Zoologia

Peixes de caverna do Brasil: de olhos reduzidos a sem olhos externos, e as ameaças a populações pequenas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Cavernas brasileiras abrigam mais de 30 linhagens de peixes troglóbios, a maioria bagres, além de um tetra. Olho e pigmento aparecem reduzidos em graus diferentes: em Aspidoras mephisto a maioria dos exemplares tem olhos reduzidos, em Stygichthys typhlops não há olhos externos. Se a perda foi acaso ou seleção ainda se debate, e muitas espécies vivem em poucas cavernas com ameaças locais.

Troglóbios são animais restritos ao ambiente subterrâneo. Troglomorfismo é o conjunto de traços ligados a essa vida, sobretudo olho e pigmento reduzidos. Esses traços variam de espécie para espécie e entre indivíduos da mesma população, e aparecem em linhagens sem parentesco próximo, como o tetra Stygichthys typhlops e o Astyanax mexicanus: é convergência, a evolução independente de traços parecidos. O mecanismo geral da perda do olho no peixe mexicano está no post sobre o Astyanax; aqui entram as espécies brasileiras. Bagres dos gêneros Trichomycterus e Ituglanis, de Goiás, Bahia e Minas Gerais, formam boa parte da lista, ao lado de espécies de São Paulo e do Mato Grosso do Sul.

Juvenis que ainda enxergam

Em Ituglanis passensis, larvas e juvenis têm olhos formados e só os perdem com a idade: o último juvenil acompanhado ainda tinha olhos externos aos 720 dias, com cerca de 30 mm.

Bagres, um tetra e lacunas de conhecimento

Os bagres dominam a lista: Trichomycteridae é a família com mais troglóbios na América do Sul, com 10 espécies descritas no Brasil em três gêneros, segundo Secutti e Trajano. Há ainda Pimelodella kronei no Alto Ribeira (SP), Aspidoras mephisto em Goiás e o tetra Stygichthys typhlops em Minas. Para a maioria faltam dados do ciclo de vida completo, da corte ao juvenil, porque esses peixes são raros, reproduzem pouco e escondem as larvas.

Como sabemos: criar o peixe no escuro e comparar genes

Secutti e Trajano mantiveram I. passensis em aquário no escuro por quase dez anos e mediram larvas semana a semana: nasceram com olhos, e a regressão só apareceu depois de cerca de um ano. A amostra é mínima, com um sobrevivente de longa duração. O estudo de Stygichthys comparou genes de três indivíduos com os de peixes do México e achou 26 genes sob seleção relaxada: sugere falta de pressão para manter a visão, mas não prova se a perda foi neutra ou favorecida.

O grau de regressão como pista da idade do isolamento

Tencatt e Bichuette tratam o grau baixo de troglomorfismo de A. mephisto como possível sinal de isolamento recente. Para T. rubbioli, a análise molecular sugere adaptação entre o Mioceno Médio e Tardio, com clima semiárido e riachos sazonais. As duas ideias são hipóteses: a ligação entre grau de regressão e tempo de isolamento ainda precisa de teste em mais espécies, como lembram Secutti e Trajano.

Ameaças: poucas cavernas, pouca proteção

A. mephisto ocupa cerca de 6 km² e, em 2017, seu sistema de cavernas não tinha proteção legal; Stygichthys typhlops é restrito a Jaíba e consta como ameaçado. Pela revisão de 2018, mineração, agricultura e hidrelétricas são pressões fortes, e só cavernas de relevância máxima são totalmente protegidas, o que passa pela inclusão de espécies na lista vermelha. As categorias citadas são de 2014 e podem ter mudado.

Como sabemos

Cinco fontes abertas lidas, mas a lista de espécies e as categorias de ameaça são de 2018 e o mecanismo da perda do olho segue em debate.

Em debate: Secutti e Trajano defendem a mutação neutra como modelo geral para peixes de caverna; trabalhos sobre o Astyanax apontam também seleção direta e indireta. Os dados brasileiros resumidos aqui não decidem a questão.

Fontes

  1. Subterranean Biology — Reproduction, development, asymmetry and late eye regression in the Brazilian cave catfish Ituglanis passensis (Siluriformes, Trichomycteridae): evidence contributing to the neutral mutation theory
    Secutti, S.; Trajano, E. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3897/subtbiol.31.60691
  2. ZooKeys — Brazilian obligatory subterranean fauna and threats to the hypogean environment
    Gallão, J. E.; Bichuette, M. E. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3897/zookeys.746.15140
  3. PLoS ONE — Aspidoras mephisto, new species: The first troglobitic Callichthyidae (Teleostei: Siluriformes) from South America
    Tencatt, L. F. C.; Bichuette, M. E. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0171309
  4. Journal of Fish Biology — Time-calibrated relationships of a rare cave catfish (Trichomycterus rubbioli): Shedding light on troglobitic lifestyle origin in the Brazilian caatinga
    Costa, W. J. E. M.; Vilardo, P. J.; Mattos, J. L. O.; Katz, A. M.; Azevedo-Santos, V. M.; Uzeda, P. L. C.; Ferreira, R. L. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/jfb.70419
  5. Frontiers in Ecology and Evolution — Transcriptomic analysis of the Brazilian blind characid, Stygichthys typhlops, reveals convergent selection with Astyanax mexicanus and other cavefishes
    Arcila, D.; Rincon-Sandoval, M.; Hanson, W.; Hart, P. B.; González, V. L.; Betancur-R, R.; Bichuette, M. E. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fevo.2023.1076756
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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