumbá; a Serra da Bodoquena é a área cárstica do Grupo Corumbá no estado. [6] Tabela de espécies, registros por grupo geológico
Contexto: Cavernas calcárias do sudoeste do estado. · Limitações: O artigo lista unidades geológicas associadas a registros de fauna e ameaças, e não dá o número de cavernas de Mato Grosso do Sul. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os autores contam mais de 3.000 cavernas de formação ferrífera documentadas no Brasil, cerca de 20% das conhecidas, em Carajás, no Quadrilátero Ferrífero e na Serra do Espinhaço Meridional. [4] Introdução
Contexto: Contagem de um artigo de 2022 que cita outros trabalhos; as regiões são as citadas na introdução. · Limitações: O percentual é aproximado (~20%) e, com o total de cavernas conhecidas de 2022, não bate exatamente com o de 2025 (30.225). · Número arredondado, de 2022, de segunda mão (referências 1, 21, 22, 25 e 26 do artigo). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A dissolução comum de rocha não explica bem as cavernas de ferro: o Fe(III) é pouco solúvel, e a crosta de canga resistente ao intemperismo sugeria que o carste ali seria limitado. [4] Introdução
Contexto: Argumento dos autores do artigo de 2022 para justificar a pesquisa. · Limitações: É o enquadramento dos autores, não uma medição. · Enquadramento dos autores; a formação das cavernas de ferro ainda é objeto de pesquisa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Uma proposta de 2022 é que microrganismos que reduzem Fe(III) dissolvem a matriz rica em ferro na interface entre o minério (BIF) e a canga, o que abriria as cavernas de ferro de dentro da rocha para fora de trás das paredes. [4] Resumo
Contexto: Cavernas de formação ferrífera do Brasil, a partir de sedimentos e rocha de cavernas estudadas pelos autores. · Limitações: Mecanismo novo, apresentado como sugestão; não foi comprovado como a causa geral das cavernas de ferro e não consta que tenha sido replicado. · Hipótese de um artigo de 2022; os próprios autores a apresentam como sugestão (we suggest). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A concentração de cavernas no cadastro reflete, em parte, onde se pesquisa e se licencia, e não só onde a rocha permite cavernas. [2] 1 - Base legal, §4º [3] Introdução
Contexto: Inferência da redação a partir de duas regras ou números das fontes; nenhuma das duas fontes mede o viés de amostragem. · Limitações: Não há, nas fontes lidas, estimativa de quanto do cadastro vem do licenciamento. · Inferência nossa, não afirmada pelas fontes: o licenciamento obriga a cadastrar, e três quartos das cavernas estão em municípios com mineração. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada
Fontes
- Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) · Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (CECAV) — Cavernas (painel «Números do ICMBio/Cecav»)
ICMBio/CECAV · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) · CECAV — Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas (CANIE)
ICMBio/CECAV · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Animals (MDPI) · Universidade Federal de Lavras — Subterranean Biodiversity on the Brink: Urgent Framework for Conserving the Densest Cave Region in South America
Zampaulo, R. A.; Souza-Silva, M.; Ferreira, R. L. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/ani15192899 - Scientific Reports · Universidade de Akron · Instituto do Carste — Enhanced terrestrial Fe(II) mobilization identified through a novel mechanism of microbially driven cave formation in Fe(III)-rich rocks
Parker, C. W.; Senko, J. M.; Auler, A. S.; Sasowsky, I. D.; Schulz, F.; Woyke, T.; Barton, H. A. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-21365-3 - National Park Service (Estados Unidos) — Karst Landscapes
National Park Service · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - ZooKeys (Universidade Federal de São Carlos) — Brazilian obligatory subterranean fauna and threats to the hypogean environment
Gallão, J. E.; Bichuette, M. E. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3897/zookeys.746.15140
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)