Ciências da Terra

Plumas do manto: o que o hélio e os isótopos das ilhas dizem sobre reservatórios profundos, e o debate

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

Lavas de ilhas oceânicas guardam, em isótopos de hélio, chumbo, estrôncio e neodímio, a assinatura da rocha de onde vieram. Como essas razões diferem das lavas de dorsais, a leitura dominante é que o manto tem pelo menos dois reservatórios, e que algumas plumas amostram material pouco desgaseificado, outras crosta oceânica reciclada. Se essas plumas existem como colunas profundas continua em debate.

Basalto de ilha oceânica (OIB, na sigla em inglês) é a lava que forma ilhas longe das bordas de placas, como Havaí e La Réunion. Basalto de dorsal (MORB) sai do manto que sobe passivamente sob as dorsais. A comparação é feita por razões isotópicas: o hélio-3 tem origem primordial, o hélio-4 cresce com a decomposição radioativa de urânio e tório, e a razão 3He/4He é medida em múltiplos (R/RA) da razão atmosférica. Razões de Sr, Nd e Pb funcionam de modo parecido: crosta com muito urânio, tório e rubídio, isolada por bilhões de anos, desenvolve uma assinatura radiogênica própria. Este post trata da química das lavas; a cadeia do Havaí e a pluma da Islândia já têm posts próprios, e a tomografia sísmica das placas afundadas também.

Uma cadeia que muda de química com a idade

Nos montes submarinos Detroit, Suiko e Koko, da cadeia Havaí–Imperador, o hélio vai de valores típicos de dorsal, no mais antigo, a valores altos nos mais novos, junto com mais crosta reciclada na fonte.

Por que o hélio é o traçador mais usado

O hélio-3 é herdado da formação da Terra, e o hélio-4 se acumula pela decomposição radioativa. Uma fonte pouco desgaseificada guarda mais hélio-3 em relação ao hélio-4 que o manto superior, que já foi processado muitas vezes sob as dorsais. Por isso as lavas de ilha com 5 a 50 RA contrastam com os 8 RA de dorsal. Os autores do estudo do Havaí tratam isso como base de pelo menos dois reservatórios, e como indício de que plumas amostram o menos desgaseificado.

Crosta reciclada deixa outra assinatura

Quando uma placa oceânica afunda, a crosta carrega mais urânio, tório e rubídio que o manto. Depois de mais de 1 bilhão de anos isolada, essa crosta tem Sr e Pb radiogênicos mais altos e Nd mais baixo. Ilhas como Canárias, Santa Helena e Açores seriam assim. Casos como Samoa e Pitcairn misturam hélio alto com Sr, Nd e Pb enriquecidos. A conclusão cautelosa é que o manto tem várias fontes, e que as lavas são misturas delas.

Onde ficam os reservatórios? As LLSVPs

Duas grandes zonas lentas sob a África e o Pacífico, as LLSVPs, são candidatas à morada de material distinto. A origem é debatida: térmica, química ou as duas. Um experimento de 2025 sugere que de 23 a 33% de crosta oceânica explicam a anomalia típica, mas isso mostra compatibilidade, não prova. Ligar essas zonas a reservatórios geoquímicos é uma hipótese de trabalho, e não uma medida.

O debate: plumas profundas existem como colunas?

A leitura geoquímica clássica assume plumas profundas. A literatura registra um debate de longa data entre plumas ancoradas no manto médio ou profundo e processos rasos do manto superior. A tomografia sob o oceano Índico mostra condutos separados sob La Réunion e Comores, mas ainda se discute se as LLSVPs são massas compactas ou feixes de plumas. Quem lê um artigo de geoquímica deve ver que o quadro de plumas é, em geral, a premissa, e não o teste.

Como sabemos

O contraste de hélio e de isótopos entre ilhas e dorsais é bem estabelecido; a origem profunda das plumas e a natureza das LLSVPs seguem em debate.

Em debate:

Em debate:

Fontes

  1. Geochemistry, Geophysics, Geosystems (AGU) — Recycled Components in Mantle Plumes Deduced From Variations in Halogens (Cl, Br, and I), Trace Elements, and 3He/4He Along the Hawaiian-Emperor Seamount Chain
    Broadley, M. W.; Sumino, H.; Graham, D. W.; Burgess, R.; Ballentine, C. J. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1029/2018GC007959
  2. Science Advances — Intraplate volcanism triggered by bursts in slab flux
    Mather, B. R.; Müller, R. D.; Seton, M.; Ruttor, S.; Nebel, O.; Mortimer, N. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.abd0953
  3. Science Advances — Imaging deep-mantle plumbing beneath La Réunion and Comores hot spots: Vertical plume conduits and horizontal ponding zones
    Autoria conforme o artigo (Science Advances, 2023) · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.ade3723
  4. Communications Earth & Environment — The presence of ancient subducted oceanic crust contributes to seismic anomalies in Large Low Shear Velocity Provinces
    Autoria conforme o artigo (Communications Earth & Environment, 2025) · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s43247-025-02700-8
  5. Nature Communications — Synchronous motion of the Easter mantle plume and the East Pacific Rise
    Autoria conforme o artigo (Nature Communications, 2024) · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-54115-2
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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