Zoologia

Por que o peixe-boi é parente do elefante? O DNA juntou sirênios e elefantes num grupo de origem africana

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

Peixes-bois, dugongos, elefantes e hiraxes formam um ramo de mamíferos que a anatomia já sugeria e o DNA reforçou. Em 1997, sequências genéticas mostraram que esse ramo faz parte de um grupo maior, de origem africana presumida, que inclui também musaranhos-elefante, aardvarks e toupeiras-douradas. O peixe-boi-da-amazônia, só de água doce, é um dos quatro sirênios vivos.

Durante muito tempo, a aparência separou animais que a genética aproxima. Em 1997, Springer e colegas analisaram DNA de cinco genes e viram que hiraxes, peixes-bois, elefantes, musaranhos-elefante, aardvarks e toupeiras-douradas se agrupavam num só clado, de provável origem africana. Em 1998, Stanhope e colegas chegaram à mesma conclusão com mais táxons e reuniram seis ordens num só grupo africano, hoje chamado Afrotheria. A ligação entre elefantes, sirênios e hiraxes já era sugerida pela anatomia e pelos fósseis. Os fósseis ajudam a contar o resto: o sirênio com esqueleto mais completo do início da história do grupo andava em quatro patas, e a origem dos sirênios foi na África.

Um sirênio com quatro pernas

Pezosiren portelli, do Eoceno da Jamaica, tinha quatro pernas bem desenvolvidas e um sacro capaz de sustentar o corpo fora d'água, como em mamíferos terrestres. Mesmo assim, passava a maior parte do tempo na água. É um registro raro da passagem entre vida em terra e vida aquática.

Afrotheria: o DNA contra a aparência

Toupeiras-douradas, elefantes e peixes-bois não se parecem em nada. Em 1997 e 1998, sequências de genes mitocondriais e nucleares os colocaram no mesmo ramo, junto com hiraxes, musaranhos-elefante e aardvarks. Hedges (2001) chamou o agrupamento de o mais bem apoiado entre ordens de mamíferos nas filogenias moleculares, mas lembrou que a anatomia ainda dá pouco suporte a ele. O trio elefante, sirênio e hirax, esse sim, já vinha da anatomia e dos fósseis.

O sirênio que andava

Os peixes-bois e dugongos de hoje não têm membros posteriores e usam a cauda para nadar. Pezosiren portelli, descrito por Domning em 2001 a partir de fósseis do Eoceno da Jamaica, ainda tinha quatro pernas capazes de sustentar o corpo em terra. Seu esqueleto mostra, porém, adaptações aquáticas, e ele provavelmente passava a maior parte do tempo na água, nadando com movimentos da coluna e remadas das patas traseiras.

Da África à Amazônia

Um osso de ouvido do Eoceno da Tunísia é o sirênio mais antigo da África e sustenta a origem africana do grupo; Heritage e Seiffert (2022) reconstroem uma origem no norte da África e uma travessia do Atlântico no fim do Eoceno. Os triquequídeos, família dos peixes-bois, evoluíram na América do Sul desde o Mioceno inicial, provavelmente nos Pantanais de Pebas, antes de o gênero Trichechus se espalhar pelo Atlântico.

Dois peixes-bois no Brasil

O Brasil abriga duas das quatro espécies vivas. O peixe-boi-da-amazônia vive só em água doce, chega a 2,75 m e 420 kg e foi explorado em escala comercial até quase desaparecer; INPA e Mamirauá estão entre as instituições que o estudam. O peixe-boi-marinho, maior, ocorre na costa do Nordeste ao Amapá e é acompanhado pelo Centro Mamíferos Aquáticos do ICMBio, em Itamaracá (PE), que resgata e reabilita filhotes encalhados.

Como sabemos

Núcleo (filogenia molecular, Pezosiren, origem africana) vem de artigos revisados por pares; dados populacionais brasileiros são datados.

Em debate: O agrupamento tem apoio molecular forte, mas poucas características anatômicas o sustentam; o subgrupo de elefantes, sirênios e hiraxes é aceito por ambas as linhas de evidência.

Fontes

  1. Nature (Springer et al., 1997) — Endemic African mammals shake the phylogenetic tree
    consultada em 11/10/2026
  2. PNAS (Stanhope et al., 1998) — Molecular evidence for multiple origins of Insectivora and for a new order of endemic African insectivore mammals
    consultada em 11/10/2026
  3. PNAS (Hedges, 2001) — Afrotheria: Plate tectonics meets genomics
    consultada em 11/10/2026
  4. Nature (Domning, 2001) — The earliest known fully quadrupedal sirenian
    consultada em 11/10/2026
  5. PLoS ONE (Benoit et al., 2013) — Cranial remain from Tunisia provides new clues for the origin and evolution of Sirenia in Africa
    consultada em 11/10/2026
  6. PeerJ (Heritage & Seiffert, 2022) — Total evidence time-scaled phylogenetic and biogeographic models for the evolution of sea cows
    consultada em 11/10/2026
  7. Latin American Journal of Aquatic Mammals (Amaral, Marmontel et al., INPA/Mamirauá, 2023) — Advances in the knowledge of the biology and conservation of the Amazonian manatee
    consultada em 11/10/2026
  8. ICMBio / CMA — Sumário Executivo do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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