Neurociência

Physarum, o mofo-viscoso sem neurônios que acha o caminho mais curto num labirinto: é inteligência?

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Physarum polycephalum, um mofo-viscoso acelular e multinucleado que não é fungo, ligou dois pontos de um labirinto pelo trajeto de comprimento mínimo, como Nakagaki e colegas relataram em 2000. O mecanismo proposto é de fluxo e retroalimentação nos tubos do próprio corpo, sem centro de comando. Se isso merece o nome de “inteligência” depende da definição adotada: o comportamento é adaptativo, mas nem sempre ótimo.

Physarum polycephalum é um mofo-viscoso plasmodial: na fase ativa, o plasmódio é um organismo acelular e multinucleado, uma rede de tubos por onde corre o citoplasma. Não é um fungo: Latty e Beekman o situam no supergrupo Amoebozoa e descrevem que ele se alimenta de bactérias e fungos, que engolfa. Em 2000, Nakagaki e colegas relataram que o plasmódio acha a solução de comprimento mínimo entre dois pontos de um labirinto. Estudos posteriores propuseram um mecanismo de fluxo e retroalimentação nos tubos, e outros testaram redes, escolhas e aprendizado. Formigas também acham caminhos curtos, por outro processo (ver post relacionado). “Inteligência”, aqui, é termo usado pelos autores, não uma medida.

Uma rede ferroviária como régua

No trabalho de Tero e colegas (2010), as redes formadas pelo mofo-viscoso foram comparadas à do sistema ferroviário de Tóquio em eficiência, tolerância a falhas e custo. O modelo matemático derivado delas pode ser útil para projetar outras redes.

O experimento de 2000, no que o resumo permite dizer

O relato de Nakagaki, Yamada e Tóth saiu na Nature em 2000, como comunicação breve. Na versão detalhada de 2001, o plasmódio, em forma de lâmina, era estendido por todo o labirinto e recebia nutrientes em dois pontos. As partes nos becos sem saída encolhiam e restava um único tubo, o de menor comprimento. É descrição dos autores, em resumo; o artigo de 2000 só foi lido no resumo, então repetições e taxa de acerto não são citadas aqui.

O mecanismo: tubos, fluxo e retroalimentação

Como sabemos o que ocorre dentro do corpo? Tero e colegas (2007) atribuem a busca de caminho a um mecanismo fisiológico: o tubo engrossa quando o fluxo por ele aumenta. Eles notam que a evidência experimental era só qualitativa e por isso propuseram um modelo matemático. Alim e colegas (2017) mediram a resposta a um estímulo local de nutriente e propuseram uma molécula sinalizadora, levada pelo fluxo, que aumenta a contração por onde passa. Segundo eles, isso explica a rota mais curta; o resumo não diz se foi testado num labirinto.

Da rede de Tóquio a escolhas imperfeitas

O desempenho não se limita a dois pontos. Tero e colegas (2010) compararam redes do mofo-viscoso à ferrovia de Tóquio em eficiência, tolerância a falhas e custo. Com três fontes de alimento, Nakagaki e colegas (2004) viram um caminho curto muitas vezes parecido com a árvore de Steiner mínima, mas nem sempre. E Latty e Beekman (2011) observaram que os plasmódios mais rápidos em decidir erravam mais, escolhendo a pior opção: o comportamento é adaptativo, não infalível.

Aprendizado sem neurônios e o limite da palavra “inteligência”

Boisseau e colegas (2016) definem aprendizagem como mudança de comportamento provocada pela experiência e mostram habituação a quinina e cafeína num organismo sem neurônios. Nakagaki e colegas (2004) chamaram a rede de “inteligente”; Latty e Beekman apenas especulam que a competição de fluxos lembre o acúmulo de evidência em cérebros. Se isso é cognição depende da definição adotada, e nenhuma das fontes lidas decide a questão. Aqui, “inteligência” é rótulo dos autores, não medida.

Como sabemos

Os resultados citados conferem com os resumos e com um texto integral aberto; o artigo de 2000 só foi lido no resumo, pois o texto é pago.

Em debate:

Fontes

  1. Nature — Maze-solving by an amoeboid organism
    Nakagaki, T.; Yamada, H.; Tóth, Á. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/35035159
  2. Science — Rules for biologically inspired adaptive network design
    Tero, A.; Takagi, S.; Saigusa, T.; Ito, K.; Bebber, D. P.; Fricker, M. D.; Yumiki, K.; Kobayashi, R.; Nakagaki, T. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1177894
  3. Proceedings of the Royal Society B — Obtaining multiple separate food sources: behavioural intelligence in the Physarum plasmodium
    Nakagaki, T.; Kobayashi, R.; Nishiura, Y.; Ueda, T. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2004.2856
  4. Proceedings of the Royal Society B — Speed-accuracy trade-offs during foraging decisions in the acellular slime mould Physarum polycephalum
    Latty, T.; Beekman, M. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2010.1624
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences — Mechanism of signal propagation in Physarum polycephalum
    Alim, K.; Andrew, N.; Pringle, A.; Brenner, M. P. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1618114114
  6. Proceedings of the Royal Society B — Habituation in non-neural organisms: evidence from slime moulds
    Boisseau, R. P.; Vogel, D.; Dussutour, A. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2016.0446
  7. Biophysical Chemistry — Path finding by tube morphogenesis in an amoeboid organism
    Nakagaki, T.; Yamada, H.; Tóth, Á. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/s0301-4622(01)00179-x
  8. Journal of Theoretical Biology — A mathematical model for adaptive transport network in path finding by true slime mold
    Tero, A.; Kobayashi, R.; Nakagaki, T. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.jtbi.2006.07.015
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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