Zoologia

No meio do oceano, muitos peixes acendem a barriga para sumir da vista de quem olha de baixo

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Abaixo de poucas centenas de metros resta só um fiapo de luz azulada vinda da superfície. Contra esse fundo, o corpo de um peixe aparece como silhueta escura para quem espreita de baixo. Muitos peixes e tubarões resolvem isso com fotóforos na barriga, que emitem luz azul de intensidade parecida com a de cima. É a contra-iluminação: o animal se esconde ao se acender, em vez de se apagar.

A luz do Sol some com a profundidade e, na água clara do mar aberto, o que sobra é azul. Um predador que olha para cima enxerga as presas como recortes escuros contra esse brilho fraco. A contra-iluminação desfaz o recorte: órgãos de luz ventrais (fotóforos) emitem uma luz que imita a luz residual vinda de cima em intensidade, distribuição angular e cor. A bioluminescência de peixes surgiu de forma independente pelo menos 27 vezes, em linhagens muito diferentes. Isso indica que a pressão que a favorece, ver e não ser visto, é forte e recorrente. Em peixes, a luz serve também a outras funções, como obter alimento e reproduzir-se.

Um tubarão com "sabres de luz"

O tubarão-lanterna Etmopterus spinax tem até 60 cm e vive em torno de 200 a 1.000 m. Além da luz ventral de camuflagem, tem órgãos de luz junto aos espinhos dorsais, que podem funcionar como aviso a predadores.

O problema da silhueta

No mar aberto não há onde se esconder: sem rochas ou plantas, o animal fica suspenso na água. Para um predador que olha para cima, uma presa escura recorta-se contra o azul fraco que vem da superfície. A seleção natural favorece qualquer coisa que reduza esse contraste. A solução de muitas linhagens foi iluminar a parte de baixo do corpo com uma luz que se confunda com o fundo, em vez de tentar ficar transparente ou prateado.

O que a luz precisa imitar

Não basta emitir luz. Para funcionar, ela precisa se parecer com a luz de cima em três aspectos: intensidade, distribuição angular e cor. Na água clara, essa cor é azulada, com picos entre 455 e 486 nm nos estudos com tubarões. Quando a luz de cima muda, com a profundidade, o disfarce deixa de casar, e por isso a profundidade em que o animal vive importa tanto quanto o órgão de luz.

Tubarões que seguem uma profundidade

Em tubarões-lanterna e parentes, o estudo de Claes e colegas encontrou relação entre a cobertura de fotóforos na barriga e a profundidade de captura. A interpretação dos autores é que eles emitem luz constante e ficam na profundidade onde ela casa com a luz ambiente, a chamada isolume. Em outros animais com contra-iluminação, o ajuste costuma ser feito variando a intensidade da luz emitida.

Além do disfarce, e um limite

A bioluminescência de peixes tem outras funções documentadas: fugir de predadores, obter alimento e reproduzir-se. Outro ponto: a luz própria e a luz de bactérias simbiontes aparecem como mecanismos diferentes em origens diferentes. Essa diversidade de rotas para o mesmo resultado é o que dá peso à ideia de uma pressão ambiental forte, mas a pressão em si é inferida pelos pesquisadores, não medida diretamente em cada linhagem.

Como sabemos

Mecanismo central bem estabelecido em artigos revisados por pares; funções secundárias (aviso, óptica da pele) marcadas como hipótese.

Fontes

  1. Scientific Reports (Claes, Nilsson, Straube, Collin, Mallefet), PubMed Central — Iso-luminance counterillumination drove bioluminescent shark radiation
    consultada em 06/10/2026
  2. Scientific Reports (Claes, Dean, Nilsson, Hart, Mallefet), PubMed Central — A deepwater fish with 'lightsabers': dorsal spine-associated luminescence in a counterilluminating lanternshark
    consultada em 06/10/2026
  3. PLOS ONE — Ray-finned fishes evolved bioluminescence at least 27 times (Davis, Sparks e Smith, 2016)
    consultada em 06/10/2026
  4. Universidade da Pensilvânia (Penn Today) — Hatchetfish scatter light to camouflage in the deep sea, Penn physicists report
    consultada em 06/10/2026
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