Botânica

Philcoxia: no Cerrado, folhas enterradas na areia prendem nematoides e a planta absorve o nitrogênio deles

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A Philcoxia, planta de areias pobres em nutrientes do Cerrado, tem muitas folhas minúsculas sob a areia, cobertas de glândulas pegajosas onde ficam presos nematoides, vermes microscópicos do solo. Em 2012, uma equipe com pesquisadores da Unicamp e da USP mostrou, em P. minensis, que o nitrogênio de nematoides marcados chegava às folhas: cerca de 5% em 24 h e 15% em 48 h. As glândulas também tinham fosfatase, enzima ligada à digestão.

Plantas carnívoras atraem, prendem e digerem animais pequenos para obter nutrientes, em geral nitrogênio e fósforo, escassos onde crescem. Philcoxia vive em areias brancas dos campos rupestres do Cerrado, com muita luz e pouco nutriente. Em vez de armadilhas sobre o solo, suas folhas, de 0,5 a 1,5 mm de diâmetro, ficam em boa parte sob a areia e têm glândulas pedunculadas que secretam uma cola. Nematoides, vermes microscópicos do solo, são a presa documentada. Até 2012, nenhuma planta da família Plantaginaceae era conhecida como carnívora, e a carnivoria é rara: cerca de 0,2% das espécies de plantas com flor, segundo os autores. O custo e o benefício de ser carnívora estão no post ligado abaixo.

Os nematoides atrapalham até o DNA

Ao coletar material de Philcoxia para extrair DNA, pesquisadores usaram a inflorescência, e não as folhas, para não matar a planta e para evitar contaminar o DNA com os nematoides abundantes presos à superfície das folhas.

Folhas pequenas, cola e areia

Em Philcoxia minensis, muitas folhas têm só 0,5 a 1,5 mm de diâmetro e ficam sob a superfície da areia branca. Glândulas sobre um pedúnculo produzem uma substância pegajosa que prende grãos de areia à folha. Em campo e em exemplares de herbário havia muitos nematoides nas lâminas, e os observados em campo estavam todos mortos. A revisão de 2023 chama esse tipo de armadilha de adesiva, a "estratégia do papel pega-mosca", aqui enterrada.

Como sabemos: nitrogênio marcado, enzima e vizinhas

A hipótese nasceu de nematoides colados em herbário e da semelhança com outras carnívoras de solo pobre. Para testá-la, os autores puseram nematoides criados com bactérias marcadas com nitrogênio-15, um isótopo raro que permite rastrear a origem do nitrogênio, sobre as folhas de oito plantas cultivadas em estufa. Controles receberam nematoides sem marca ou nenhum. Depois de lavar as folhas, mediram o isótopo: estava no tecido. Mediram ainda a fosfatase das glândulas e compararam o nitrogênio e o fósforo foliares com os de oito vizinhas.

Os limites do teste

O experimento usou uma só espécie, P. minensis, oito plantas alimentadas e um nematoide de laboratório, não a presa nativa. A diferença entre 24 h e 48 h não foi significativa, por causa da variação entre amostras. Os autores ainda mediriam o ganho em fotossíntese. Para as outras espécies, a carnivoria é inferida pela semelhança de forma e de habitat, segundo o artigo de 2012; a revisão de 2023 diz que a função de captura de nematoides é presumida.

O gênero hoje e o que falta saber

Descrito em 2000 com três espécies, Philcoxia soma hoje sete, todas endêmicas do Brasil. Em 2015, cinco eram conhecidas: duas na Bahia, uma em Goiás e duas em Minas Gerais, uma delas, P. minensis, só numa pequena população. Até 2012, nenhuma outra Plantaginaceae era conhecida como carnívora. Em aberto: como a planta atrai a presa, como a captura ocorre em detalhe, o efeito das estações e quais nematoides são capturados.

Como sabemos

O núcleo (nitrogênio marcado, fosfatase e nematoides mortos nas folhas) vem de um artigo revisado por pares lido na íntegra; o alcance para as demais espécies é hipótese.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Underground leaves of Philcoxia trap and digest nematodes
    Pereira, C. G.; Almenara, D. P.; Winter, C. E.; Fritsch, P. W.; Lambers, H.; Oliveira, R. S. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1114199109
  2. Plants (MDPI) — Molecular Phylogenomics Reveals the Deep Evolutionary History of Carnivory across Land Plants
    Fleischmann, A. et al. (ver artigo) · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/plants12193356
  3. Applications in Plant Sciences — Microsatellite markers for studies with the carnivorous plant Philcoxia minensis (Plantaginaceae)
    Scatigna, A. V. et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3732/apps.1500035
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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