História da Ásia
Sob os mongóis, astronomia, medicina e técnicas circularam entre a China e o Irã, e enviados chegaram à Europa
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
No fim do século XIII, um astrônomo persa montava instrumentos em Pequim, um vizir de Tabriz mandava traduzir livros chineses de medicina e um monge cristão nascido perto de Pequim era recebido pelo papa em Roma. O que ligava tudo isso era o domínio mongol, que os historiadores chamam de Pax Mongolica. Parte dessa circulação está em documentos e objetos; outra parte, como a viagem da pólvora para o Ocidente, ainda é suposição.
Os mongóis governavam da China ao Irã, e a corte do grão-cã na China e a do Ilcanato, no Irã, trocavam enviados, sábios e livros. Para quem viajava a serviço, havia o paiza, uma placa de metal que dava direito a pouso, comida, cavalos descansados e escolta de uma estação a outra da rede de postos. Os cãs atraíram gente de fora: Kublai chamou a Pequim o astrônomo persa Jamal al-Din, porque sabia dos avanços do observatório de Maragha, no Irã. No caminho inverso, Bolad, enviado de Kublai no Irã, deu ao vizir Rashid al-Din acesso aos registros dos próprios mongóis. O que se sabe desse trânsito vem de crônicas, objetos e relatos de viagem. O que não deixou rastro escrito, como a passagem da pólvora para o oeste, segue em debate.
Dinheiro de papel em Tabriz
Em 12 de setembro de 1294, segundo Rashid al-Din, Tabriz recebeu cédulas copiadas do papel-moeda chinês, impressas com blocos de madeira e com inscrição em chinês. Recusá-las dava pena de morte. Os preços subiram mais de dez vezes, o comércio parou e o governo recuou depois de cerca de dois meses.
Viajar com a placa do cã
O Império Mongol tinha uma rede de postos ao longo das estradas. Quem viajava a serviço levava uma placa de metal, o paiza, chamado em mongol de gerege, "o que dá testemunho". A de mensageiro garantia pouso, comida, cavalos descansados e escolta de posto em posto; versões mais nobres iam para comandantes, governantes vassalos e administradores. A peça do Metropolitan Museum, de ferro com prata, traz a inscrição na escrita phags-pa, criada para a corte de Kublai.
Um vizir que escreveu a história do mundo
Rashid al-Din, nascido por volta de 1247, entrou a serviço dos mongóis como médico e chegou a covizir do Ilcanato em 1298. Entre 1300 e 1310, por encomenda de Ghazan e Öljeitü, escreveu a Compilação de Crônicas, que trata de turcos, francos, judeus, chineses e indianos. Para a parte mongol, usou registros que lhe abriu Bolad, enviado de Kublai. Sua fundação em Tabriz mandava copiar a obra todo ano em árabe e em persa.
Céu persa em Pequim, medicina chinesa em Tabriz
Kublai sabia dos avanços do observatório de Maragha, no Irã, e chamou a Pequim o astrônomo persa Jamal al-Din, que trouxe instrumentos e recebeu a tarefa de montar um observatório. Trabalhando com ele, o chinês Guo Shoujing fez um calendário mais preciso. No Irã, Rashid al-Din reuniu no Tanksuq-nama traduções persas de fontes chinesas, sobretudo de medicina.
Um monge de Pequim na Europa
Os relatos de Marco Polo, que esteve na China de 1275 a 1291, são os mais conhecidos, mas houve viagem no sentido contrário. Rabban Bar Sauma, monge cristão nestoriano, saiu de Khanbaliq e, em 1288, como enviado do ilcã Arghun, que buscava aliados contra os mamelucos, foi recebido pelos reis da França e da Inglaterra e pelo papa Nicolau IV. Seu relato em siríaco é uma das primeiras descrições da Europa vistas do lado mongol.
Como sabemos
Cada exemplo de circulação vem de enciclopédia acadêmica (Iranica), museus (Met, Rubin, Museo Galileo), universidade e periódico; o que é suposição (pólvora, imprensa) aparece como tal.
Em debate: Pólvora: a ideia de que os mongóis levaram a pólvora da China para o Oriente Médio e a Europa é comum, mas não tem documento direto; Kate Raphael (Journal of the Royal Asiatic Society, 2009) não acha sinal de armas de pólvora nas fontes da campanha de Hülegü (anos 1250).
Em debate: Imprensa: a impressão com blocos de madeira chegou documentadamente a Tabriz em 1294 (as cédulas čāv), mas não há documento que ligue a impressão chinesa, por via mongol, à imprensa de Gutenberg; a hipótese existe e não foi provada.
Em debate: Marco Polo: alguns historiadores discutem a exatidão e partes do relato de Polo; a estadia na China entre 1275 e 1291 é a datação aceita por instituições como a Universidade Columbia.
- Consenso científico: Os historiadores chamam o período de domínio mongol de Pax Mongolica, a paz mongol. [8]
- Fato estabelecido: O paiza (em mongol, gerege, 'o que dá testemunho') era uma placa de autoridade; a de mensageiro dava direito a pouso, comida, cavalos descansados e escolta de uma estação a outra da rede de postos. [2]
- Fato estabelecido: O Metropolitan Museum guarda um paiza de ferro com incrustação de prata e inscrição em escrita phags-pa, do fim do século XIII, com 18,1 cm de altura. [2] [9]
- Fato estabelecido: Kublai convidou a Pequim o astrônomo persa Jamal al-Din, por saber dos avanços persas em astronomia, em especial no observatório de Maragha; Jamal al-Din trouxe instrumentos e foi encarregado de construir um observatório. [5]
- Fato estabelecido: Em colaboração com Jamal al-Din, Guo Shoujing (1231–1316) elaborou um calendário novo e mais preciso. [5]
- Fato estabelecido: Rashid al-Din (c. 1247–1318) entrou no serviço mongol como médico e virou covizir em 1298; morreu em 1318 vítima de intrigas de rivais. [1]
A Iranica diz que a morte resultou das intrigas dos rivais; a execução em 1318 é a versão corrente, mas o texto não usa a palavra. - Consenso científico: A Compilação de Crônicas (Jāmeʿ al-tawāriḵ) foi escrita entre 1300 e 1310 por encomenda dos ilcãs Ghazan e Öljeitü e trata de turcos, francos, judeus, chineses e indianos, razão pela qual é chamada de primeira história universal. [1]
'Primeira história universal' é rótulo historiográfico (Boyle, Jahn, Morgan) que a Iranica considera justificado. - Fato estabelecido: Bolad, enviado do Yuan no Irã, deu a Rashid al-Din acesso aos registros dos próprios mongóis sobre sua história. [1]
- Fato estabelecido: O Tanksuq-nama, compilado por Rashid al-Din, reuniu traduções persas de fontes chinesas e trata sobretudo de medicina. [1] [7]
- Fato estabelecido: A fundação de Rashid al-Din, de 1309, mandava fazer todo ano duas cópias da Compilação de Crônicas, uma em árabe e uma em persa; a cópia mais antiga, em árabe, é de 1314 e está dividida entre a Biblioteca da Universidade de Edimburgo e a Coleção Khalili. [1]
- Fato estabelecido: Rabban Bar Sauma (c. 1220–1294), monge cristão nestoriano, saiu de Khanbaliq (Pequim) para o oeste; em 1288 visitou Constantinopla, Nápoles, Roma, Gênova e a França, foi recebido pelos reis da França e da Inglaterra e pelo papa Nicolau IV, e voltou a Bagdá em 1289. [4]
Outras obras datam a partida da embaixada em 1287; o texto usa 1288, ano das audiências segundo o Museo Galileo. - Fato estabelecido: A missão de Sauma fazia parte da diplomacia do ilcã Arghun contra o Sultanato Mameluco, e seu relato em siríaco é uma das primeiras fontes mongóis a descrever o Mediterrâneo e a Europa cristã. [4]
- Consenso científico: O mercador veneziano Marco Polo esteve na China de 1275 a 1291. [6]
Datas do relato do próprio Polo, aceitas pela Universidade Columbia; há historiadores que discutem detalhes do relato, mas a estadia é amplamente aceita. - Fato estabelecido: Em 12 de setembro de 1294, segundo Rashid al-Din, circularam em Tabriz cédulas (čāv, do chinês chao) com inscrição chinesa, impressas com blocos de madeira, com apoio de Bolad; recusá-las dava pena de morte; os preços subiram mais de dez vezes e o governo revogou a medida depois de cerca de dois meses. [3]
Outro cronista, Wassaf, dá setembro-outubro; os 'dois meses' vêm do continuador de Bar Hebraeus, citado pela Iranica. - Evidência forte: Há consenso amplo de que a pólvora foi usada primeiro na China, mas as principais fontes da campanha de Hülegü no oeste da Ásia, nos anos 1250, não indicam uso de tecnologia de pólvora. [10]
- Em debate: Que os mongóis tenham levado a pólvora para o Irã e a Europa é hipótese sem documento direto. [10]
Parte dos historiadores atribui aos mongóis a difusão da pólvora pela Eurásia; Kate Raphael (JRAS, 2009) mostra que as fontes da campanha de Hülegü não a mencionam.
Fontes
- Encyclopaedia Iranica — JĀMEʿ AL-TAWĀRIḴ
consultada em 05/10/2026 - Rubin Museum of Art, Project Himalayan Art — Mongol Messenger's Badge (Paiza or Gerege) in Pakpa Script
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica — ČĀV (paper money)
consultada em 05/10/2026 - Museo Galileo, Florença (exposição Fra Mauro) — From a Mongol Perspective: Rabban Bar Sauma
consultada em 05/10/2026 - Columbia University, Asia for Educators — Mongol Support for Science: the Beijing Observatory
consultada em 05/10/2026 - Columbia University, Asia for Educators — Marco Polo (1254-1324)
consultada em 05/10/2026 - History of Science in South Asia (Universidade de Alberta), v. 12, 2024 — Shifting the Paradigm. A Vizir's Persian Handbook of Āyurveda in Sixteenth-Century India
consultada em 05/10/2026 - Columbia University, Asia for Educators — The Mongols in World History: Mongol contributions
consultada em 05/10/2026 - The Metropolitan Museum of Art — Safe Conduct Pass (Paiza) with Inscription in Phakpa Script (1993.256)
consultada em 05/10/2026 - Journal of the Royal Asiatic Society (Cambridge University Press), 2009 — Mongol Siege Warfare on the Banks of the Euphrates and the Question of Gunpowder (1260–1312)
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão