Zoologia
O polvo tem cerca de 500 milhões de neurônios, e mais da metade deles está nos braços
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Um polvo tem cerca de 500 milhões de neurônios, número que lembra o de um cão. Mas, ao contrário dos vertebrados, a maior parte não fica no cérebro: entre três quintos e dois terços estão no sistema nervoso dos braços. Cada braço tem circuitos próprios para controlar movimentos e processar o tato, e um braço seccionado ainda reage a estímulos por algum tempo.
O sistema nervoso do polvo tem três partes principais: o cérebro central, dois grandes lobos ópticos ligados aos olhos e o sistema nervoso dos braços, o mais numeroso em neurônios. A ligação entre elas é estreita: cerca de 30 mil fibras nervosas conectam cérebro, lobos ópticos e braços, o que sugere que boa parte do processamento motor e sensorial acontece na periferia. A imagem popular do animal de 'nove cérebros' é, porém, simplificada. Em 2020, um estudo na revista Current Biology mostrou que polvos aprendem um labirinto usando a informação sensorial de um único braço e depois aplicam o aprendizado a outros braços. Isso indica que o aprendizado ocorre no cérebro e fica disponível a todos os braços: a organização é distribuída, mas coordenada.
Genes que se achava serem só de vertebrados
O genoma do polvo-de-duas-manchas (Octopus bimaculoides), sequenciado em 2015, revelou expansões enormes de duas famílias de genes antes tidas como exclusivas de vertebrados: as protocaderinas, que regulam o desenvolvimento dos neurônios, e os dedos de zinco do tipo C2H2. É uma pista de como um sistema nervoso grande evoluiu nos cefalópodes.
Três regiões, uma arquitetura distribuída
O polvo tem o maior sistema nervoso entre os invertebrados, com cerca de 500 milhões de neurônios. Eles se dividem em três regiões: o cérebro, os lobos ópticos que recebem a informação dos olhos e o sistema nervoso dos braços. Os braços concentram a maior parte das células, entre três quintos e dois terços, conforme a fonte. Só cerca de 30 mil fibras ligam as três regiões entre si, número pequeno diante do total de neurônios.
Braços com autonomia local
Cada braço tem um cordão nervoso axial, que funciona como um centro de processamento e controle. Experimentos antigos, como os de Rowell em 1963, mostraram que ventosas de braços amputados ainda agarram ao serem tocadas, por até cerca de três horas. O controle fino das ventosas fica, portanto, nas próprias ventosas e nos gânglios do braço, e não depende de ordens detalhadas do cérebro a cada movimento.
O que o estudo de 2020 corrigiu
Ao testar polvos em um labirinto, pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa e colegas mostraram que o animal pode aprender usando só a informação de um braço e transferir esse aprendizado a outros. Para os autores, isso refuta a ideia de um 'animal de nove cérebros' e favorece um modelo de um cérebro central que dirige oito braços coordenados e muito capazes.
Genes, evolução e uma pergunta aberta
O genoma do polvo-de-duas-manchas, publicado em 2015, mostrou expansões grandes de protocaderinas e de dedos de zinco C2H2, famílias associadas ao desenvolvimento neuronal. A anatomia distribuída levou alguns autores a perguntar se um polvo teria uma ou várias formas de experiência consciente. É um debate especulativo: a revisão que o discute o apresenta como hipótese, sem conclusão empírica.
Como sabemos
Números e experimentos vêm de revisões e artigos em revistas indexadas; a fração exata de neurônios nos braços é a única divergência entre as fontes.
Em debate: A fração de neurônios nos braços varia conforme a fonte: três quintos em uma revisão de 2022, mais de dois terços em outras. A conta depende de como se delimitam braços, corpo e cérebro.
Em debate: A ideia de 'nove cérebros' é contestada: o estudo de 2020 mostra que o cérebro central participa do aprendizado dos braços. Se há algo como uma 'experiência' nos braços é especulação filosófica, não resultado experimental.
- Consenso científico: O polvo tem cerca de 500 milhões de neurônios, número típico de vertebrados como o cão e o maior entre os invertebrados. [1] [2]
- Estimativa: A maior parte dos neurônios fica no sistema nervoso dos braços, não no cérebro: a fração citada vai de três quintos a dois terços. [1] [2]
A revisão de 2022 cita três quintos e o comunicado do estudo de 2020 cita mais de dois terços (braços e corpo); a contagem exata depende do método. - Fato estabelecido: O sistema nervoso do polvo se divide em três partes principais: cérebro, lobos ópticos e sistema nervoso dos braços. [1]
- Evidência forte: Cerca de 30 mil fibras nervosas ligam cérebro, lobos ópticos e braços, o que sugere que muito processamento ocorre na periferia. [1]
- Evidência forte: Braços seccionados mantêm reflexos, como a preensão ao toque nas ventosas, por até cerca de três horas (estudos de Rowell, 1963). [1]
- Evidência forte: Em estudo de 2020 na Current Biology, polvos aprenderam um labirinto com informação de um braço e aplicaram o aprendizado a outros braços; o aprendizado ocorre no cérebro e fica disponível a todos os braços. [2]
- Evidência forte: Os braços não são totalmente independentes do cérebro: há fluxo de informação entre o sistema nervoso periférico e o central. [2]
- Fato estabelecido: O genoma de Octopus bimaculoides foi publicado em 2015 e mostra grandes expansões das protocaderinas e dos dedos de zinco C2H2, antes tidas como expansões exclusivas de vertebrados. [3]
- Hipótese: Se o polvo tem experiência consciente, e de que tipo, é uma questão em aberto; a literatura trata o tema como especulação. [1]
Hipótese discutida em artigo de revisão; não há consenso nem teste decisivo.
Fontes
- Frontiers in Systems Neuroscience — Where Is It Like to Be an Octopus?
consultada em 04/10/2026 - Okinawa Institute of Science and Technology (comunicado sobre estudo na Current Biology) — Do octopuses' arms have a mind of their own?
consultada em 04/10/2026 - Nature — The octopus genome and the evolution of cephalopod neural and morphological novelties
consultada em 04/10/2026
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