Ecologia

Permafrost: o solo congelado que guarda quase o dobro do carbono da atmosfera

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Nas regiões do Ártico e subártico, o solo congelado o ano todo, o permafrost, guarda cerca de 1.460 a 1.600 bilhões de toneladas de carbono orgânico, quase o dobro do que há na atmosfera. Quando descongela, micróbios decompõem esse material e liberam gás carbônico e metano, o que pode alimentar o próprio aquecimento.

O permafrost é o terreno que permanece congelado durante todo o ano. A região de permafrost do Hemisfério Norte ocupa cerca de 17,8 milhões de km². Nesse solo ficou preso, por milênios, material de plantas e animais que não chegou a apodrecer porque estava frio demais. Com o aquecimento, parte dele descongela e passa a ser decomposta por micróbios, que emitem CO₂ e metano. É uma retroalimentação: mais calor libera mais gás de efeito estufa, que dá mais calor. O tamanho e o ritmo dessa liberação ainda são incertos e dependem de como cada tipo de terreno descongela, gradualmente ou de forma abrupta.

Vírus de 30 mil anos que infectam amebas

Em 2014, pesquisadores recuperaram do permafrost siberiano o Pithovirus sibericum, de mais de 30 mil anos. Ele infecta amebas, não humanos. Em 2023, outro grupo isolou 13 vírus de nove amostras siberianas.

Um cofre de carbono

O frio impede que restos de plantas e animais sejam decompostos. Por isso o permafrost acumulou, ao longo de milênios, uma reserva de carbono orgânico estimada em 1.460 a 1.600 bilhões de toneladas. A camada até 3 metros de profundidade guarda de 65% a 70% do total, segundo o relatório da NOAA. Já os depósitos profundos de Yedoma, sedimento rico em gelo da Sibéria e do Alasca, somam algo entre 327 e 466 bilhões de toneladas.

CO₂ e metano

Quando o solo esquenta, micróbios voltam a trabalhar e liberam gases. Em massa, o CO₂ domina a troca de carbono com a atmosfera. O metano aparece em quantidade muito menor, mas retém de 28 a 36 vezes mais calor por massa em um século e dura cerca de uma década no ar. Por isso os dois entram na conta do aquecimento, e o peso de cada um depende do tipo de terreno e do ritmo do degelo.

Degelo abrupto

Parte do permafrost não descongela devagar. Onde o solo é rico em gelo, o terreno afunda e forma lagos rasos e áreas instáveis, o chamado termocarste. O relatório da NOAA observa que todo o estoque de carbono pode, em princípio, ser vulnerável ao degelo. Medições de inverno, antes escassas, indicam emissões de 2 a 3 vezes maiores que as estimadas, sem que se saiba ainda a causa dessa diferença.

Micróbios e vírus antigos

O degelo também libera organismos preservados. Em 2014, o Pithovirus sibericum, de mais de 30 mil anos, foi reativado em laboratório e infectou amebas. Em 2023, outro grupo isolou 13 vírus de amostras siberianas, todos de amebas. Isso mostra que material infeccioso sobrevive ao congelamento, mas esses vírus não infectam humanos. O NSIDC também cita um surto de antraz na Sibéria em 2016 ligado ao degelo, que matou animais e pessoas.

Como sabemos

Os números centrais vêm de sínteses de NOAA, NSIDC e da revista Nature, e as incertezas estão declaradas no texto.

Em debate: Há consenso de que o degelo libera gases, mas volume, ritmo e peso climático ainda são incertos. A síntese de Schuur e colegas (2015) aponta liberação gradual e prolongada como o mais provável e lista lacunas de pesquisa.

Fontes

  1. Nature, via PubMed — Climate change and the permafrost carbon feedback (Schuur et al.)
    consultada em 06/10/2026
  2. NSIDC — Why frozen ground matters
    consultada em 06/10/2026
  3. NOAA — Permafrost and the Global Carbon Cycle (Arctic Report Card 2019)
    consultada em 06/10/2026
  4. Viruses (Alempic et al., 2023), via Europe PMC — An Update on Eukaryotic Viruses Revived from Ancient Permafrost
    consultada em 06/10/2026
  5. PNAS (Legendre et al., 2014), via Europe PMC — Thirty-thousand-year-old distant relative of giant icosahedral DNA viruses with a pandoravirus morphology
    consultada em 06/10/2026
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