Fenômenos naturais

O cheiro de chuva: o petricor de 1964 e como as gotas lançam aerossóis do solo

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

O cheiro de terra molhada é uma mistura de compostos voláteis do solo, entre eles a geosmina, feita por bactérias como as Streptomyces. Em 1964 dois cientistas da CSIRO (Austrália) batizaram o odor de petricor. Em 2015, câmeras de alta velocidade mostraram que a gota de chuva leve ou moderada, ao cair em solo argiloso, forma bolhas que estouram e lançam micro-gotas no ar: um caminho plausível, ainda não demonstrado, para o cheiro subir.

O cheiro que sobe do chão na primeira chuva é uma mistura de compostos orgânicos voláteis (COV), moléculas leves que passam do solo para o ar. Entre eles está a geosmina, composto de odor terroso produzido por bactérias do solo, como as do gênero Streptomyces, um grupo de actinobactérias. O termo petricor, proposto em 1964 por Isabel (Joy) Bear e Richard Thomas, da CSIRO, vem do grego petra (pedra) e ichor (o fluido dos deuses). Aerossol é uma suspensão de gotículas ou partículas minúsculas no ar. Em 2015, Young Soo Joung e Cullen Buie, do MIT, mostraram que gotas de água em solo poroso geram aerossóis, o que sugere, sem provar, como o cheiro chega ao ar.

Ichor, o sangue dos deuses

Na mitologia grega, ichor é o fluido que corre nas veias dos deuses. Unido a petra (pedra), deu nome ao óleo que os cientistas da CSIRO destilaram de rochas e solos secos em 1964: o petricor, algo como a essência da pedra.

O que Bear e Thomas fizeram em 1964

Os dois pesquisadores da CSIRO partiram de uma observação antiga: argilas e solos secos exalam um odor característico quando umedecidos, já lembrado nos manuais de mineralogia. Segundo a CSIRO, eles destilaram a vapor rochas expostas ao tempo quente e seco, obtiveram um óleo amarelado que atribuíram ao cheiro e propuseram o nome petricor. O artigo original, na Nature de 7 de março de 1964, é de acesso pago; esta seção se apoia no relato da CSIRO.

De onde vem a geosmina

A geosmina foi isolada pela primeira vez em 1965. É um sesquiterpenoide volátil feito por bactérias do solo, como Streptomyces albus, a partir do farnesil difosfato, por meio de uma enzima codificada pelo gene geoA. O petricor costuma ser associado à geosmina e ao 2-MIB, produzidos por actinobactérias e cianobactérias filamentosas. É uma associação típica, não a lista completa do cheiro: o estudo de 2026 abaixo achou 58 compostos.

Como sabemos que a gota lança aerossóis

Joung e Buie filmaram com câmera de alta velocidade gotas caindo em 16 solos e em superfícies porosas de laboratório, em cerca de 600 experimentos. Quando a gota achata, o ar dos poros sobe em bolhas dentro dela; ao estourarem, as bolhas lançam jatos de dezenas de micrômetros. Com corante fluorescente nos poros, acharam o corante em gotículas coletadas no ar. O limite é claro: o estudo não mediu cheiro nem geosmina, e usou gotas únicas, não chuva natural.

O que se mede nos gases depois da chuva

Em 2026, Ghirardo e colegas molharam solos de um gradiente de aridez que chega ao Negev (Israel): saíram 58 compostos, com pico inicial, e a geosmina apareceu em taxa baixa frente aos demais. Na Amazônia, Bourtsoukidis e colegas (2018) viram um pulso forte de sesquiterpenos ao molhar solos de terra firme; o artigo não trata de geosmina. Não encontramos medições de petricor no Semiárido ou no Cerrado.

Como sabemos

Mecanismo e compostos têm artigos abertos lidos na íntegra, mas o artigo de 1964 é pago (lido via CSIRO) e a ligação entre aerossóis e cheiro é hipótese.

Fontes

  1. CSIRO — The smell of rain: how our scientists invented a new word
    CSIRO (publicado originalmente em The Conversation) · 2015-03-31 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Nature Communications — Aerosol generation by raindrop impact on soil
    Joung, Y. S.; Buie, C. R. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms7083
  3. Massachusetts Institute of Technology (MIT News) — Rainfall can release aerosols, study finds
    Chu, J. (MIT News Office) · 2015-01-14 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Global Change Biology — Dryland Soil Rewetting Induces Strong Volatile Organic Compound Emissions With Potential to Form Ozone and Aerosols
    Ghirardo, A. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/gcb.71145
  5. Journal of Agricultural and Food Chemistry — Geosmin, a Food- and Water-Deteriorating Sesquiterpenoid and Ambivalent Semiochemical, Activates Evolutionary Conserved Receptor OR11A1
    Ball, L. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1021/acs.jafc.4c01515
  6. Nature Communications — Strong sesquiterpene emissions from Amazonian soils
    Bourtsoukidis, E. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-04658-y
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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