Evolução

Digerir leite na vida adulta evoluiu mais de uma vez: variantes diferentes na África e na Europa

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A capacidade de digerir lactose na vida adulta, a persistência da lactase, depende de variantes em um trecho regulador do DNA perto do gene LCT. Na Europa, a mais estudada é a −13910 C>T; no leste da África, três outras, surgidas em fundos genéticos distintos, têm efeito semelhante. Todas ficaram comuns em populações com rebanhos nos últimos milênios.

A lactose é o principal açúcar do leite. Para ser absorvida, precisa ser quebrada em glicose e galactose pela enzima lactase-florizina hidrolase (LPH), produzida no intestino delgado a partir do gene LCT. Em bebês a atividade é alta; na maioria das pessoas ela cai depois do desmame, a chamada não persistência da lactase. Em parte das populações, porém, o gene continua ativo na vida adulta: é a persistência da lactase. Ela não depende de mudar o gene da enzima, e sim de variantes de uma única letra do DNA (SNPs) num potenciador, trecho que regula a atividade de LCT e fica dentro do vizinho MCM6.

Leite em cacos de cerâmica

Resíduos de gordura em cerâmica de mais de 550 sítios europeus mostram uso de leite desde o Neolítico. Mas a variante da persistência só ficou comum milênios depois, por volta da Idade do Bronze.

Como sabemos: associação, função e assinatura de seleção

O estudo de Tishkoff e colegas combinou três métodos. Primeiro, um teste de tolerância: após 50 g de lactose, mediu-se a alta da glicose no sangue de 470 pessoas. Segundo, a comparação desse resultado com variantes do DNA. Terceiro, ensaios em células em cultura, nos quais as variantes aumentaram a atividade do gene repórter. A extensão do DNA idêntico em volta de C-14010 sugere seleção recente, mas a idade estimada tem margem ampla.

Convergência: o mesmo traço, caminhos genéticos distintos

Em evolução convergente, populações diferentes chegam a um traço semelhante por mutações independentes. Aqui, a variante europeia −13910*T não aparece nas populações do leste africano estudadas; nelas, três SNPs vizinhos, no mesmo potenciador, têm efeito semelhante. Muitas pessoas persistentes eram homozigotas para os alelos ancestrais, o que indica variantes ainda não identificadas nessas populações.

Europa: o leite veio antes da variante

Resíduos de gordura em cerâmica mostram leite na Europa desde o Neolítico, enquanto o DNA antigo mostra a persistência ainda rara nos primeiros agricultores. A variante só ficou comum por volta de 2.000 a.C., milênios depois. O estudo de 2022 não achou que a intensidade do leite explique a seleção melhor que uma pressão uniforme. A causa da vantagem segue em aberto, com hipóteses que incluem cálcio, líquido sem patógenos e ambiente microbiológico.

Brasil: a variante que predomina é de origem europeia

Em populações miscigenadas da América, a variante europeia −13910*T responde pela maior parte da variação observada, segundo o estudo de 2021 com participantes de Brasil, Colômbia, Chile e Uruguai. Variantes africanas aparecem em frequências muito baixas, como 0,27% de −14010*C em afro-brasileiros do Sul. Os autores sugerem que a variante europeia chegou às Américas depois dos europeus.

Como sabemos

A convergência entre variantes africanas e europeias é bem documentada; o motivo da seleção e a cronologia europeia seguem em debate.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Genetics — Convergent adaptation of human lactase persistence in Africa and Europe
    Tishkoff, S. A. et al. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ng1946
  2. Nature — Dairying, diseases and the evolution of lactase persistence in Europe
    Evershed, R. P. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-022-05010-7
  3. Annals of Human Genetics — The molecular basis of lactase persistence: Linking genetics and epigenetics
    Cohen, C. E.; Swallow, D. M.; Walker, C. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/ahg.12575
  4. Frontiers in Genetics — Tracing the Distribution of European Lactase Persistence Genotypes Along the Americas
    Alves, A. C. G. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fgene.2021.671079
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos