Ciências da Terra

Por que algumas placas que afundam empacam a cerca de 660 km: fases minerais, água e viscosidade, em debate

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

Placas oceânicas que afundam às vezes se achatam e ficam dezenas de milhões de anos na base da zona de transição do manto, perto de 660 km, enquanto outras seguem para o manto inferior. A explicação clássica, a mudança de fase da ringwoodita em bridgmanita, tem inclinação suave demais nos experimentos recentes. Hoje se debatem outra transição mineral, a água e a viscosidade, sem consenso.

A zona de transição do manto vai de cerca de 410 a 660 km de profundidade, e seus limites são descontinuidades sísmicas ligadas a mudanças de fase dos minerais. Perto de 660 km, a ringwoodita se desfaz em bridgmanita e ferropericlásio. Cada mudança de fase tem uma inclinação de Clapeyron, a razão entre a variação de pressão e a de temperatura da transição. Como a placa é mais fria que o manto vizinho, o limite pode ficar mais fundo dentro dela; na explicação clássica, isso gera flutuabilidade local e segura a descida. A viscosidade, a resistência do manto a escoar, entra como segundo fator. A discussão é saber qual deles manda em cada caso.

Dois sinais onde se esperava um

Sob o nordeste da Eurásia, ondas convertidas mostraram dois sinais perto da base da zona de transição, a cerca de 670 e 695 km. Os autores ligam o mais fundo à transição akimotoita→bridgmanita num material basáltico seco; é interpretação, não amostra direta.

Duas transições minerais, duas inclinações

Perto de 660 km, a ringwoodita se desfaz em bridgmanita e ferropericlásio. Medições de difração de raios X in situ dão a essa transição inclinações de −1,3 a −0,5 MPa/K, que só variariam a descontinuidade entre 630 e 670 km. A transição akimotoita→bridgmanita, em experimentos de 2022, é bem mais íngreme: −8,1 MPa/K até 1.300 K. Numa placa a 900 K, por extrapolação, a descontinuidade iria a cerca de 740 km. Os autores dizem que isso causaria estagnação.

Água e basalto no nordeste da Eurásia

Um estudo de 2026 usou 65.655 funções do receptor de 1.339 estações. Onde há placas estagnadas, a descontinuidade de 660 km aparece de 10 a 15 km mais funda do que a transição sem água permitiria, e os autores atribuem isso provavelmente à água: cerca de 2% em peso explicariam 15 km. No modelo deles, a flutuabilidade passa de ~27,5% para ~97,5% do peso da placa. Não veem apoio a uma camada ampla de granadito, só a um acúmulo basáltico local.

Viscosidade, grão e recuo da fossa

Um aumento brusco de viscosidade na base da zona de transição e placas fracas favorecem a estagnação. Como valem em todo lugar, não explicam por que umas placas param e outras atravessam. Modelos numéricos de 2026 incluem o tamanho de grão, que diminui nas mudanças de fase e cria uma zona de baixa viscosidade abaixo de 660 km. Com recuo lento da fossa e essa zona, a placa estaciona perto de 1.000 km; com recuo rápido, perto de 660 km. É hipótese de modelo, ainda a testar.

Como sabemos, e com que limites

No laboratório, prensas de múltiplas bigornas com raios X acompanham, a pressão e temperatura fixas, qual fase cresce, para não confundir fases metaestáveis com estáveis. No campo, funções do receptor usam ondas P convertidas em S nas interfaces do manto e dependem de correção com modelos tomográficos; os autores dizem que trocar o modelo não mudou as conclusões. Entre laboratório, imagem e estagnação, o elo é a modelagem, não a observação direta.

Como sabemos

Três artigos abertos lidos em texto integral, dois deles de 2026 e ainda sem replicação, sobre um tema em debate; os fatos experimentais são firmes, as causas ainda não.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications — Slab stagnation sustained by wet harzburgite and dry basaltic slab assemblages
    Shi, D.; Shen, Y.; Zhao, R.; et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-026-75639-9
  2. Nature Communications — Dual slab stagnation depths controlled by grain-size-induced sporadic low-viscosity zones at around 1000 km depth
    Li, J.; Li, K.; Li, J.; Fei, H.; Hu, J. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-026-69987-9
  3. Nature — Depressed 660-km discontinuity caused by akimotoite–bridgmanite transition
    Chanyshev, A.; Ishii, T.; Bondar, D.; et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-021-04157-z
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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