Botânica

Plantas-jarro de Bornéu que recebem fezes: morcegos e tupaias como fonte de nitrogênio

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em Bornéu, duas plantas-jarro (Nepenthes) obtêm nitrogênio de fezes de mamíferos. Nas urnas de N. rafflesiana var. elongata (tratada depois como N. hemsleyana) dorme o morcego Kerivoula hardwickii, e as fezes dele forneceriam em média 33,8% do nitrogênio foliar. Em N. lowii, a tupaia Tupaia montana lambe o exsudato da tampa e defeca na urna, e a estimativa é de 57% a 100%. As duas cifras são estimativas por isótopos, de um estudo cada.

Nepenthes é um gênero de plantas-jarro tropicais cujas folhas formam urnas com líquido digestivo, normalmente armadilhas para insetos, sobretudo formigas. Crescem em solo pobre em nitrogênio, um nutriente que a planta usa para fazer proteínas e clorofila. Em Bornéu, algumas espécies têm urnas que atraem mamíferos em vez de presas: o morcego-lanoso-de-Hardwicke (Kerivoula hardwickii) usa a urna como abrigo diurno, e a tupaia Tupaia montana, também chamada de musaranho-arborícola (ou tupaia), lambe o exsudato açucarado da tampa. Em troca, o animal deixa as fezes dentro da urna, e o nitrogênio delas é absorvido pela planta. É uma troca em que a planta oferece abrigo ou alimento e recebe nutriente.

Uma urna que virou assento

A tampa de N. lowii fica afastada da boca, e a boca é larga: a tupaia, de cerca de 150 g, senta sobre a abertura para lamber o exsudato, e as fezes caem dentro. A borda quase não tem a superfície escorregadia das urnas armadilha.

O que cada parceiro recebe

O morcego recebe um abrigo diurno: as urnas de var. elongata têm 151,4 mm entre a borda e o líquido, contra 50,5 mm nas de var. typica, e o líquido é mais raso. Na maioria das urnas de var. elongata cabem dois morcegos, um acima do outro. A tupaia recebe alimento: o exsudato da tampa de N. lowii, que ela lambe antes de defecar. A planta recebe nitrogênio das fezes.

Como sabemos: o nitrogênio rastreado por isótopos

O nitrogênio vem em duas versões, 14N e 15N, e a razão entre elas (δ15N) sobe a cada degrau da cadeia alimentar. Fezes de morcegos insetívoros têm δ15N mais alto que os insetos. Os autores compararam a razão nas folhas de urnas com e sem morcego e usaram um modelo de mistura de duas fontes para estimar a fração vinda das fezes. Limites: foram só 3 amostras de fezes de morcego, e a faixa resultante é larga (11% a 56%). Em N. lowii, a faixa é de 57% a 100%.

Por que trocar a armadilha pelo banheiro

Plantas jovens de N. lowii são carnívoras típicas; as adultas passam a urnas aéreas sem as características de armadilha. Uma hipótese para o cume: no Gunung Mulu há 28 vezes mais formigas por área no sopé do que no topo, e presa escassa reduz o ganho da armadilha (a lógica do modelo de custo e benefício, tratada em outro post). Mas var. elongata vive em terras baixas, e os autores concluem que a baixa densidade de artrópodes em montanhas não pode ser o único fator. O ganho também é irregular: só 22,8% das urnas tinham morcego.

A parceria é firme? O que ainda se discute

A fidelidade do morcego é limitada: o artigo de 2017 achou que a maioria dos animais se mantém no tipo de abrigo em que foi achada, e só 21% dos que estavam em folhas enroladas passaram a urnas nos testes. Os autores atribuem isso, provavelmente, a tradições de abrigo. Em N. rajah, o rato Rattus baluensis também defeca nas urnas, à noite, e as taxas diárias de fezes são parecidas com as da tupaia. Falta medir o ganho de cada espécie.

Como sabemos

Resultados de estudos revisados por pares lidos no texto, mas cada cifra vem de um único estudo de campo com poucas amostras de fezes e faixas largas.

Fontes

  1. Biology Letters (Royal Society) — A novel resource-service mutualism between bats and pitcher plants
    Grafe, T. U.; Schöner, C. R.; Kerth, G.; Junaidi, A.; Schöner, M. G. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2010.1141
  2. Biology Letters (Royal Society) — Tree shrew lavatories: a novel nitrogen sequestration strategy in a tropical pitcher plant
    Clarke, C. M.; Bauer, U.; Lee, C. C.; Tuen, A. A.; Rembold, K.; Moran, J. A. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2009.0311
  3. Scientific Reports — Stabilization of a bat-pitcher plant mutualism
    Schöner, C. R.; Schöner, M. G.; Grafe, T. U.; Clarke, C. M.; Dombrowski, L.; Tan, M. C.; Kerth, G. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-13535-5
  4. PLoS ONE — A unique resource mutualism between the giant Bornean pitcher plant, Nepenthes rajah, and members of a small mammal community
    Greenwood, M.; Clarke, C.; Lee, C. C.; Gunsalam, A.; Clarke, R. H. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0021114
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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