Zoologia

Pombo-passageiro: de 3 a 5 bilhões de aves a nenhuma em 1914, e o que dois estudos de genoma dizem

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O pombo-passageiro (Ectopistes migratorius) teve população estimada em 3 a 5 bilhões nos anos 1800, e a última ave morreu em 1914, no zoológico de Cincinnati. O DNA de peças de museu gerou duas leituras: em 2014, uma equipe inferiu oscilações populacionais drásticas que teriam aumentado a vulnerabilidade à exploração humana; em 2017, outra atribuiu a baixa diversidade genética à seleção natural e contestou essa leitura.

Tamanho de censo (Nc) é o número real de indivíduos; tamanho efetivo (Ne) é o de uma população idealizada que perderia diversidade genética no mesmo ritmo que a real. Ne é puxado para baixo pelos anos de população mínima, por isso é usado para ler oscilações do passado. Diversidade genética neutra é a variação do DNA sem efeito sobre a sobrevivência. Pela teoria, populações grandes deveriam ser mais diversas, mas a diversidade varia numa faixa estreita entre espécies de tamanhos muito diferentes. O pombo-passageiro, com Nc estimado em bilhões, serve de teste extremo dessa expectativa.

A razão 1 para 10.000

Segundo Hung et al., o Ne ao longo do último milhão de anos foi cerca de 1/10.000 do Nc estimado para o século XIX, razão 1.000 vezes menor que a típica. Murray et al. (2017) leem o mesmo achado de outro modo.

Quantos eram, e em quanto tempo sumiram

A estimativa de 3 a 5 bilhões vem de relatos de naturalistas do início e meados do século XIX, não de um censo. Hung et al. a testaram de modo independente com a produção de bolotas dos carvalhos de que as aves se alimentavam: o pico calculado de capacidade de suporte foi compatível com essas estimativas. A última ave morreu em 1914; Hung et al. descrevem a queda de bilhões a zero como ocorrida em cerca de cinco décadas. O intervalo de 3 a 5 bilhões é largo, e a própria faixa de capacidade de suporte varia muito de um ano para outro.

Como o genoma conta a demografia

Cada genoma carrega a história de quantas linhagens se misturaram no passado. Hung et al. usaram três genomas de museu e dois métodos de coalescência para estimar o Ne de longo prazo e suas variações ao longo de um milhão de anos. O limite é de método: três indivíduos, DNA antigo fragmentado, taxa de mutação e tempo de geração assumidos. Por isso o resultado é um intervalo inferido, não uma contagem de aves.

Duas leituras do mesmo problema

Em 2014, Hung et al. tomaram o Ne cerca de 10.000 vezes menor que o Nc como indício de oscilações drásticas, apoiado por modelos de clima e bolotas, e hipotetizaram que isso aumentou a vulnerabilidade à exploração humana. Em 2017, Murray et al. atribuíram a baixa diversidade à seleção natural, que em populações enormes remove variação neutra por ligação, e disseram que isso contradiz a ideia de instabilidade populacional. Corbett-Detig et al. (2015) mostraram, em 40 espécies, que esse efeito cresce com o tamanho de censo, e Leffler et al. (2012) descrevem o enigma geral. Aqui só o resumo de Murray et al. foi lido.

O que dá para concluir e o que falta

Os dois lados concordam que uma espécie com bilhões de indivíduos desapareceu em décadas, e Hung et al. sustentam a explicação com uma hipótese, não com dado de abate. As fontes lidas não trazem números de caça comercial, então este artigo não os estima. Para espécies abundantes, a lição que os autores de 2014 propõem é avaliar a história demográfica e não só o tamanho num dado momento. O estudo de 2017 mostra que diversidade baixa, sozinha, não prova instabilidade passada.

Como sabemos

Os números de censo e as duas leituras genômicas estão em fonte lida, mas o estudo de 2017 foi lido só pelo resumo e a caça não é quantificada.

Em debate: Hung et al. (2014) leem o baixo Ne como sinal de oscilações drásticas e hipotetizam interação com a exploração humana. Murray et al. (2017) atribuem a baixa diversidade à seleção natural em população grande e dizem que seus resultados contradizem a leitura anterior. Ambos concordam que a espécie era numerosa no século XIX e desapareceu em décadas.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Drastic population fluctuations explain the rapid extinction of the passenger pigeon
    Hung, C.-M.; Shaner, P.-J. L.; Zink, R. M.; Liu, W.-C.; Chu, T.-C.; Huang, W.-S.; Li, S.-H. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1401526111
  2. Science — Natural selection shaped the rise and fall of passenger pigeon genomic diversity
    Murray, G. G. R. et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.aao0960
  3. PLoS Biology — Natural selection constrains neutral diversity across a wide range of species
    Corbett-Detig, R. B.; Hartl, D. L.; Sackton, T. B. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.1002112
  4. PLoS Biology — Revisiting an old riddle: what determines genetic diversity levels within species?
    Leffler, E. M. et al. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.1001388
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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