Biologia

Paulinella: a ameba que ganhou uma organela fotossintetizante há cerca de 100 milhões de anos

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

A ameba Paulinella chromatophora tem cromatóforos, organelas fotossintetizantes que descendem de uma cianobactéria incorporada há cerca de 100 milhões de anos, num evento independente do que originou os cloroplastos. Por ser recente, o caso mostra etapas da transição de simbionte a organela: o genoma da bactéria encolheu, genes passaram ao núcleo da ameba e centenas de proteínas feitas ali são enviadas ao cromatóforo.

Cloroplastos e outros plastídios de plantas e algas vêm de uma endossimbiose em que uma cianobactéria passou a viver dentro de uma célula eucarionte, há cerca de 1,6 bilhão de anos (estimativa). Como o evento é tão antigo, quase não deixou pistas dos passos intermediários. Na ameba Paulinella, um evento semelhante e independente é bem mais recente. A organela, chamada cromatóforo, ainda guarda cerca de 1 Mbp de DNA próprio, mas depende do núcleo da célula: parte dos genes foi transferida para lá (transferência endossimbiótica de genes) e as proteínas correspondentes precisam ser importadas de volta. O post sobre a endossimbiose de Margulis trata das mitocôndrias; aqui o foco é o caso mais jovem.

Uma organela que não vive sozinha

O cromatóforo perdeu tantos genes de uso geral, como o ciclo do ácido tricarboxílico completo, que aparentemente não sobrevive fora da ameba. Seu genoma, de cerca de 1 Mbp, ainda é bem maior que o de um plastídio típico, com menos de 0,2 Mbp.

Como sabemos que é mais que um simbionte

Três linhas de evidência foram combinadas. A primeira é o genoma: o cromatóforo perdeu genes essenciais e não sobrevive fora do hospedeiro [a7]. A segunda é a transferência de genes: genes de origem cianobacteriana aparecem no núcleo, com composição de bases e íntrons de genes nucleares [a9]. A terceira é a importação: com anticorpos e microscopia eletrônica, a proteína PsaE feita pelo núcleo foi localizada no cromatóforo e no Golgi [a12]. O genoma sozinho não bastaria [a15].

Encolhimento incompleto do genoma

O genoma do cromatóforo, de cerca de 1 Mbp, tem cerca de um terço do tamanho do da cianobactéria livre mais próxima, de cerca de 3 Mbp [a5], mas ainda é muito maior que o de um plastídio típico, de menos de 0,2 Mbp [a6]. No cromatóforo, os genes centrais da fotossíntese seguem na própria organela, ao contrário dos plastídios típicos [a6]. A transferência para o núcleo, com cerca de 70 genes contados até 2020, está em curso [a8]. As contagens variam conforme os dados e os métodos usados.

Importação de proteínas: o que se sabe e o que falta

Mais de 400 proteínas são candidatas à importação [a10], em duas classes por tamanho [a11]. As longas levam um peptídeo de trânsito em duas partes [a13]. A estrutura da parte 2 foi resolvida em 2025 e sugere importação de proteínas dobradas, mas a função dessa parte segue em aberto [a13]. Também faltam transportadores nucleares na membrana interna, o que sugere um mecanismo diferente do de plastídios típicos [a14].

Quando surgiu, e com que incerteza

Não há fósseis, então a idade vem de relógios moleculares: entre cerca de 90 e 140 milhões de anos como data máxima [a2], e cerca de 124 milhões de anos para P. micropora [a3]. Uma estimativa antiga de idade mínima de 60 milhões de anos vinha de outro método [a2]. A data de cerca de 100 milhões de anos do título é um valor intermediário aproximado, não uma medida [a1].

Como sabemos

Mecanismos e números vêm de artigos abertos lidos na íntegra; datas são estimativas e a importação de proteínas segue em estudo.

Em debate: Segundo a revisão de 2012 (f1), o critério aceito é a existência de importação de proteínas do núcleo; a redução do genoma sozinha não decide, pois é comparável à de simbiontes de pulgões que não são considerados organelas. A data de origem também varia entre cerca de 90 e 140 milhões de anos conforme a calibração do relógio molecular.

Fontes

  1. BMC Biology — Evolving a photosynthetic organelle
    Nakayama, T.; Archibald, J. M. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/1741-7007-10-35
  2. Journal of Phycology — Paulinella, a model for understanding plastid primary endosymbiosis
    Gabr, A.; Grossman, A. R.; Bhattacharya, D. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/jpy.13003
  3. Frontiers in Microbiology — The Puzzle of Metabolite Exchange and Identification of Putative Octotrico Peptide Repeat Expression Regulators in the Nascent Photosynthetic Organelles of Paulinella chromatophora
    Oberleitner, L.; Poschmann, G.; Macorano, L.; Schott-Verdugo, S.; Gohlke, H.; Stühler, K.; Nowack, E. C. M. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2020.607182
  4. PLoS Currents — How Really Ancient Is Paulinella Chromatophora?
    Delaye, L.; Valadez-Cano, C.; Pérez-Zamorano, B. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/currents.tol.e68a099364bb1a1e129a17b4e06b0c6b
  5. Plant Physiology — The Paulinella chromatophore transit peptide part2 adopts a structural fold similar to the γ-glutamyl-cyclotransferase fold
    Klimenko, V.; Reiners, J.; Applegate, V.; Reimann, K.; Popowicz, G.; Hoeppner, A.; Papadopoulos, A.; Smits, S. H. J.; Nowack, E. C. M. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/plphys/kiaf504
  6. Molecular Biology and Evolution — Amoeba Genome Reveals Dominant Host Contribution to Plastid Endosymbiosis
    Lhee, D.; Lee, J.; Ettahi, K.; et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/molbev/msaa206
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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