Zoologia
Peixes-lanterna e a zona crepuscular: a biomassa estimada vai de 1 a 19,5 bilhões de toneladas
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Mar profundo
As estimativas globais de biomassa dos peixes da zona crepuscular (200 a 1.000 m), onde os peixes-lanterna dominam muitas comunidades, vão de cerca de 1 a 19,5 bilhões de toneladas. O número mais antigo vem de redes de arrasto, de onde os peixes escapam; estimativas acústicas posteriores são até uma ordem de grandeza maiores, mas dependem de quanto cada espécie reflete o som.
Peixes mesopelágicos são os que vivem entre cerca de 200 e 1.000 m, a zona crepuscular. Os peixes-lanterna (família Myctophidae) estão entre os mais abundantes dali. Como não dá para contá-los, a biomassa é estimada por dois métodos. Redes de arrasto capturam e pesam os peixes, mas muitos escapam. Ecossondas emitem som e medem o eco, o "retroespalhamento", convertido em peso por uma relação eco/peso; essa conversão depende da espécie, do tamanho e da bexiga natatória (órgão com gás que reflete o som). Cada método tem um viés conhecido, e por isso as estimativas diferem em ordens de grandeza.
O peixe que quase não faz eco
A bexiga natatória com gás pode responder por até 95% do eco de um peixe. Perto da Antártida, vários dos peixes mais abundantes não têm gás, e isso distorce a leitura do sonar sobre quantos peixes há ali.
Por que a rede subestima
Redes de arrasto amostram uma fração minúscula do volume do oceano. Além disso, muitos peixes mesopelágicos reagem à rede escapando, e comparações entre tipos de rede mostraram diferenças de uma ordem de grandeza na biomassa capturada. Por isso a estimativa de cerca de 1 bilhão de toneladas, usada por muito tempo como referência, é tratada hoje como piso provável, não como medida: os autores da estimativa original já notavam que os equipamentos usados subestimavam a biomassa.
Como sabemos: o eco e seus limites
Uma ecossonda emite som a 38 kHz e registra o eco; a soma do eco entre 200 e 1.000 m (o coeficiente de espalhamento náutico) serve de indicador de biomassa. Na expedição Malaspina (2010-2011), a média foi de 1.864 m² por milha náutica ao quadrado. Para virar peso é preciso saber que parte do eco vem de peixes e quanto cada espécie reflete, e aí moram as incertezas: o gás da bexiga natatória domina o eco, e espécies sem gás, comuns perto da Antártida, ficam subestimadas.
Uma checagem fora da acústica
Um modelo de teia alimentar, que parte da produção primária (a energia fixada pelo fitoplâncton) e de quanto passa a cada nível trófico, deu biomassas dentro da faixa das estimativas acústicas medianas. Isso não prova o valor, porque os parâmetros do modelo também são incertos, mas é uma segunda linha de evidência. O que essa biomassa significa para o carbono do oceano está no post sobre a bomba biológica.
Peixe-lanterna ou boca-de-cerdas: quem é o mais numeroso?
A ideia de que os peixes-lanterna seriam os vertebrados mais numerosos do planeta pede cuidado. Irigoien e colegas atribuem o superlativo, com um "provavelmente", ao gênero Cyclothone, os peixes-boca-de-cerdas; os peixes-lanterna dominam em número e biomassa muitas comunidades mesopelágicas. Nenhum censo direto existe: é inferência a partir de redes e ecos.
Como sabemos
Números e limitações foram copiados de quatro artigos abertos, mas a biomassa global segue em disputa e não li as estimativas mais recentes.
Em debate: Há debate publicado sobre a ordem de grandeza da biomassa global (1 a 19,5 bilhões de toneladas): as redes provavelmente subestimam, e a acústica depende de suposições sobre o eco de cada espécie.
- Estimativa: A estimativa global tradicional da biomassa de peixes mesopelágicos, baseada em pescas de arrasto, é de cerca de 1.000 milhões de toneladas (1 bilhão de toneladas, conta nossa). [1] Resumo
Contexto: Valor "corrente" no artigo de 2014, que o atribui a estimativas de rede. · Limitações: Conversão para bilhões de toneladas é cálculo nosso (1.000 milhões = 1 bilhão). O valor depende da eficiência das redes, questionada no próprio artigo. · Estimativa, não contagem. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Um estudo de 2014 que combinou dados acústicos da expedição Malaspina e modelagem concluiu que a estimativa anterior precisava ser revista para, no mínimo, uma ordem de grandeza maior. [1] Resumo
Contexto: Dados de uma volta ao mundo (dez/2010 a jul/2011), águas oceânicas entre 40° N e 40° S. · Limitações: Resultado de um estudo e de seus pressupostos (proporção do eco que vem de peixes, relação eco/peso); não é consenso fechado. · Dependente de pressupostos acústicos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Com os valores da literatura para a relação entre eco e peso (quartis de 25% e 75%), a faixa estimada para 40° N a 40° S foi de 6.000 a 200.000 milhões de toneladas, com medianas entre 11.000 e 15.000 milhões. [1] Results, Acoustic biomass estimates
Contexto: Somente águas oceânicas com fundo maior que 1.000 m entre 40° N e 40° S. · Limitações: A faixa cobre mais de uma ordem de grandeza: a própria dispersão da relação eco/peso é parte da incerteza. Conversões para bilhões de toneladas (6 a 200; 11 a 15) são cálculo nosso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A estimativa de 1.000 milhões de toneladas só seria compatível com os dados acústicos se os peixes respondessem por uma fração pequena do eco; contribuições acima de 20%, como em geral relatado, levam a biomassas várias vezes maiores. [1] Results, Acoustic biomass estimates
Contexto: Análise de sensibilidade dos autores sobre o eco de 38 kHz entre 200 e 1.000 m. · Limitações: Parte do eco vem de outros organismos; a fração exata varia por região e é incerta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As redes subestimam: os peixes mesopelágicos reagem às redes escapando delas, e comparações entre tipos de rede mostraram diferenças de uma ordem de grandeza na biomassa capturada. [1] Introduction, §1
Contexto: Afirmação dos autores de 2014, que citam estudos anteriores de intercalibração e de comportamento. · Limitações: O artigo de 2014 resume trabalhos de terceiros; o grau de subestimativa varia com o tipo de rede e a região. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: As estimativas globais de biomassa dos peixes mesopelágicos variam de 1 a 19,5 gigatoneladas (bilhões de toneladas), e a evitação das redes é apontada como um problema central dessa incerteza. [2] 1. Introduction, §1
Contexto: Resumo da literatura feito por Dornan e colegas em 2019. · Limitações: Não examinei os estudos que sustentam a faixa; a citação é de segunda mão (segundo Dornan et al.). · Há debate publicado sobre a ordem de grandeza. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em estimativas acústicas, a bexiga natatória com gás responde por grande parte do eco de um peixe, de modo que espécies sem gás ficam subestimadas. [3] 1. Introduction, §4
Contexto: Valor máximo ("até 95%") citado por Dornan et al. 2022 a partir de literatura anterior. · Limitações: O "até 95%" é um teto, não um valor típico; segundo Dornan et al., que citam outro trabalho. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No Oceano Austral, várias das espécies mesopelágicas mais abundantes não têm bexiga natatória com gás, e a comunidade passa de espécies com gás para espécies sem gás à medida que a latitude aumenta rumo à Antártida; isso inclui peixes-lanterna. [2] Resumo
Contexto: Sul de 50° S, Atlântico Sul (das Malvinas/Falkland às Órcadas do Sul), tomografias e pescas de arrasto. · Limitações: Resultado regional; não vale como regra para todo o oceano. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Para o Oceano Austral, uma estimativa acústica com alvo específico por espécie deu cerca de 274 milhões de toneladas (se o krill contribui para o eco) ou 570 milhões (se só peixes respondem), de 1,8 a 3,8 vezes as estimativas anteriores por rede. [3] Resumo
Contexto: Sul de 50° S, com 6 anos de transectos acústicos na Scotia Sea e redes para a composição de espécies. · Limitações: As duas cifras refletem o quanto do eco vem do krill. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: O gênero Cyclothone (peixes-boca-de-cerdas), que não é de peixe-lanterna, é apontado como provavelmente o vertebrado mais abundante da Terra; já os peixes-lanterna dominam em número e biomassa muitas comunidades mesopelágicas. [1] Introduction, §1 [3] 1. Introduction, §1
Contexto: Afirmações de revisão de literatura; "mais abundante" é inferido, não contado. · Limitações: "Provavelmente" é do próprio texto; nenhum censo direto existe. · Correção da premissa da pauta: o superlativo é atribuído a Cyclothone, não aos peixes-lanterna. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os peixes mesopelágicos vivem a maior parte da vida na zona crepuscular do oceano (200 a 1.000 m) e formam a maior biomassa de teleósteos nos oceanos, sobretudo espécies pequenas, não comerciais, das ordens Myctophiformes (peixes-lanterna) e Stomiiformes. [4] 1. Introduction, §1
Contexto: Descrição geral feita em artigo de 2023 sobre dietas na Península Ibérica. · Limitações: Superlativo de uma introdução, sem número próprio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Com o modelo de teia alimentar ECOTROPH ajustado pelos autores, a biomassa modelada com eficiência de transferência de 10% caiu dentro da faixa das estimativas acústicas com a relação mediana eco/peso, uma checagem independente da acústica. [1] Results, Modelling biomass estimates
Contexto: Modelo genérico de oceano aberto, entre 40° N e 40° S. · Limitações: A concordância depende dos parâmetros escolhidos (fração da produção primária que entra na cadeia, eficiência de transferência); os autores mostram faixa de 2.000 a 70.000 milhões de toneladas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores do estudo de 2014 dizem que é preciso conhecer melhor a composição e as propriedades acústicas da comunidade mesopelágica para obter biomassas precisas, e que a análise cobre apenas entre 40° N e 40° S. [1] Discussion, §2
Contexto: Limitações declaradas no artigo de 2014. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As estimativas por rede tendem a subestimar a biomassa total, pela distribuição irregular das espécies e pela evitação das redes. [3] 1. Introduction, §3
Contexto: Posição de Dornan et al. 2022, em linha com Irigoien et al. 2014. · Limitações: "Likely to" (provavelmente) é do original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo Irigoien e colegas, a biomassa maior sugerida pelos dados acústicos implicaria que esses peixes respirem, em águas profundas, cerca de 10% da produção primária, o que mudaria o papel deles no ciclo do carbono. [1] Resumo
Contexto: Resultado condicional à biomassa de 2014 e a pressupostos de respiração. · Limitações: O artigo escreve "may be" (pode estar); não há medição direta global. · Hipótese derivada de uma estimativa de biomassa ainda debatida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Nature Communications — Large mesopelagic fishes biomass and trophic efficiency in the open ocean
Irigoien, X. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms4271 - Proceedings of the Royal Society B — Swimbladder morphology masks Southern Ocean mesopelagic fish biomass
Dornan, T. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2019.0353 - Proceedings of the Royal Society B — Large mesopelagic fish biomass in the Southern Ocean resolved by acoustic properties
Dornan, T. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2021.1781 - Animals (MDPI) — Multiple Approaches to the Trophic Role of Mesopelagic Fish around the Iberian Peninsula
Olivar, M. P. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/ani13050886
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)