Grandes descobertas

Da levedura viva à enzima: Pasteur, Buchner e a descoberta de que a fermentação ocorre fora da célula

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Pasteur mostrou, em experimentos que se estenderam por cerca de uma década, que sem levedura viva não há fermentação. Em 1897, Eduard Buchner moeu levedura, prensou o conteúdo das células e viu o suco, com açúcar, produzir gás carbônico e álcool. Ele atribuiu o efeito a uma enzima, a zimase, e não à vida da célula. O Nobel de Química de 1907 reconheceu essa "fermentação sem células".

Fermentação alcoólica é a transformação do açúcar em álcool etílico e gás carbônico. No século XIX, discutia-se se isso era um ato da levedura viva ou uma reação química comum. Vitalismo é a ideia de que os processos dos seres vivos exigem uma "força vital". Enzimas são substâncias químicas produzidas pelas células que aceleram reações; a diastase, a pepsina e a invertase já eram conhecidas, mas ninguém conseguira separar da levedura uma enzima da fermentação. Pasteur firmou que a levedura viva era necessária. Buchner rompeu as células, prensou o conteúdo e mostrou que a reação continuava no suco.

Moer levedura já tinha sido tentado

Em 1846, Lüdersdorff esmagou levedura num vidro fosco, levou uma hora para 1 g e, ao juntar glicose, não viu uma bolha. O vitalismo pareceu confirmado. Com areia e diatomita, Buchner moeu a levedura em poucos minutos.

Por que a levedura viva foi rejeitada

Quando se defendeu, nos anos 1830, que a levedura era formada por células vivas, os grandes químicos reagiram com desprezo. Berzelius a chamou de ficção científico-poética e supôs que ela agia como catalisador, por simples contato. Liebig e Wöhler publicaram uma sátira em que os "infusórios" engoliam açúcar e expeliam álcool. Buchner vê a atitude como compreensível: Wöhler sintetizara a ureia em 1828, sem "força vital", e a química parecia dispensar a vida.

Pasteur: a levedura viva é necessária, o mecanismo fica em aberto

Segundo Buchner, os experimentos de Pasteur, ao longo de uma década, firmaram que sem levedura viva não há fermentação. Mas Pasteur admitia estar "completamente no escuro" sobre a causa íntima da decomposição do açúcar. A hipótese de uma enzima da fermentação, defendida por Traube desde 1858, esbarrava em um fato: ninguém conseguia separá-la das células. A falta de prova virou argumento a favor dos vitalistas.

Como sabemos: o suco que fermenta e os controles de Buchner

Buchner rompeu as células de levedura, prensou o conteúdo e juntou açúcar ao suco. Para mostrar que a ação não vinha de células vivas, mostrou que o número delas era pequeno demais, que o suco filtrado em velas de porcelana continuava ativo, que o tolueno barrava a levedura viva e não o suco, e que levedura morta e seca ainda fermentava. Limite: o relato é do próprio autor, numa palestra, e ele escreve que o agente "parece" ser uma enzima.

O que o resultado não resolveu

Em 1907, o próprio Buchner dizia estar longe de entender a fermentação alcoólica e a natureza da zimase, que não conseguira separar das proteínas do suco. A revisão de 2020 resume a descoberta de 1897 como o golpe final no vitalismo, mas lembra que a disputa entre Pasteur e Liebig é mais bem lida como desacordo sobre o papel causal da levedura viva do que como "vida contra química".

Como sabemos

Os experimentos e as conclusões vêm do relato do próprio Buchner e das páginas do Nobel, sem leitura dos artigos originais de 1897 nem das obras de Pasteur.

Em debate:

Fontes

  1. Nobel Foundation / NobelPrize.org — Cell-free fermentation (Nobel Lecture, 11 de dezembro de 1907)
    Buchner, E. · 1907 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  2. Nobel Prize Outreach / NobelPrize.org — Eduard Buchner - Facts (Nobel Prize in Chemistry 1907)
    Nobel Prize Outreach · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Nobel Foundation / NobelPrize.org — Eduard Buchner - Biographical
    Nobel Foundation · 1966 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  4. ChemCatChem (Wiley Open Access, PMC) — Looking Back: A Short History of the Discovery of Enzymes and How They Became Powerful Chemical Tools
    Heckmann, C. M.; Paradisi, F. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1002/cctc.202001107
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos