Zoologia

Peixes pulmonados: respiram ar e atravessam a seca em estivação, a piramboia numa toca e o africano num casulo

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

Dos seis peixes pulmonados vivos, quatro são africanos (Protopterus), um é australiano e um é sul-americano: a piramboia, Lepidosiren paradoxa. Todos respiram ar. Na seca, os africanos podem passar até cerca de 5 anos em estivação, um torpor no calor, dentro de um casulo de muco seco; a piramboia faz algo parecido numa toca simples, sem casulo. "Hibernação" é o termo errado: hibernar é dormir no frio.

Pulmonados (Dipnoi) são peixes de nadadeiras lobadas que, além das brânquias, têm pulmões. Os quatro Protopterus vivem na África. Quando o corpo d'água seca, ficam enterrados na lama e secretam muco que, em 6 a 8 dias, vira um casulo seco ao redor do corpo; em condições naturais, a estivação pode durar até cerca de 5 anos. A piramboia (Lepidosiren paradoxa), o único pulmonado da América do Sul, vive em águas rasas e sazonais, como as da Amazônia. Estudos de laboratórios brasileiros mostram que ela não faz casulo: estiva numa toca simples. É respiradora aérea obrigatória, com pulmões bilaterais bem desenvolvidos. Estivar é a dormência no calor e na seca; hibernar é a equivalente no frio.

O maior genoma animal já sequenciado é de um peixe brasileiro

O genoma da piramboia tem cerca de 91 bilhões de pares de bases, uns 30 vezes o humano, o maior já sequenciado em animais. Cerca de 90% dele é DNA repetitivo, e nos últimos 100 milhões de anos cresceu o equivalente a um genoma humano a cada 10 milhões de anos.

Estivação e hibernação

Estivação é o torpor em temperatura alta, ligado a seca e calor. Hibernação é a dormência equivalente no frio. Os pulmonados enfrentam o primeiro problema: a água some e o calor aumenta. Por isso a expressão popular "o peixe que hiberna na lama" erra o termo, embora acerte a ideia de um peixe que reduz o corpo ao mínimo e espera. Nos dois casos o animal gasta pouca energia e fica sem comer.

Dois jeitos de esperar a seca

Nos Protopterus africanos, o animal hiperventila e secreta muco que em 6 a 8 dias forma um casulo seco ao redor do corpo, dentro da lama. Na piramboia, medições feitas em Ribeirão Preto (USP) mostram o contrário: não há casulo, só uma toca simples. É uma diferença de estratégia entre dois ramos de pulmonados, que respiram ar nos dois casos. Como o ar chega à toca da piramboia não foi confirmado em fonte aberta nesta pesquisa.

O que muda no corpo da piramboia

Em estivação experimental, o CO2 no sangue arterial subiu de 21,8 para 37,6 mmHg em 20 dias, o bicarbonato quase dobrou, a frequência cardíaca caiu de 31 para 22 batimentos por minuto em 40 dias e a pressão arterial ficou igual (cerca de 30 mmHg). No campo, em animais enterrados na Ilha do Careiro, enzimas do metabolismo estavam suprimidas, mas músculo esquelético e coração mantinham alta capacidade anaeróbica, segundo pesquisadores do INPA.

Peixe com pulmão e genoma gigante

A piramboia é respiradora aérea obrigatória e troca quase todo o ar do pulmão num ciclo só, como mediram pesquisadores da Unesp. Em 2024, o sequenciamento do genoma mostrou cerca de 91 Gb, o maior genoma animal conhecido, com cerca de 90% de repetições. Os pulmonados são os parentes vivos mais próximos dos animais terrestres, o que torna a piramboia uma janela para a saída da água.

Como sabemos

Fisiologia e genoma vêm de artigos revisados por pares; a duração máxima de estivação varia conforme a fonte.

Fontes

  1. Chew & Hiong, Temperature (2014), via PubMed Central — Aestivation and brain of the African lungfish Protopterus annectens
    consultada em 11/10/2026
  2. da Silva et al., Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP; Respiratory Physiology & Neurobiology (2008) — Aestivation in the South American lungfish, Lepidosiren paradoxa: effects on cardiovascular function, blood gases, osmolality and leptin levels
    consultada em 11/10/2026
  3. Mesquita-Saad et al., INPA; Brazilian Journal of Biology (2002) — Specialized metabolism and biochemical suppression during aestivation of the extant South American lungfish, Lepidosiren paradoxa
    consultada em 11/10/2026
  4. Schartl et al., Nature (2024), via PubMed Central — The genomes of all lungfish inform on genome expansion and tetrapod evolution
    consultada em 11/10/2026
  5. Meyer et al., Nature (2021), via Europe PMC — Giant lungfish genome elucidates the conquest of land by vertebrates
    consultada em 11/10/2026
  6. da Silva et al., Unesp Jaboticabal; Comparative Biochemistry and Physiology A (2017) — Effects of aerial hypoxia and temperature on pulmonary breathing pattern and gas exchange in the South American lungfish, Lepidosiren paradoxa
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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