Fenômenos naturais
Pinatubo, 1991: o experimento natural que testou as previsões dos modelos de clima
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Em 15 de junho de 1991, o Pinatubo (Filipinas) pôs cerca de 17 milhões de toneladas de dióxido de enxofre na estratosfera, e a superfície da Terra esfriou da ordem de 0,4 a 0,6 °C em 1992–93. Hansen e colegas haviam publicado em 1992, com um modelo de clima, a previsão de que o resfriamento viria e seria máximo no fim de 1992. Segundo o USGS, o modelo previu o resfriamento com precisão razoável. Em 2002, outro grupo usou o mesmo episódio para testar a realimentação do vapor d’água.
Uma erupção esfria o planeta pelo que chega à estratosfera, a camada acima da região das nuvens de chuva. A cinza grossa cai em dias, mas o dióxido de enxofre (SO2) vira gotículas de ácido sulfúrico, os aerossóis de sulfato, que se espalham pelo globo e devolvem parte da luz do Sol ao espaço. O Pinatubo, vulcão da ilha de Luzon, a cerca de 15° de latitude norte, foi o caso mais bem medido: satélites, radiômetros e estações acompanharam o enxofre, o véu e a temperatura, quando já existiam modelos de clima capazes de simular o efeito. Por isso virou um teste: o modelo disse antes o que aconteceria, e o planeta respondeu. O mecanismo geral e o caso do Tambora, em 1815, estão em outro artigo.
Até o inverno soviético e as cerejeiras
O artigo de Hansen e colegas, de 1992, não parou no gráfico da temperatura global. Os autores também estimaram o efeito do resfriamento previsto sobre a severidade do inverno soviético e as datas da floração das cerejeiras.
A cadeia medida: do enxofre ao frio
Cada elo foi medido por instrumentos diferentes. O TOMS viu uma nuvem de SO2 de 20 ± 6 Mt; em 21 a 28 dias, cerca de metade virou aerossol de ácido sulfúrico. O véu deu a volta ao planeta em cerca de 3 semanas, com profundidade óptica global de 0,1 a 0,15. O ERBE mediu um resfriamento radiativo médio de 2,7 W/m², e a superfície esfriou na faixa de 0,4 a 0,6 °C em 1992–93. É essa cadeia fechada que faz do Pinatubo um bom teste.
O que Hansen previu em 1992 e com que ressalvas
O modelo do GISS foi rodado com um véu de aerossol estimado, com profundidade óptica quase duas vezes a do El Chichón. Com isso, previu o início do frio no fim de 1991, o máximo no fim de 1992 e uma volta ao calor recorde nos anos 1990. A previsão é da resposta do clima ao aerossol, não da erupção em si: se o véu estimado estivesse errado, o teste seria outro. Os autores chamaram as simulações de preliminares e listaram ressalvas.
Vapor d’água: o segundo teste, em 2002
Um modelo climático só prevê bem o esfriamento se acertar a realimentação do vapor d’água, o efeito pelo qual o ar mais frio retém menos vapor e esfria mais. Soden e colegas rodaram o modelo com e sem essa realimentação e compararam ao ressecamento e ao resfriamento observados após o Pinatubo. Sem a realimentação, o modelo não reproduziu o resfriamento. Os autores veem nisso evidência da confiabilidade dessa peça nos modelos atuais.
Como sabemos, e o que o teste não prova
O veredito vem de comparações de curvas e de séries com erros: o TOMS tem erro de cerca de 30%, o resfriamento depende da série, e os dados usados pelo USGS vêm sobretudo de estações em terra. O USGS fala em testar e ajustar modelos, de modo que a concordância posterior não é toda independente. E o teste cobre a resposta de poucos anos a um choque curto. Ele não mede sozinho a sensibilidade climática, tema de outro artigo.
Como sabemos
Os números e o veredito vêm de um capítulo institucional do USGS e dos resumos de Hansen et al. e de Soden et al.; os artigos completos de ambos não puderam ser lidos.
- Evidência forte: O Monte Pinatubo, em Luzon (Filipinas), entrou em erupção entre 12 e 16 de junho de 1991, com a fase climática em 15 de junho. A erupção produziu cerca de 5 km³ de magma dacítico e é considerada a segunda maior do século XX em volume de magma. [3] Seção sobre o dióxido de enxofre
Contexto: Capítulo do USGS e do Instituto Filipino de Vulcanologia (Fire and Mud), baseado em dados até cerca de 1995. · Limitações: O resumo diz “may be the second largest” (pode ser a segunda maior); o corpo do texto afirma “is the second largest”. O critério é a magnitude da erupção (volume de magma), não o efeito no clima. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: O Pinatubo injetou na estratosfera cerca de 17 milhões de toneladas (megatoneladas, Mt) de SO2, pouco mais que o dobro da erupção do El Chichón (México, 1982). O satélite TOMS mediu uma nuvem de 20 ± 6 Mt, a maior já detectada por ele em 13 anos de operação. [3] Seção sobre o dióxido de enxofre
Contexto: Quantidade que chegou à estratosfera na erupção de junho de 1991; a mesma página registra colunas de erupção que passaram de 35 km de altitude. · Limitações: A página da NASA Earth Observatory fala em “mais de 20 milhões de toneladas” e em 60 km de altura; usamos os valores do USGS, que descrevem as medidas e seu erro. · A massa de SO2 é estimada a partir de medidas de satélite com erro de cerca de 30%; por isso aparecem 17 Mt (resumo e conclusão) e 20 ± 6 Mt (medida do TOMS). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O SO2 virou aerossóis de sulfato: cerca de metade já estava convertida em ácido sulfúrico 21 a 28 dias após a erupção. O véu deu a volta à Terra em cerca de 21 dias e atingiu cobertura global cerca de 1 ano depois. [3] Resumo
Contexto: Medidas dos satélites SAGE II, AVHRR e MLS, e de fotômetros em avião e em solo, resumidas pelo USGS. · Limitações: A cobertura global completa só veio cerca de 1 ano depois; nas primeiras semanas o véu ficou restrito sobretudo aos trópicos (cerca de 30° N a 10° S). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O véu foi medido em profundidade óptica (quanto da luz direta do Sol é barrada): valores locais de até 0,4 e médias globais de cerca de 0,1 a 0,15 após a dispersão, com tempo de permanência acima de 2 anos. Com isso, o evento produziu um forçamento climático cerca de duas vezes maior que o do El Chichón. [3] Seção sobre a medida da luz
Contexto: “Midvisible” indica a luz visível de comprimento de onda em torno de 0,5 micrômetro. · Limitações: O texto dá duas razões para o forçamento em relação ao El Chichón (2 vezes nas conclusões e 1,7 vez na seção de observações), o que reflete estimativas diferentes. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: A luz que faltava foi medida direto: o experimento ERBE (NASA) registrou um resfriamento radiativo médio de 2,7 W/m² até agosto de 1991, e estações espalhadas pelo mundo mediram reduções de 25 a 30% no feixe direto do Sol. [3] Seção de dados de observação
Contexto: O ERBE (Earth Radiation Budget Experiment) mede a energia que a Terra recebe e devolve ao espaço; a página o descreve como a primeira medida direta, em larga escala, do forçamento em ambos os hemisférios. · Limitações: A queda de 25 a 30% é a do feixe direto do Sol; a conversão em resfriamento da superfície depende de modelo e de outras medidas, e o USGS cita valores de cerca de 2,5 a 2,7 W/m² para a radiação líquida no topo da atmosfera. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: A alta atmosfera esquentou enquanto a superfície esfriava: a baixa estratosfera (16 a 24 km) aqueceu até 2 a 3 °C nos primeiros 4 a 5 meses. O aquecimento acompanhou a dispersão do véu, o que indica absorção de radiação pelos aerossóis. [3] Seção de dados de observação
Contexto: Aquecimento observado entre o equador e 20° N, segundo Labitzke e McCormick (1992), citados pelo USGS. · Limitações: A atribuição à absorção de radiação é uma inferência a partir da coincidência de padrão, e não uma medida direta do processo. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: A superfície esfriou: o USGS resume um resfriamento observado no Hemisfério Norte de até 0,5 a 0,6 °C e um resfriamento “talvez de até” 0,4 °C sobre grandes áreas da Terra em 1992–93. Séries globais citadas por ele mostram anomalia de cerca de 0,4 a 0,6 K abaixo da média sobre boa parte do planeta. [3] Seção de modelagem
Contexto: Período de 1992 a 1993, principalmente; série de superfície com estações em terra e temperatura do mar (Robock e Mao). · Limitações: Há divergência entre as fontes sobre o valor “global” (0,4; 0,5 a 0,7 em outra série citada pelo USGS). O resfriamento não foi uniforme: parte da Eurásia teve invernos mais quentes em 1991 e 1992. · O tamanho do resfriamento depende da série, do hemisfério e do período; a faixa mais honesta é de cerca de 0,4 a 0,6 °C, com máximos regionais e no Hemisfério Norte. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O resfriamento aconteceu apesar de dois efeitos que empurravam a temperatura para cima: um El Niño em curso (aquecimento de cerca de 0,2 °C, que compensou em parte o frio nos trópicos) e o aumento dos gases de efeito estufa. O forçamento do Pinatubo foi maior que o de ambos, em 1991–93. [3] Seção de modelagem
Contexto: Período de 1991 a 1993. · Limitações: O próprio USGS escreve “may have provided” (pode ter dado) sobre o aquecimento do El Niño. A frase compara forçamentos em 1991–93; não diz que o aquecimento global parou. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 1992, Hansen, Lacis, Ruedy e Sato publicaram na Geophysical Research Letters uma simulação preliminar do modelo climático do GISS (NASA). Supondo uma profundidade óptica quase duas vezes a do El Chichón, o modelo previa uma quebra dramática, mas temporária, na tendência de aquecimento, com resfriamento intenso começando no fim de 1991 e máximo no fim de 1992. [1] Resumo [3] Referências
Contexto: O resumo foi lido pela API de metadados do Crossref; o artigo na editora (Wiley/AGU) bloqueia leitura automática e não foi lido. · Limitações: A previsão era condicional ao véu de aerossol estimado (profundidade óptica de entrada): o modelo previu a resposta do clima, não a erupção. Os autores avisam, no resumo, que as simulações são preliminares e vêm com ressalvas. O artigo completo não foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O mesmo resumo previa que o frio sobrepujaria até o aquecimento de um El Niño que parecia se formar, que o El Niño poderia deslocar o mínimo de temperatura global para 1993, e que o modelo voltaria a níveis recordes de calor no fim dos anos 1990. [1] Resumo
Contexto: Descreve o que o modelo previa em 1992, e não o que aconteceu depois. · Limitações: Esta afirmação registra a previsão do resumo; a conferência com os dados vem em a11, e a volta ao calor recorde não foi checada nesta pesquisa. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: A previsão foi conferida com dados reais: o USGS conta que Hansen e colegas, com um modelo global tridimensional, previram o resfriamento de 1991–93 e depois o compararam à temperatura de superfície observada. A síntese conclui que os modelos de clima parecem ter previsto o resfriamento com razoável grau de precisão. [3] Resumo [4] Seção Aerosols and Incoming Sunlight
Contexto: Comparação de 1991 a 1993, quando o texto do USGS foi escrito (poucos anos após o evento). · Limitações: O USGS observa que os dados do gráfico vêm sobretudo de estações em terra, e que o modelo foi avaliado com o resfriamento de até 0,6 °C no fim de 1992 sobre terras de altas latitudes e menos em outros lugares. A análise era “ainda em curso”. · Julgamento da síntese do USGS (um resumo de 1996), com base em comparação de curvas de temperatura, sem uma métrica de erro numérica na página. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2002, Soden, Wetherald, Stenchikov e Robock usaram o resfriamento e o ressecamento da atmosfera observados depois do Pinatubo para testar a previsão dos modelos sobre a realimentação do vapor d’água. Com o vapor d’água interativo, o modelo reproduziu o ressecamento observado; sem a forte realimentação positiva do vapor d’água, não reproduziu o resfriamento observado. [2] Resumo
Contexto: Estudo do Laboratório de Dinâmica de Fluidos Geofísicos da NOAA (Princeton), publicado na Science em 26 de abril de 2002. · Limitações: Só o resumo foi lido. “Realimentação positiva do vapor d’água” significa que a atmosfera mais fria retém menos vapor, o que amplifica o resfriamento (explicação nossa; o resumo diz “amplifying the temperature change”). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores concluem que o resultado dá evidência quantitativa da confiabilidade da realimentação do vapor d’água nos modelos atuais, o que seria crucial para o uso deles em projeções de aquecimento global. [2] Resumo
Contexto: Vale para a realimentação do vapor d’água no modelo usado no estudo (modelo do GFDL/NOAA). · Limitações: O resumo não dá o valor da sensibilidade climática; o teste verifica uma realimentação, e não todas. Este post trata a sensibilidade em outro artigo. · Conclusão dos próprios autores; o teste cobre a resposta de poucos anos a um choque curto, e a extensão para décadas de aquecimento é uma extrapolação deles. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: O USGS descreve o Pinatubo como evento que permitiu testar e ajustar modelos de clima, e diz que uma injeção de 15 a 20 Mt de SO2 na estratosfera pode produzir aerossóis suficientes para compensar tendências de aquecimento global. O texto o trata como um experimento natural. [3] Seção de modelagem
Contexto: “Compensar” vale para o período de poucos anos do véu; o aerossol sai da estratosfera e o efeito passa. · Limitações: A frase do USGS fala em “present global warming trends” de 1996; não é projeção para o futuro. · Avaliação do capítulo do USGS; “testar e ajustar” indica que parte da concordância posterior pode vir de ajuste dos modelos ao próprio evento. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O resumo de Hansen e colegas (1992) dizia que o Pinatubo ocorreu tarde demais no ano para impedir que 1991 fosse um dos anos mais quentes dos registros instrumentais, e estimava o efeito do resfriamento previsto sobre a severidade do inverno soviético e as datas de floração das cerejeiras. [1] Resumo
Contexto: Descreve o conteúdo da previsão publicada em 1992, e não o resultado. · Limitações: Os resultados dessas estimativas locais não foram checados aqui. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Geophysical Research Letters (NASA Goddard Institute for Space Studies) — Potential climate impact of Mount Pinatubo eruption
Hansen, J.; Lacis, A.; Ruedy, R.; Sato, M. · 1992 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/91GL02788 - Science (NOAA Geophysical Fluid Dynamics Laboratory) — Global cooling after the eruption of Mount Pinatubo: a test of climate feedback by water vapor
Soden, B. J.; Wetherald, R. T.; Stenchikov, G. L.; Robock, A. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.296.5568.727 - U.S. Geological Survey e Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia (Fire and Mud) — The Atmospheric Impact of the 1991 Mount Pinatubo Eruption
Self, S.; Zhao, J.-X.; Holasek, R. E.; Torres, R. C.; King, A. J. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - NASA Earth Observatory — Aerosols: Tiny Particles, Big Impact
NASA Earth Observatory · s.d. · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)