História da Ásia
Persépolis, a cidade-palácio dos reis persas, foi saqueada e incendiada por Alexandre em 330 a.C.
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Por volta de 518 a.C., Dario I começou a erguer, no sudoeste do atual Irã, um terraço de palácios que seus sucessores ampliariam por quase um século. Nas escadarias da Apadana, 23 delegações de povos do império sobem em fila levando presentes ao rei. Em 330 a.C., Alexandre da Macedônia tomou a cidade, levou o tesouro e pôs fogo nos palácios. Os autores antigos não concordam sobre o motivo, e os historiadores também não.
Os persas chamavam a cidade de Pārsa; os gregos, de Persépolis. O terraço fica na planície de Marvdasht, no sopé do monte hoje chamado Kuh-e Rahmat, a cerca de 57 km de Shiraz. Dario I, seu filho Xerxes I e seu neto Artaxerxes I construíram ali a Apadana, o Salão das Cem Colunas, o tesouro e as muralhas. A Apadana tinha um salão quadrado de 60 por 60 metros, com 36 colunas de 19,5 metros de altura. Para que servia o conjunto ainda se discute: há quem o veja como palco da festa de Nowruz, o Ano-Novo persa, e quem negue que haja prova disso. Em persa, as ruínas são chamadas Takht-e Jamshid, o Trono de Jamshid, um rei lendário. A UNESCO inscreveu Persépolis como Patrimônio Mundial em 1979.
No Shahnameh, Alexandre é meio persa
Os textos sacerdotais zoroastristas em persa médio chamam Alexandre de gujastak, "o maldito", e o põem entre os maiores inimigos do Irã. Já no Shahnameh de Ferdowsi, concluído por volta do ano 1010, ele é filho do rei Darab e meio-irmão de Dario III, e o incêndio de Persépolis nem é mencionado.
Os povos na escadaria
Nas escadarias da Apadana, 23 delegações sobem em fila, cada uma com sua roupa e separada da seguinte por um cipreste. Um mestre de cerimônias persa ou medo conduz o chefe de cada grupo pela mão. Os medos vêm na frente, com taças e espadas curtas; os elamitas trazem arcos e uma leoa com dois filhotes; os armênios, um cavalo e vasos; os babilônios, um touro. Mais adiante aparecem lídios, egípcios, citas, jônios, indianos, árabes e etíopes. É o império inteiro em pedra.
O que as tabuletas contam
Na muralha nordeste do terraço, a expedição de Chicago achou em 1933 um arquivo de tabuletas de argila em elamita, de 509 a 494 a.C. São recibos de cevada, vinho, cerveja e carne dados a trabalhadores, funcionários, mensageiros e sacerdotes. Mostram mulheres trabalhando ao lado de homens: no serviço qualificado, ganhavam o mesmo, conforme o nível; no menos qualificado, um terço a menos. Mães de recém-nascidos tinham ração extra, o dobro para quem tinha menino.
O incêndio e seus motivos
Em 330 a.C., Alexandre forçou as Portas Persas, saqueou Pārsa e queimou os palácios na primavera. Plutarco, Diodoro e Cúrcio falam num banquete em que a cortesã ateniense Taís propôs vingar o incêndio de Atenas por Xerxes; Plutarco diz que Alexandre logo se arrependeu. Arriano fala numa retaliação pensada. O historiador iraniano Shahbazi nota que os enfeites de ouro dos relevos foram retirados antes do fogo e que ninguém usou a água do fosso para apagá-lo.
Alexandre, maldito ou rei persa
A memória persa guardou dois Alexandres. Nos textos zoroastristas em persa médio, ele é gujastak, o maldito, ao lado dos piores inimigos do Irã. Na tradição que vem do romance grego de Alexandre, ele virou herói. O Shahnameh de Ferdowsi, por volta de 1010, o faz filho do rei persa Darab e meio-irmão de Dario III, o que lhe dá legitimidade de rei, e simplesmente não fala do incêndio de Persépolis.
Como sabemos
Datas, arquitetura, relevos, tabuletas e recepção persa vêm da UNESCO e de verbetes da Encyclopaedia Iranica (Shahbazi, Dandamayev, Brosius, Hanaway); o motivo do incêndio e a função do sítio estão marcados como controversos.
Em debate: Por que Alexandre queimou Persépolis: Plutarco, Diodoro e Cúrcio contam um incêndio decidido num banquete, por instigação da cortesã Taís; Arriano descreve uma retaliação política pela invasão da Grécia em 480 a.C. O historiador iraniano A. Sh. Shahbazi argumenta, pela arqueologia (enfeites retirados antes do fogo, nenhuma tentativa de apagá-lo), que o incêndio foi deliberado e visava destruir o centro dinástico persa.
Em debate: Para que servia Persépolis: parte dos estudiosos a vê como palco do Nowruz; outros negam que haja prova da festa no período aquemênida, e há quem a veja como símbolo do poder real ou centro administrativo.
- Consenso científico: Por volta de 518 a.C., Dario I escolheu o local e começou a construir o terraço de palácios de Persépolis. [1] [2]
A UNESCO e a Iranica falam em 'cerca de 518 a.C.'; a data é aproximada. - Fato estabelecido: O conjunto foi construído por Dario I, por seu filho Xerxes I e por seu neto Artaxerxes I, e mantido até 330 a.C. [1] [2]
- Fato estabelecido: Persépolis é a cidadela da cidade de Pārsa, na planície de Marvdasht, a cerca de 57 km de Shiraz, ao pé do monte hoje chamado Kuh-e Rahmat. [1] [2]
- Fato estabelecido: A Apadana tinha um salão central de 60 por 60 metros com 36 colunas, e suas colunas chegavam a 19,5 metros de altura. [2]
- Consenso científico: Os relevos de uma ala da escadaria da Apadana mostram 23 delegações de povos do império, cada uma com sua roupa própria e separada da seguinte por um cipreste, levando presentes; entre elas estão medos, elamitas, armênios, babilônios, lídios, egípcios, citas, jônios, indianos, árabes e etíopes. [2]
A identificação de algumas delegações ainda tem incerteza, segundo a própria Iranica. A Iranica usa 'delegações portadoras de presentes'; o termo 'tributo' é comum mas não foi usado no texto. - Em debate: A função de Persépolis é debatida: vários estudiosos a veem como local da festa de Nowruz, outros negam que haja prova de Nowruz no período aquemênida. [2] [6]
Herzfeld, Ghirshman e Porada a favor da hipótese do Nowruz; Nylander, Calmeyer e Mousavi contra (Iranica). Por isso o título evita 'capital cerimonial'. - Fato estabelecido: Em persa, as ruínas são chamadas Takht-e Jamshid, 'Trono de Jamshid', e geógrafos muçulmanos medievais as atribuíam ao rei lendário Jamshid. [2]
- Fato estabelecido: A UNESCO inscreveu Persépolis na lista do Patrimônio Mundial em 1979. [1] [2]
- Fato estabelecido: As Tabuletas da Fortificação, em elamita, foram achadas pela expedição do Instituto Oriental da Universidade de Chicago em 1933–1934 e datam de 509 a 494 a.C.; registram pagamento de rações a trabalhadores, funcionários, mensageiros e sacerdotes. [2] [3]
- Estimativa: O arquivo da Fortificação tem cerca de 30 mil tabuletas. [2] [5]
Shahbazi (Iranica) fala em 'cerca de 30.000'; a Universidade de Chicago fala em 30 mil tabuletas e fragmentos. Outras estimativas dão de 15 mil a 30 mil. - Fato estabelecido: Entre 509 e 494 a.C., trabalhadores e funcionários eram pagos só em produtos (cevada, farinha, carneiros, vinho, cerveja, frutas); de 492 a 458 a.C., recebiam também prata não cunhada. [3]
- Evidência forte: Nas tabuletas, mulheres aparecem trabalhando ao lado de homens e crianças; no trabalho qualificado, mulheres e homens recebiam rações iguais conforme a qualificação, e no trabalho menos qualificado as mulheres recebiam um terço a menos. [4]
- Evidência forte: Equipes de trabalho eram muitas vezes chefiadas por uma mulher que, com uma ou duas exceções, recebia a maior ração mensal do grupo. [4]
- Evidência forte: Mães de recém-nascidos recebiam rações extras, e as mães de meninos recebiam o dobro das mães de meninas. [4]
- Fato estabelecido: Parte das tabuletas foi levada para Chicago, por empréstimo do Irã; o Instituto Oriental devolveu 179 em 1948, 37 mil tabuletas e fragmentos em 1951 e 300 em 2002. [2] [5]
- Consenso científico: Em 330 a.C., Alexandre chegou a Persépolis depois de forçar a passagem das Portas Persas defendidas pelo sátrapa Ariobarzanes; saqueou a cidade, matou seus habitantes, pilhou a cidadela e incendiou os palácios na primavera de 330 a.C. [2] [6]
O massacre e o saque vêm de Diodoro (17.70–72), resumido por Shahbazi na Iranica. - Estimativa: Segundo Diodoro, o tesouro encontrado valia 120 mil talentos; segundo Plutarco, foram precisos 10 mil pares de mulas e 5 mil camelos para levar a riqueza. [2] [7]
Números de autores antigos, não verificáveis. - Em debate: Plutarco, Diodoro e Cúrcio contam que o incêndio começou num banquete, por sugestão da cortesã ateniense Taís, como vingança pelo incêndio de Atenas por Xerxes; Arriano, que seguiu Ptolomeu e Aristóbulo, não menciona Taís e apresenta o ato como retaliação deliberada pela invasão da Grécia. [7] [8]
As fontes antigas divergem entre ato espontâneo e decisão política; não há como decidir pelas fontes literárias. - Fato estabelecido: Plutarco diz que Alexandre logo se arrependeu e mandou apagar o fogo. [7]
É o que Plutarco afirma ('é consenso'), não um fato verificado. - Interpretação: Para Shahbazi, o incêndio foi deliberado, porque os enfeites de metal precioso dos relevos foram retirados antes e não se tentou apagar o fogo com a água do fosso; o motivo seria apagar a cidade-mãe da dinastia, para que os persas não continuassem a lutar por ela. [2]
Leitura de A. Sh. Shahbazi na Iranica, baseada em arqueologia; contradiz o arrependimento contado por Plutarco. - Fato estabelecido: No Salão das Cem Colunas, restos carbonizados de vigas de cedro e pedra alterada pelo calor mostram a força do incêndio. [2]
- Fato estabelecido: Nos poucos textos em persa médio (pálavi) que o citam, Alexandre é chamado de gujastak, 'maldito', e contado com Zahhak e Afrasiab entre os maiores inimigos do Irã. [6]
- Fato estabelecido: No Shahnameh de Ferdowsi, concluído por volta de 1010, Alexandre é filho do rei Darab e da filha de Filipe da Macedônia, meio-irmão de Dario III, e Ferdowsi não menciona o incêndio de Persépolis. [6]
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre — Persepolis
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — PERSEPOLIS
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — PERSEPOLIS ELAMITE TABLETS
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — WOMEN i. In Pre-Islamic Persia
consultada em 05/10/2026 - The University of Chicago Magazine — Worth Millions... or Priceless?
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — ESKANDAR-NĀMA
consultada em 05/10/2026 - LacusCurtius, Universidade de Chicago — Plutarch, Life of Alexander, caps. 37–38 (trad. Bernadotte Perrin, Loeb)
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Romana, Universidade de Chicago — Thais and Persepolis
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
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