Ecologia

A poeira do Saara que cruza o Atlântico e chega à Amazônia carrega fósforo para um solo pobre nele

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Medições do satélite CALIPSO, da NASA, entre 2007 e 2013 indicam que cerca de 182 milhões de toneladas de poeira saem do Saara por ano e que cerca de 27,7 milhões caem sobre a bacia amazônica. Nessa poeira vêm cerca de 22.000 toneladas de fósforo por ano, nutriente escasso nos solos da floresta. A origem principal, porém, é debatida: a depressão de Bodélé, no Chade, era a candidata clássica, e um estudo de 2020 questiona esse papel.

O fósforo é essencial para as plantas, e os solos amazônicos, muito intemperizados, têm pouco dele disponível. A chuva também o leva da bacia para os rios. Em 2015, o grupo de Hongbin Yu, da Universidade de Maryland e da NASA, usou o lidar do satélite CALIPSO para medir em três dimensões a poeira que atravessa o Atlântico entre 2007 e 2013. Calcularam quanto da poeira africana se deposita na Amazônia e, com amostras de poeira da depressão de Bodélé, quanto fósforo ela traz. O valor, cerca de 22.000 toneladas por ano, é da mesma ordem do que a bacia perde por escoamento. A quantidade varia muito de um ano para outro.

Uma depressão pequena, um papel enorme

A depressão de Bodélé, no Chade, ocupa só cerca de 0,2% do Saara. Estimativas clássicas da NASA lhe atribuíam cerca de metade da poeira que cruza o Atlântico, mas esse número é contestado.

Por que o fósforo faz falta

Os solos dominantes na Amazônia, latossolos e argissolos, são muito intemperizados, com fortes limitações nutricionais. Em um estudo no Pará, o fósforo aparece como o elemento mais limitante, deficiente em cerca de 90% dos solos da região. Ele se move pouco no solo e se concentra na superfície, onde a matéria orgânica é a principal fonte. A chuva também arrasta parte do fósforo para rios e córregos.

Como o satélite mediu a poeira

O CALIPSO emite pulsos de laser e registra o que volta, o que dá o perfil vertical de partículas na atmosfera. Entre 2007 e 2013, a equipe de Hongbin Yu usou esses perfis para seguir a poeira do Saara pelo Atlântico e estimar quanto sai da África, quanto chega à América do Sul e quanto cai na bacia amazônica, em medições tridimensionais.

O balanço de fósforo

Com o teor de fósforo de amostras de poeira de Bodélé, a equipe calculou cerca de 22.000 toneladas por ano depositadas na Amazônia, da mesma ordem do que a bacia perde por escoamento. A transferência varia: entre 2007, ano de maior transporte, e 2011, ano de menor, a diferença foi de 86%. Por isso a conta é uma estimativa, não um valor fixo.

A discussão sobre a fonte

O teor de fósforo depende de onde a poeira nasce. A depressão de Bodélé, leito seco de um antigo lago, é uma fonte muito ativa, mas um estudo de 2020 concluiu que boa parte da sua poeira cai perto da origem e que El Djouf teria rotas mais favoráveis ao Atlântico. O debate ainda está aberto e pode alterar a estimativa de fósforo.

Como sabemos

O fluxo de poeira e de fósforo é medido por satélite, mas são estimativas, e a fonte dominante é debatida.

Em debate:

Fontes

  1. NASA Goddard Space Flight Center — NASA Satellite Reveals How Much Saharan Dust Feeds Amazon's Plants
    consultada em 05/10/2026
  2. NASA Scientific Visualization Studio — CALIPSO observes Saharan dust crossing the Atlantic Ocean
    consultada em 05/10/2026
  3. NASA Earth Observatory — Bodele Depression: Dust Feeds Amazon
    consultada em 05/10/2026
  4. Geophysical Research Letters (resumo no DOE EESM) — Disproving Bodélé Depression as the primary source of dust fertilizing the Amazon rainforest
    consultada em 05/10/2026
  5. Acta Amazonica (INPA) — Effect of land use and management on chemical properties of a yellow latosol in Pará State, Brazil
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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