Ciências da Terra
O polo norte magnético se move cerca de 36 km por ano, e a origem está no fluxo do núcleo externo
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
O polo norte magnético, onde o campo da Terra aponta na vertical, foi medido pela primeira vez no Canadá em 1831 e, pelo modelo do NOAA, estava em 2025 a 85,8°N e 139,3°E, rumo à Sibéria. Entre 1990 e 2005 sua velocidade subiu de 0–15 km por ano para 50–60 km; hoje é de cerca de 36 km por ano. O deslocamento reflete mudanças do campo no núcleo externo líquido, que só se preveem por poucos anos.
Há três "polos norte" diferentes. O geográfico é o eixo de rotação e não se move. O polo de inclinação (dip pole, ou polo magnético) é onde o campo magnético é exatamente vertical; é ele que deriva e de que trata este post. O polo geomagnético vem de um modelo: é onde o eixo de um ímã fictício no centro da Terra, que melhor imita o campo, fura a superfície. A bússola aponta a direção do campo no lugar onde está, e o ângulo entre esse norte e o geográfico é a declinação magnética. Como o campo muda no tempo (a chamada variação secular), a declinação muda, e por isso a navegação usa modelos como o World Magnetic Model (WMM), refeito a cada cinco anos. O campo nasce do movimento do ferro líquido do núcleo externo (ver os posts ligados).
O polo geomagnético quase não se parece com o polo móvel
Pelo WMM2025, o polo geomagnético norte (do dipolo) fica a 80,85°N, 72,76°O, e o eixo do dipolo é inclinado 9,21° em relação ao eixo de rotação. Já o polo de inclinação está a 85,8°N: são pontos distintos, e só o segundo anda dezenas de km por ano.
A série de posições: lenta, depois rápida, agora desacelerando
Na série do NOAA, o polo estava em 1900 perto de 70,5°N, 263,8°E, no Ártico canadense. Pela nossa conta, entre 1900 e 1990 ele andou cerca de 10 km por ano; de 1990 a 2000, ~34 km; de 2000 a 2010, ~54 km; de 2020 a 2025, ~40 km. Um estudo de 2020 dá 0–15 km/ano antes de 1990 e 50–60 km/ano depois de 2005. A latitude máxima da série, 86,6°N, foi em 2018, e desde então o polo se afasta do polo geográfico (a ~4,2° dele em 2025, cálculo nosso). Os 2.500 km entre 1900 e 2025 são cálculo nosso, em linha reta.
Por que anda: o campo muda porque o núcleo externo flui
O campo principal vem do ferro líquido do núcleo externo; seus fluxos e ondas fazem o campo variar, a chamada variação secular. Livermore et al. (2020) mostram que, nas últimas duas décadas, a posição do polo foi determinada por dois lóbulos de fluxo magnético negativo na fronteira entre núcleo e manto, sob o Canadá e a Sibéria. O alongamento do lóbulo canadense, provavelmente causado por uma mudança no fluxo do núcleo entre 1970 e 1999, teria feito o polo acelerar. É uma explicação por modelos: o núcleo não é visto, e o resumo diz "provavelmente".
Como sabemos onde está o polo, e com que precisão
O polo de inclinação se mede indo até lá: Ross o localizou em 1831; o Canadá fez levantamentos de 1948 a 1994; expedições internacionais acrescentaram 2001 e 2007, e o mais recente indicou ~55 km por ano rumo ao norte-noroeste. Hoje se usa um modelo que ajusta dados de satélites Swarm e de observatórios. O relatório de dezembro de 2025 compara o modelo com esse polo "observado": a diferença foi de poucos km, bem menor que o passo anual de ~36 km. O limite é que o campo na superfície é vertical em ovais diárias, não num ponto fixo.
Do polo à bússola: por que o modelo é refeito a cada cinco anos
A bússola aponta para o campo local, e o desvio do norte geográfico (declinação) muda com o tempo. O WMM, usado em navios, aviões e celulares, é refeito a cada cinco anos para acompanhar essa mudança. Entre 2015 e 2020 o polo norte acelerou logo depois do lançamento do WMM2015, o erro de previsão chegou a 10 km/ano e foi preciso lançar o WMM2015v2 fora do ciclo. Perto dos polos, onde o campo horizontal é fraco, a bússola é menos confiável (as zonas de blecaute do modelo).
Como sabemos
Posições e velocidades vêm do NOAA e de levantamentos publicados; a explicação pelo núcleo é, em parte, hipótese.
- Fato estabelecido: O polo magnético (polo de inclinação) é o ponto da superfície da Terra onde o campo geomagnético é vertical. [1] Wandering of the Geomagnetic Poles, 1º parágrafo
Contexto: Definição de polo de inclinação (dip pole). Existem outras definições, calculadas a partir de modelos. · Limitações: Na prática o campo é vertical em ovais percorridas diariamente, com variação de um dia para o outro; por isso a posição "do dia" é um valor médio. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 1831, James Clark Ross localizou o polo norte magnético no norte do Canadá; o Canadá fez levantamentos periódicos de 1948 a 1994, e o levantamento mais recente (2007) indicou deslocamento para norte-noroeste a cerca de 55 km por ano. [1] Experimental Observations of Dip Poles
Contexto: Primeira observação direta do polo norte magnético. · Limitações: A página não dá o ano do levantamento mais recente; o ano 2007 vem do texto, que cita as expedições de 2001 e 2007, e o valor de 55 km/ano é o dado ali. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Desde as primeiras medidas em 1831, o polo derivou rumo à Sibéria, acelerando entre 1990 e 2005 de sua velocidade histórica de 0–15 km/ano para a atual, de 50–60 km/ano (segundo um estudo de 2020). [4] Resumo
Contexto: O estudo é de 2020: "atual" refere-se a cerca de 2020; o relatório de dezembro de 2025 dá 36 km/ano para 2025-2026 (a6). · Limitações: Acesso só ao resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em fins de outubro de 2017 o polo norte magnético cruzou a linha internacional de data, passando a menos de 390 km do polo geográfico, e desde então se move para o sul, afastando-se dele. [4] Resumo
Contexto: Posição do polo de inclinação segundo modelos de campo. · Limitações: Acesso só ao resumo; 'para o sul' significa afastar-se do polo geográfico, sem deixar de ir rumo à Sibéria. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pelo modelo atual do NOAA (WMM), a posição do polo norte magnético em 2025 é 85,762°N e 139,298°E. [1] Movement of Magnetic Poles From 1590 to 2030
Contexto: Posição calculada pelo World Magnetic Model para a época 2025.0. · Limitações: É posição de modelo, não medida no gelo. O relatório de dezembro de 2025 compara o modelo com o polo "observado" (obtido de um modelo de dados do satélite Swarm) e acha diferenças de poucos km. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Desde 1º de janeiro de 2025, o polo norte magnético se move em média a 36 km/ano e o polo sul a 9 km/ano, sem mudança significativa de direção. [3] Summary
Contexto: Média do período de 2025.0 a 2026.0, calculada com um modelo do campo principal baseado em dados Swarm. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O WMM2025 e o WMMHR2025 preveem que a velocidade do polo norte magnético diminua gradualmente, para pouco mais de 30 km/ano até o fim da década. [3] Magnetic Dip Poles and Blackout Zones
Contexto: Previsão por extrapolação linear da variação secular medida até 2024. · Limitações: Mudanças não lineares do núcleo não são previsíveis; por isso o modelo é refeito a cada cinco anos. A previsão do estudo de 2020 (a11) e a do WMM têm métodos diferentes. · Previsão de modelo, válida para o ciclo 2025-2030; pode errar se houver um pulso de aceleração. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O campo magnético principal muda o tempo todo por causa de fluxos de convecção e de ondas no núcleo externo líquido da Terra; como o sistema é essencialmente caótico em escalas longas, essas mudanças não podem ser totalmente previstas. [3] Introduction
Contexto: Descrição geral da origem da variação secular, usada para justificar a atualização periódica do WMM. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Nas duas últimas décadas a posição do polo foi determinada em grande parte por dois grandes lóbulos de fluxo magnético negativo na fronteira núcleo-manto, sob o Canadá e a Sibéria. [4] Resumo
Contexto: Resultado de modelagem do campo na fronteira núcleo-manto e da posição do polo na superfície, para os anos de 2000 a 2020. · Limitações: O fluxo na fronteira núcleo-manto é inferido do campo na superfície e de satélites; o resumo é a única parte lida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Segundo o mesmo estudo, o alongamento do lóbulo canadense, provavelmente causado por uma mudança no padrão do fluxo do núcleo entre 1970 e 1999, enfraqueceu a assinatura dele na superfície e fez o polo acelerar rumo à Sibéria. [4] Resumo
Contexto: Modelagem localizada do campo; a causa no fluxo do núcleo é descrita como provável pelos autores. · Limitações: O fluxo no núcleo não é medido, é inferido; outras explicações já foram propostas na literatura. · Mecanismo proposto por um estudo (2020), não consenso estabelecido; o resumo usa 'likely' (provável). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: O mesmo estudo estima que, na década seguinte a 2020, o polo continue na trajetória atual e percorra mais 390–660 km rumo à Sibéria. [4] Resumo
Contexto: Projeção de modelos simples feita em 2020 para o intervalo de cerca de 2020 a 2030. · Limitações: Projeção sujeita a mudanças não lineares do núcleo (ver a7 e a8); comparar com a previsão do WMM em a7. · Estimativa de modelos simples, com faixa de 390–660 km. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na série de posições do NOAA, o polo estava em 2023 a 86,126°N e 146,334°E, em 2024 a 85,958°N e 141,945°E e em 2025 a 85,778°N e 138,057°E, um passo de cerca de 37 km no último ano. [2] Últimas linhas do arquivo (longitude, latitude, ano)
Contexto: Colunas do arquivo NP.xy: longitude, latitude e ano. · Limitações: A distância de 37 km entre 2024 e 2025 é cálculo nosso (círculo máximo, raio da Terra de 6.371 km) a partir dos dois pontos. Os valores recentes da série são de modelo (IGRF/WMM), e diferem poucos km da posição do WMM2025 citada em a5. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na série do NOAA, a latitude do polo chegou ao máximo de 86,6°N em 2018 e depois diminuiu; a longitude passou de 184,5°E em 2017 para 176,9°E em 2018, ou seja, o polo cruzou o meridiano de 180° entre esses dois anos. [2] Linhas de 2017 a 2019
Contexto: Leitura da série anual, onde 184,5°E equivale a 175,5°O. · Limitações: A leitura do máximo e do cruzamento é nossa, feita sobre os valores anuais do arquivo; a série é de modelo, com passo de um ano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 1900 a série do NOAA põe o polo em 70,46°N e 263,8°E (Ártico canadense); em 2025, em 85,78°N e 138,1°E. O deslocamento entre os dois pontos é de cerca de 2.500 km. [2] Linhas de 1899 a 1901
Contexto: Posições modeladas do arquivo NP.xy (longitude, latitude, ano). · Limitações: A distância (~2.475 km, círculo máximo) é cálculo nosso entre dois pontos, não o comprimento do caminho percorrido, que é maior. A posição de 1900 é de modelo, com incerteza de até algumas centenas de km no século XX segundo Chulliat et al. (2010). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O WMM é atualizado a cada cinco anos para acompanhar as mudanças do campo; a aceleração do polo norte logo após o lançamento do WMM2015 gerou diferenças de até 10 km/ano entre previsão e observação, o que exigiu uma atualização fora do ciclo, o WMM2015v2. [5] Página do World Magnetic Model [3] Magnetic Dip Poles and Blackout Zones
Contexto: Navegação por bússola, aeronaves, navios e celulares usam o WMM para corrigir a declinação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- NOAA/NCEI — Wandering of the Geomagnetic Poles
NOAA National Centers for Environmental Information · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - NOAA/NGDC — NP.xy: posições do polo norte magnético, 1590-2025
NOAA National Centers for Environmental Information · 2020 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - NOAA/NCEI — State of the Geomagnetic Field, December 2025
NOAA NCEI; British Geological Survey · 2025-12 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - arXiv (preprint); publicado em Nature Geoscience, v. 13, 2020 — Recent north magnetic pole acceleration towards Siberia caused by flux lobe elongation (preprint do artigo publicado na Nature Geoscience)
Livermore, P. W.; Finlay, C. C.; Bayliff, M. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41561-020-0570-9 - NOAA/NCEI — World Magnetic Model (WMM)
NOAA NCEI; British Geological Survey · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)