Física

Por que a pipoca estoura a cerca de 180 °C: vapor preso na casca e uma perna de amido que dá o salto

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

O grão de pipoca tem água dentro do amido e uma casca (pericarpo) que a segura. Ao passar de 100 °C a água ferve e a pressão sobe, como numa panela de pressão; perto de 180 °C chega à ordem de 10 bar e a casca se rompe. O amido se expande e forma uma perna que, comprimida contra a chapa, joga o grão para o alto.

Pericarpo é a casca do grão, uma camada fina e resistente em volta do amido (o endosperma). Dentro há cerca de 20 mg de água, parte líquida, parte vapor. Em recipiente fechado, a pressão de vapor cresce rápido com a temperatura. Em 2015, Emmanuel Virot e Alexandre Ponomarenko mediram a temperatura em que os grãos estouram, filmaram o salto a 2.900 quadros por segundo e gravaram o estalo com microfone. Com isso trocaram a explicação genérica de pressão interna por números e imagens de um lote de grãos.

Duas vezes maior, oito vezes mais leve

O grão cresce de cerca de 3,1 para 6,5 mm de raio, mas a massa quase não muda (172 ± 30 mg antes, 165 ± 26 mg depois). Por isso a densidade cai de cerca de 1.300 para 160 kg/m³.

A casca como panela de pressão

Os autores tratam o grão como um recipiente fechado: o vapor empurra a casca por dentro até a tensão nela passar da resistência à ruptura, de cerca de 10 MPa (valor da literatura). Com casca de ~160 µm e grão de ~3,1 mm de raio, a pressão crítica sai da ordem de 10 bar, uns 10 atm. Essa pressão é estimada pela espessura e pela resistência, não medida dentro do grão.

Por que sempre perto de 180 °C

A pressão de vapor da água sobe com a temperatura segundo a relação de Clausius–Clapeyron; para ~10 bar ela dá cerca de 180 °C. Como a temperatura depende só do logaritmo da pressão, errar a resistência da casca em 100% muda a temperatura de ruptura em cerca de 15%. Por isso grãos diferentes estouram quase juntos, e o teste no forno mostrou 34% estourados a 170 °C e 96% a 180 °C.

O salto: uma perna de amido

Na filmagem, depois que a casca se rompe e o amido começa a se expandir (6,9 ms), forma-se uma perna que se comprime contra a chapa (13,8 ms) e se solta, lançando o grão (20,7 ms). Não houve movimento durante a saída do vapor, então o salto não é efeito de foguete. A aceleração inicial é de cerca de 200 m/s², bem menor que a de uma pulga.

Como sabemos: câmera, forno e microfone

A temperatura veio de 50 grãos por degrau de 10 °C num forno; o salto, de câmera de alta velocidade com grãos sobre chapa a 350 °C; o som, de microfone a 30 cm sincronizado com outra câmera. Os limites: um lote de uma marca, poucos grãos filmados em detalhe, e a chapa quente difere de uma panela com óleo ou do micro-ondas, com outras condições.

De onde vem o estalo

O som começa a 106 ms, antes de qualquer salto, então não é o choque no chão; e a maioria das fraturas no grão não faz som. Os autores propõem que o vapor liberado excita cavidades dentro do amido, como num ressoador. É uma hipótese razoável, não demonstrada: o som não tem frequência dominante e a sala tinha paredes refletindo ecos.

Como sabemos

Temperatura, pressão, salto e som vêm de um artigo revisado lido na íntegra; o mecanismo do estalo é hipótese dos autores e a pressão de ~10 bar é estimativa.

Fontes

  1. Journal of the Royal Society Interface — Popcorn: critical temperature, jump and sound
    Virot, E.; Ponomarenko, A. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsif.2014.1247
  2. The Royal Society — The science of popcorn
    Royal Society (blog), com falas de E. Virot e A. Ponomarenko · 2015-02-11 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Scientific American — Popcorn Physics 101: How a Kernel Pops
    Nuwer, R. · 2015-05-01 · Reportagem · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Genes (MDPI) — SSR-Based Genetic Diversity, Population Structure, and Marker–Trait Associations for Popping-Related Traits in Popcorn Germplasm
    Yang, L. et al. · 2026-06-12 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/genes17060690
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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