Ciências da Terra

Pontos quentes: como Wilson e Morgan explicaram a cadeia do Havaí e o que ainda se discute sobre plumas

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

A cadeia Havaí–Imperador se estende por quase 6.000 km e fica mais velha para o noroeste. Em 1963, J. Tuzo Wilson propôs que a placa do Pacífico se move sobre uma fonte de magma estacionária no manto; em 1971, W. Jason Morgan ligou esses pontos quentes a plumas profundas e fixas. Hoje se aceita amplamente que o ponto quente do Havaí se deslocou para o sul; discute-se quanto, e se isso explica a curva de 60°.

Quase todos os vulcões ficam perto de fronteiras de placas, mas o Havaí está a mais de 3.200 km da fronteira mais próxima. A hipótese dos pontos quentes diz que há, sob a placa, uma fonte localizada de magma no manto: a placa se move, o vulcão sai de cima da fonte e se apaga, e outro nasce. O resultado é uma fila de vulcões cada vez mais velhos conforme se afastam do ponto ativo. Pluma do manto é a explicação física proposta para essa fonte: uma coluna de material quente que subiria de grande profundidade. A cadeia tem dois trechos, o Havaí (rumo noroeste) e o Imperador, mais antigo (rumo norte), unidos por uma curva de cerca de 60°, datada em cerca de 47 milhões de anos (Ma).

O que os havaianos já suspeitavam

Segundo o USGS, navegantes havaianos notaram, pela erosão, pelo solo e pela vegetação, que as ilhas do noroeste eram mais velhas que as do sudeste. A ideia passou de geração em geração nas lendas de Pele, deusa dos vulcões, séculos antes dos estudos geológicos.

Como sabemos que a cadeia é mais velha para noroeste

As idades vêm de datação radiométrica de rochas dragadas ou perfuradas nos montes submarinos e coletadas nas ilhas. No Havaí atual, as rochas expostas têm menos de 0,7 milhão de anos; em Kauaʻi, cerca de 5,5 milhões, já erodidas; no extremo norte do Imperador, cerca de 85 Ma. A idade cresce de forma ordenada com a distância ao ponto ativo, o que sustenta a ideia de uma fonte parada sob uma placa em movimento.

De Wilson a Morgan: do ponto quente à pluma fixa

Wilson, em 1963, explicou a cadeia como a placa do Pacífico passando sobre uma fonte localizada de fusão. O termo ponto quente veio depois, com Morgan, que em 1971 propôs que essas fontes são plumas profundas, fixas entre si e em relação ao manto, e construiu o primeiro modelo de movimentos absolutos de placas nesse referencial. Fixas, nesse modelo, são as fontes; é a placa que se move, o que prevê a direção de cada cadeia.

O que o magnetismo das rochas mostra, e o que não resolve

Rochas vulcânicas gravam a inclinação do campo magnético, que permite calcular a latitude em que se formaram. Se a fonte fosse fixa, todos os montes teriam a latitude do Havaí atual (19,4° N), mas o monte Detroit (cerca de 80 Ma) dá uma latitude cerca de 15° mais ao norte. Isso indica deriva do ponto quente, embora o movimento do eixo de rotação da Terra em relação ao manto também possa contribuir; Bono e colegas (2019) argumentam que ele pode ser excluído.

O que ainda se discute

Quase todos aceitam alguma deriva para o sul entre 80 e 47 Ma. A disputa é sobre o tamanho dela. Torsvik e colegas (2017) afirmam que só uma mudança de direção da placa há 47 Ma explica a curva de 60°; Bono e colegas (2019) afirmam que a deriva rápida explica a curva sem mudança de placa. Xie e colegas (2024) sugerem que interações rasas explicam cerca de metade da variação. O USGS ainda registra que estudos novos questionam se os pontos quentes são profundos e fixos.

Como sabemos

A idade crescente da cadeia e a história da ideia estão bem documentadas; a causa da curva e a fixidez das plumas seguem em disputa publicada.

Em debate: Torsvik et al. (2017) defendem que a deriva do ponto quente não basta e que a placa do Pacífico mudou de direção por volta de 47 Ma. Bono, Tarduno e Bunge (2019) defendem que o movimento do ponto quente explica a curva. Xie et al. (2024) propõem que processos rasos (arrasto da placa, interação pluma–dorsal) respondem por parte do efeito, com deriva menor do que se pensava.

Fontes

  1. U.S. Geological Survey — This Dynamic Earth: Hotspots: Mantle thermal plumes
    U.S. Geological Survey · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Nature — Convection Plumes in the Lower Mantle
    Morgan, W. J. · 1971 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/230042a0
  3. Nature Communications — Pacific plate motion change caused the Hawaiian-Emperor Bend
    Torsvik, T. H.; Doubrovine, P. V.; Steinberger, B.; Gaina, C.; Spakman, W.; Domeier, M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms15660
  4. Nature Communications — Hotspot motion caused the Hawaiian-Emperor Bend and LLSVPs are not fixed
    Bono, R. K.; Tarduno, J. A.; Bunge, H.-P. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-11314-6
  5. Nature Communications — The role of plume-lithosphere interaction in Hawaii-Emperor chain formation
    Xie, S.; Xie, S.; Cao, Z.; Liu, L.; Yang, D.; Liu, M.; Li, Y.; Qi, R. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-51055-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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