Zoologia
O pirarucu respira ar com a bexiga natatória, e é assim que pescadores do Mamirauá o contam
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
O pirarucu (Arapaima gigas) vive na água, mas depende do ar: suas brânquias não captam todo o oxigênio de que ele precisa. Em condições normais, vem à superfície a cada 5 a 15 minutos e engole ar, que fica na bexiga natatória, transformada em órgão que funciona como pulmão. Esse hábito virou método de pesquisa: no Amazonas, pescadores contam os peixes no instante em que sobem para respirar.
O pirarucu chega a cerca de 3 metros e 200 quilos, segundo o Instituto Mamirauá, e é nativo da bacia amazônica. Quanto maior o peixe, maior pode ser o intervalo entre uma subida e outra. Nos anos 1990 a espécie estava sobre-explorada na maior parte da bacia. Em 1999, na Reserva Mamirauá, pesquisadores e pescadores passaram a testar um manejo comunitário baseado em contagens anuais feitas pelos próprios pescadores e em cotas de pesca. Na área onde começou, a população foi estimada em cerca de 2.500 peixes em 1999 e cerca de 21.000 em 2006.
Contar peixes, não respirações
O manual do Instituto Mamirauá avisa: o contador deve contar pirarucus, e não boiadas. Pescadores experientes aprendem a reconhecer quem já subiu, para não contar o mesmo peixe duas vezes em 20 minutos.
Brânquias que não bastam
O pirarucu tem respiração mista, branquial e aérea, mas a parte aérea é obrigatória. Estudos de fisiologia mostram que, ao longo do crescimento, os juvenis transformam a bexiga natatória em órgão de respiração aérea, com mais tecido interno, e reduzem a superfície das lamelas das brânquias. Os autores sugerem que a pele também participa das trocas. Por isso o peixe tem de ir à superfície, mesmo em águas pobres em oxigênio como as de lagos alagáveis.
Quanto tempo entre uma subida e outra
O manual do Instituto Mamirauá fala em 5 a 15 minutos em condições normais, e afirma que, sem perturbação, até os maiores peixes boiam em 20 minutos. Se o peixe é perseguido ou acuado, pode demorar bem mais. Um experimento de 2026 com peixes em tanque registrou cerca de 10 minutos para adultos e 1 a 2 minutos para juvenis. Os valores mudam com o tamanho e com o ambiente.
Do saber do pescador ao método
Antes de 1999, pescadores já estimavam a produção dos lagos olhando os peixes subirem. A pesquisa no Mamirauá testou esse saber contra a captura total de lagos fechados e o transformou em método: áreas de até 2 hectares, 20 minutos de observação, peixes a partir de 1 metro e certificação de quem conta. O manejo reúne pescadores, o instituto e o órgão ambiental, com cotas e período de defeso.
O que o manejo mudou e o que ainda falta
A pesca do pirarucu foi proibida no Amazonas em 1996, exceto em áreas manejadas. Nesse modelo, a população estimada na área pioneira passou de cerca de 2.500 para cerca de 21.000 peixes entre 1999 e 2006. O instituto calcula alta de 620% no Médio Solimões. A espécie segue no Anexo 2 da CITES, porque o manejo não cobre toda a bacia amazônica.
Como sabemos
Fisiologia e método de contagem vêm de fontes do Instituto Mamirauá e de artigos revisados; os números de recuperação populacional são estimativas e aparecem como tal.
- Fato estabelecido: O pirarucu tem respiração aérea obrigatória: as brânquias não bastam para captar da água todo o oxigênio de que ele precisa. [1] [4]
- Consenso científico: Em situações normais, o pirarucu precisa vir à superfície em intervalos de 5 a 15 minutos para respirar. [1]
O intervalo varia com o tamanho, a perturbação e outras condições; um estudo de 2026 com peixes em tanque reporta cerca de 10 minutos para adultos e 1 a 2 minutos para juvenis. - Evidência forte: Quanto maior o peixe, maior pode ser o intervalo submerso; se perseguido ou acuado, pode chegar a cerca de 1 hora em média, e sem perturbação até os maiores boiam em 20 minutos. [1]
- Fato estabelecido: A bexiga natatória é um órgão que funciona como pulmão: armazena ar, auxilia as trocas gasosas e mantém o equilíbrio do peixe na água. [1]
- Evidência forte: Durante o desenvolvimento, os juvenis modificam a bexiga natatória em órgão de respiração aérea e reduzem a superfície das brânquias. [4]
- Consenso científico: O pirarucu pode pesar até 200 quilos e medir até 3 metros. [1]
- Fato estabelecido: Em 1999, uma pesquisa na Reserva Mamirauá mostrou que pescadores experientes estimam a abundância contando os pirarucus no momento da respiração aérea. [2] [1]
- Fato estabelecido: O método conta peixes a partir de 1 metro, em unidades de área de no máximo 2 hectares, em 20 minutos; de 100 a 149 cm são juvenis (bodecos) e de 150 cm em diante, adultos. [1]
- Fato estabelecido: Em teste com 34 pescadores em quatro lagos, 75% erraram a abundância em até 30%, para mais ou para menos; as contagens em grupo erraram em média cerca de 10%. [2]
- Estimativa: Na área onde o manejo começou, a população foi estimada em cerca de 2.500 pirarucus em 1999 e cerca de 21.000 em 2006. [2]
Estimativas por contagem dos pescadores, com a margem de erro descrita no próprio método. - Fato estabelecido: As comunidades usando o modelo passaram de 4, em 1999, para mais de 100 em 2006, com mais de 500 pescadores. [2]
- Estimativa: Segundo o Instituto Mamirauá, a população de pirarucu no Médio Solimões cresceu 620% desde o início do manejo, cerca de 25% ao ano. [3]
Cálculo do próprio instituto, divulgado em janeiro de 2024; outros materiais do instituto citam percentuais diferentes para recortes e períodos distintos. - Fato estabelecido: Em 2023, a cota nas áreas assistidas era de 14.983 peixes (749 toneladas); a renda do pirarucu manejado pode chegar a 40% da renda da pesca nas comunidades. [3]
- Fato estabelecido: Pescadores só são aprovados como contadores se o erro, comparado com a captura total de lagos fechados, for inferior a 30%. [1]
- Evidência forte: Em 2026, um estudo com cerca de 200 juvenis em tanque mostrou que mais de 100 subiam juntos num intervalo de um segundo, em eventos repetidos a cada 15 segundos aproximadamente. [5]
Observação em aquicultura, na Alemanha; o comportamento no rio pode diferir.
Fontes
- Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá — Contagem e Censo Populacional de Pirarucu (cartilha)
consultada em 11/10/2026 - Pan-American Journal of Aquatic Sciences (Arantes, Castello e Garcez, 2007) — Variações entre contagens de Arapaima gigas feitas por pescadores individualmente em Mamirauá, Brasil
consultada em 11/10/2026 - Portal Amazônia (dados do Instituto Mamirauá) — Com manejo sustentável, pirarucu recupera estoque natural na região do Médio Solimões
consultada em 11/10/2026 - JEZ-A: Ecological and Integrative Physiology (Frommel et al., 2021) — Changes in gill and air-breathing organ characteristics during the transition from water- to air-breathing in juvenile Arapaima gigas
consultada em 11/10/2026 - Communications Biology, 2026 (IGB Berlim, comunicado EurekAlert) — Air-breathing synchrony in juvenile Arapaima gigas reveals collective coordination under individual physiological constraints
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão