Ciências da Terra
Pequena Idade do Gelo: esfriou cerca de 0,1 °C na média global, e não ao mesmo tempo em toda parte
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Tempo e clima
O intervalo mais frio de vários séculos dos últimos 8 mil anos ocorreu por volta de 1450–1850, mas a queda média global foi pequena: cerca de 0,1 °C abaixo de 1850–1900 em 1600–1650, com incerteza grande. O frio também não foi simultâneo: o auge variou do século XV, no Pacífico, ao XIX, na maior parte das demais regiões. A década de 2011–2020 ficou cerca de 1,1 °C acima de 1850–1900.
“Pequena Idade do Gelo” é o nome tradicional de um período frio das últimas centenas de anos, ligado ao avanço de geleiras em várias regiões do mundo. Não tem datas oficiais: o IPCC evita o termo porque o período é mal definido no tempo e varia de região para região. Antes das medições com instrumentos, a temperatura vem de proxies, registros naturais sensíveis à temperatura, reunidos em compilações globais e convertidos em temperatura por métodos estatísticos. A temperatura média global de superfície costuma ser dada como diferença em relação a 1850–1900, período de referência do IPCC: um valor negativo significa mais frio que esse período. A Era Comum são os últimos 2.000 anos.
A referência de 1850–1900 já é um período frio
Segundo o IPCC, a média global de 1450–1850 ficou em torno de 0,03 °C abaixo de 1850–1900, numa faixa de −0,30 a +0,06 °C. O aquecimento atual é medido a partir de uma referência que ainda carrega o fim do período frio.
Como sabemos: reconstruir a temperatura sem termômetros
Não existe um termômetro global para o ano 1600. O PAGES 2k Consortium reuniu uma coleção global de registros sensíveis à temperatura e produziu reconstruções de 2.000 anos com sete métodos estatísticos; as oscilações de várias décadas concordam entre os métodos e com simulações. O IPCC cita ainda uma estimativa independente, feita com perfis de temperatura em furos no subsolo, que dá 0,12 °C mais frio em 1600–1650, contra 0,09 °C da reconstrução do PAGES 2k. O limite: ambas têm incertezas grandes, e converter proxies em temperatura depende de suposições sobre estação do ano e efeitos não climáticos.
Onde e quando: o frio não foi global nem simultâneo
Neukom e colegas (2019) testaram se as épocas frias e quentes da Era Comum aconteceram ao mesmo tempo no planeta e não acharam evidência de coerência global antes da era industrial. O momento mais frio mais provável foi o século XV no Pacífico central e leste, o XVII no noroeste da Europa e sudeste da América do Norte e meados do XIX na maior parte do resto. Já o século XX foi o mais quente dos últimos 2.000 anos em mais de 98% do globo, e o IPCC estima a década de 2011–2020 em cerca de 1,1 °C acima de 1850–1900.
Vulcões: a atribuição mais forte para as oscilações de décadas
Defende o papel vulcânico o PAGES 2k Consortium: nas reconstruções e simulações, a atribuição mais significativa da variabilidade entre 1300 e 1800 em escalas de várias décadas é aos aerossóis vulcânicos, e as erupções coincidem com fortes tendências de resfriamento. O IPCC estima a carga de aerossóis estratosféricos, medida pelo sulfato no gelo, maior em 1450–1850 (0,017) que em 950–1250 (0,012). Um limite: o efeito direto de uma erupção forte se concentra nos primeiros 2 a 5 anos; para frio mais longo, o PAGES 2k aponta a frequência das erupções, que aumenta a variância de várias décadas nas simulações.
Sol: um efeito pequeno e com lacunas de datação
A irradiância solar total aumentou 0,7 a 2,7 W/m² do Mínimo de Maunder (1645–1715) à segunda metade do século XX, o que o IPCC converte em 0,09 a 0,35 W/m² de forçamento efetivo. Segundo Koch et al., que citam Schurer et al. e Owens et al., os mínimos solares deixam uma lacuna entre meados dos anos 1500 e dos 1600. O Sol hoje é tratado em outros textos (veja os relacionados): o ciclo de 11 anos e por que ele não explica o aquecimento atual.
Uso da terra nas Américas: uma hipótese que segue em debate
Koch e colegas (2019) propõem que a morte de grande parte da população indígena das Américas após 1492 abandonou campos, a vegetação se regenerou e absorveu carbono, o que explicaria parte da queda de 7 a 10 ppm de CO2 nos anos 1500: cerca de 5 ppm de absorção adicional em relação aos anos 1400. A hipótese também é associada a Ruddiman. Mas os próprios autores admitem que os dois estudos de modelagem desse período não reproduzem o resultado, e a parcela do resfriamento atribuível a isso depende de suposições. Não é consenso.
Como sabemos
Os números centrais (cerca de 0,1 °C, 1450–1850, 1,1 °C hoje) vêm do capítulo 2 do IPCC AR6; as causas são debatidas e a análise global de Neukom et al. foi lida só pelo resumo.
Em debate: Neukom et al. (2019) não encontraram épocas frias globalmente coerentes na Era Comum, com o ponto mais frio variando do século XV (Pacífico) ao XIX; o IPCC (AR6) evita o termo por falta de datas bem definidas. Um estudo anterior (Neukom et al., 2014, citado por Koch et al.) havia apontado 1577–1694 como o único intervalo de resfriamento global significativo.
Em debate: O PAGES 2k Consortium aponta os vulcões como a atribuição mais significativa das oscilações de várias décadas entre 1300 e 1800, e não detecta forçamento solar nessa escala; o IPCC apresenta o aumento de irradiância solar desde o Mínimo de Maunder como um efeito pequeno (0,09 a 0,35 W/m²); Koch et al. (2019) propõem que o abandono de terras nas Américas após 1492 baixou o CO2 e contribuiu, hipótese que os próprios autores dizem não ser reproduzida por dois estudos de modelagem.
- Estimativa: Reconstruções indicam que a temperatura média global de superfície em 1600–1650 foi de cerca de 0,09 a 0,12 °C mais fria que em 1850–1900, com incertezas grandes; a média de 1450 a 1850 ficou em torno de 0,03 °C abaixo de 1850–1900, numa faixa de −0,30 a +0,06 °C. [1] Seção 2.3.1.1.2 (últimos milênios)
Contexto: Temperatura média global de superfície (GMST) reconstruída para a Era Comum; o primeiro valor vem de uma estimativa por perfis de temperatura em furos e da reconstrução do PAGES 2k. · Limitações: O próprio IPCC descreve as estimativas como associadas a incertezas relativamente grandes (faixas de 0,5 a 0,8 °C no texto). O valor de −0,03 °C para 1450–1850 está como aparece no capítulo; os valores de 1600–1650 e da média de 1450–1850 não são a mesma grandeza e não devem ser somados. · Estimativa com incerteza grande; ordem de grandeza de um décimo de grau na média global. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O intervalo de vários séculos mais frio do período pós-glacial (desde cerca de 8 mil anos atrás) ocorreu entre cerca de 1450 e 1850, segundo o IPCC, com alta confiança. [1] Seção 2.3.1.1.2, conclusão
Contexto: Escala de séculos na temperatura média global; 8 ka = 8 mil anos atrás. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O IPCC (AR6) não usa extensivamente os termos “Pequena Idade do Gelo” e “Período Quente Medieval” porque as datas desses episódios não são bem definidas e variam de região para região. [1] Tabela 2.1, nota c
Contexto: Escolha de terminologia do relatório do Grupo de Trabalho I do AR6. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Na análise de Neukom e colegas (2019), o momento mais frio provável da época da Pequena Idade do Gelo foi o século XV no Pacífico central e leste, o século XVII no noroeste da Europa e sudeste da América do Norte, e meados do século XIX na maior parte das demais regiões. [2] Resumo
Contexto: Reconstruções globais de paleoclima para os últimos 2.000 anos; resultado sobre o período mais frio do último milênio. · Limitações: Lido apenas o resumo do artigo (o texto completo é pago). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Neukom e colegas (2019) não encontraram evidência de épocas frias ou quentes globalmente coerentes antes da era industrial, e concluíram que o forçamento pré-industrial não bastou para produzir temperaturas extremas globalmente sincrônicas em escalas de várias décadas a séculos. [2] Resumo
Contexto: Conclusão de um único estudo, com base em reconstruções globais; coerente com o IPCC, que não adota datas únicas para o período. · Limitações: Um estudo anterior (Neukom et al., 2014, citado por Koch et al. 2019) apontou 1577–1694 como o único intervalo de resfriamento global significativo e a única parte da Pequena Idade do Gelo de extensão global; o estudo de 2019, com mais dados, não encontrou coerência global. Lido apenas o resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: A década de 2011–2020 foi cerca de 1,1 °C mais quente que 1850–1900, e é mais provável que improvável que nenhum intervalo de vários séculos do período pós-glacial tenha sido globalmente mais quente que ela; o século XX foi o período mais quente dos últimos 2.000 anos em mais de 98% do globo. [1] Seção 2.3.1.1.2 [2] Resumo
Contexto: Comparação com o aquecimento atual feita só para dar escala; o assunto do aquecimento atual tem pautas próprias. · Limitações: O primeiro trecho é de confiança média no IPCC (“more likely than not”); o segundo vem do resumo de Neukom et al. (2019). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo o PAGES 2k Consortium (2019), a atribuição mais significativa da variabilidade pré-industrial (1300–1800) de temperatura global em escalas de várias décadas é ao forçamento por aerossóis vulcânicos; o forçamento solar não é detectável nessa escala nas reconstruções. [3] Resultados (atribuição)
Contexto: Variabilidade de várias décadas na temperatura média global, em reconstruções e simulações dos últimos 2.000 anos; trata de oscilações, não do nível médio de frio de todo o período. · Limitações: Trata de oscilações de décadas, não do nível médio de frio de todo o período; o próprio texto fala em “atribuição mais significativa”, não em causa única. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Nas reconstruções e nas simulações do PAGES 2k, erupções vulcânicas coincidem com fortes tendências de resfriamento de várias décadas. [3] Discussão
Contexto: Reconstruções e simulações do último milênio; resultado de coincidência estatística entre erupções e tendências de resfriamento. · Limitações: Coincidência não prova, por si só, que as erupções causaram todo o frio de cada período; as simulações com forçamentos conhecidos reproduzem o padrão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O IPCC reconstrói a profundidade óptica de aerossóis estratosféricos (SAOD) a partir de registros de sulfato em gelo e a encontra mais alta em 1450–1850 (0,017) que em 950–1250 (0,012); o efeito de uma erupção forte se concentra nos primeiros 2 a 5 anos. [1] Seção 2.2.2, aerossóis vulcânicos
Contexto: Reconstruções de forçamento vulcânico derivadas de sulfato nos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida. · Limitações: O IPCC estima incerteza sistemática de cerca de 60% na conversão de sulfato em forçamento radiativo e diz que as incertezas entre períodos não são bem quantificadas. · Valores médios de reconstrução com incerteza sistemática grande. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: A irradiância solar total aumentou 0,7 a 2,7 W/m² do Mínimo de Maunder (1645–1715) à segunda metade do século XX, o que o IPCC converte numa mudança de forçamento radiativo efetivo de 0,09 a 0,35 W/m²; nas reconstruções do PAGES 2k, o forçamento solar não é detectável em escalas de várias décadas. [1] Seção 2.2.1, forçamento solar [3] Resultados (atribuição)
Contexto: Reconstruções de irradiância solar total (TSI) para o último milênio; ERF = forçamento radiativo efetivo. · Limitações: Faixa ampla porque as reconstruções divergem; é o intervalo entre o Mínimo de Maunder e o fim do século XX, não o valor associado ao auge do frio em cada região. · Faixa de estimativas de vários trabalhos. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Koch e colegas (2019), que citam Schurer et al. (2013) e Owens et al. (2017), os mínimos solares de Spörer e Maunder deixam uma lacuna entre meados dos anos 1500 e meados dos 1600 e, por isso, não explicam a queda de CO2 nem o resfriamento desse intervalo. [4] Seção 5 (forçamentos radiativos)
Contexto: Argumento de segunda mão: as análises de Schurer et al. e Owens et al. não foram lidas por nós; vale para o intervalo em que Koch et al. concentram a análise (cerca de 1520–1610). · Limitações: Não exclui que o Sol tenha contribuído em outros intervalos, como o Mínimo de Maunder (1645–1715). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Koch e colegas (2019) defendem que a queda de 7 a 10 ppm de CO2 atmosférico nos anos 1500 e início dos 1600 teria vindo, em parte, da morte de grande parte da população indígena das Américas após 1492, do abandono de terras agrícolas e da regeneração da vegetação, que absorveu carbono; estimam cerca de 5 ppm de absorção adicional nos anos 1500 em relação aos 1400. [4] Resumo
Contexto: Síntese de 119 estimativas regionais de população e de dados de uso da terra para as Américas; a hipótese de que isso baixou o CO2 e esfriou o clima também é associada a Ruddiman. · Limitações: O resumo trata do CO2; a fração do resfriamento atribuível a isso (estimada pelos autores em torno de metade dos 0,15 °C) depende de suposições sobre sensibilidade climática. Os números com faixa interquartil do resumo foram lidos manualmente, pois o PDF perdeu os travessões. · Hipótese publicada, com faixa de incerteza grande e contestada em parte por simulações; não é consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores de Koch et al. (2019) reconhecem que os dois estudos de modelagem que cobrem esse período não reproduzem o resultado da síntese de dados deles. [4] Seção 4 (discussão do carbono)
Contexto: Limite da hipótese do uso da terra nas Américas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo o IPCC, exceto algumas geleiras do Hemisfério Sul e dos trópicos, as geleiras do mundo avançaram depois do Holoceno médio e atingiram sua extensão máxima além das margens atuais entre meados do século XV e o fim do século XIX. [1] Seção 2.3.2 (geleiras)
Contexto: Síntese de cronologias de 189 e 275 geleiras (Solomina et al.). · Limitações: “Maior extensão” é por geleira, não necessariamente simultânea entre regiões. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O PAGES 2k Consortium (2019) produziu reconstruções da temperatura média global de 2.000 anos com sete métodos estatísticos, a partir de uma coleção global de registros sensíveis à temperatura, e as oscilações de várias décadas concordam entre os métodos e com simulações; o IPCC lembra que converter proxies em temperatura depende de suposições e que vieses podem ser grandes. [3] Resumo [1] Seção 2.5 (lacunas e desafios)
Contexto: Método de reconstrução; a concordância é sobre oscilações de várias décadas, não sobre o nível exato de cada século. · Limitações: O IPCC e o PAGES 2k tratam as oscilações de várias décadas; o nível médio de cada século tem incerteza maior. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) — Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the IPCC — Chapter 2: Changing State of the Climate System
Gulev, S.K., Thorne, P.W., Ahn, J. et al. · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1017/9781009157896.004 - Nature — No evidence for globally coherent warm and cold periods over the preindustrial Common Era
Neukom, R., Steiger, N., Gómez-Navarro, J.J., Wang, J. & Werner, J.P. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1401-2 - Nature Geoscience — Consistent multi-decadal variability in global temperature reconstructions and simulations over the Common Era
PAGES 2k Consortium · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41561-019-0400-0 - Quaternary Science Reviews (University College London) — Earth system impacts of the European arrival and Great Dying in the Americas after 1492
Koch, A., Brierley, C., Maslin, M.M. & Lewis, S.L. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.quascirev.2018.12.004
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