Paleontologia

Pebas: o pântano amazônico do Mioceno e o que sete crocodilianos no mesmo lugar revelam

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O sistema Pebas, um vasto complexo de lagos, pântanos e rios do oeste da Amazônia no Mioceno, abrigava ao menos sete espécies de crocodilianos ao mesmo tempo. É o que mostram dois leitos de ossos do Peru, com cerca de 13 milhões de anos. Hoje, só três espécies raramente convivem na região. Vários desses jacarés eram pequenos e tinham dentes de esmagar, ligados por hipótese a uma dieta de moluscos.

Crocodilianos são o grupo dos jacarés, crocodilos e gaviais. O Mioceno foi a época entre cerca de 23 e 5 milhões de anos atrás. Naquele tempo, com o soerguimento dos Andes, o oeste da bacia amazônica era um sistema de água doce a salobra, em vez de uma floresta atravessada por um grande rio: o sistema Pebas, nome tirado da Formação Pebas, a camada de rochas onde ficam seus fósseis. Os dois leitos de ossos estudados por Salas-Gismondi e colegas, em lignito perto de Iquitos, no Peru, guardam restos de mamíferos, tartarugas, peixes e, em maior número, crocodilianos. O conjunto permite comparar o Pebas com a Amazônia atual e perguntar como um ambiente tão diferente moldou a fauna.

Um jacaré que cavava com a mandíbula

Gnatusuchus pebasensis tinha mandíbula em forma de pá e um espaço sem dentes entre os da frente e os de trás. O nome vem do quéchua 'ñatu', nariz pequeno, e do grego para crocodilo.

O que era o sistema Pebas

Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, o oeste da bacia amazônica foi um sistema de água doce a salobra paralelo aos Andes, com lagos, baías, pântanos e rios. Ele se formou com o soerguimento da cordilheira e chegou ao máximo no Ótimo Climático do Mioceno Médio. Seu auge teria passado de 1 milhão de km². Os rios drenavam para o norte, rumo ao Caribe, e não para o Atlântico. Como a água do oeste da bacia mudou de direção é contado em outro post.

Como sabemos: dois leitos de ossos e uma contagem

A equipe fez levantamentos sistemáticos perto de Iquitos desde 2002 e achou dois leitos de ossos em lignito, de cerca de 20 e 200 m². Os crânios e mandíbulas foram descritos e comparados quanto à forma do focinho; os dentes mostram desgaste. A idade, cerca de 13 milhões de anos, vem de zonas de moluscos. O limite é que são dois sítios vizinhos: a diversidade de sete espécies vale para ali, não para todo o Pebas. Fósseis não trazem o conteúdo do estômago, e a dieta é inferida.

Uma hipótese para os dentes de esmagar

Gnatusuchus e parentes tinham focinho curto e dentes de trás globulares. Os autores propõem que comiam moluscos, abundantes e variados no Pebas, e citam o desgaste dos dentes e até 93% de fragmentos de concha com bordas de esmagamento em algumas amostras. Descartam peixes como autores principais porque os peixes de então se parecem com os de hoje. É uma inferência indireta: sem estômagos fossilizados, a dieta segue como hipótese.

O fim do pântano e o que mudou

Com o soerguimento dos Andes, o Pebas se fragmentou e, mais tarde, o Amazonas passou a atravessar o continente. Para os autores, os especializados em esmagar declinaram e os jacarés generalistas, como os atuais, passaram a dominar. A data do rio varia: cerca de 10,5 milhões de anos num estudo, cerca de 9 milhões em outro. Já o jacaré gigante Purussaurus, de até cerca de 12,5 m numa estimativa por regressão, pertence ao Mioceno tardio.

Como sabemos

Os fatos centrais vêm de um artigo revisado lido na íntegra; a dieta dos esmagadores é hipótese, e as datas do Amazonas transcontinental variam entre estudos.

Em debate: Os autores do estudo de 2015 atribuem ao surgimento e ao fim dos ecossistemas aquáticos do Pebas influência substancial na evolução da diversidade de crocodilianos e de outros grupos amazônicos. Um estudo de 2023, que modelou a diversificação de peixes de água doce, descreve o papel do Pebas como secundário. Os trabalhos tratam de grupos e métodos distintos, e a questão segue em aberto.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B — A Miocene hyperdiverse crocodylian community reveals peculiar trophic dynamics in proto-Amazonian mega-wetlands
    Salas-Gismondi, R.; Flynn, J. J.; Baby, P.; Tejada-Lara, J. V.; Wesselingh, F. P.; Antoine, P.-O. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2014.2490
  2. Science Advances — The largest freshwater odontocete: A South Asian river dolphin relative from the proto-Amazonia
    Benites-Palomino, A. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.adk6320
  3. Nature Ecology & Evolution — Freshwater fish diversity in the western Amazon basin shaped by Andean uplift since the Late Cretaceous
    Boschman, L. M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41559-023-02220-8
  4. PLoS ONE — Morphometry, bite-force, and paleobiology of the late Miocene caiman Purussaurus brasiliensis
    Aureliano, T.; Ghilardi, A. M.; Guilherme, E.; Souza-Filho, J. P.; Cavalcanti, M.; Riff, D. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0117944
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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