Ciências da Terra

Paraná-Etendeka: o derrame de lava do início do Cretáceo que ligava o sul do Brasil à Namíbia

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

A Paraná-Etendeka é uma província magmática: uma região onde enormes volumes de lava, em grande parte basalto, chegaram à superfície no início do Cretáceo. Hoje ela está dividida pelo Atlântico Sul. O campo do Paraná cobre ao menos 1,2 milhão de km² no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Argentina; o Etendeka está na Namíbia. O volume preservado passa de 1 milhão de km³. As idades 40Ar/39Ar se concentram entre 129 e 134 milhões de anos, mas a duração do evento é disputada.

Uma província magmática (grande província ígnea, ou LIP em inglês) é uma região onde volumes enormes de magma chegaram à superfície em tempo geologicamente curto. O basalto de platô é uma lava fluida que se espalha em derrames sucessivos e forma planaltos, não cones. "Ma" quer dizer milhões de anos atrás. No Paraná, os derrames cobriram um deserto de dunas, o arenito da Formação Botucatu. A datação por 40Ar/39Ar estima quando a lava cristalizou a partir de isótopos de argônio. A Paraná-Etendeka é parte da quebra de Gondwana: quando o Atlântico Sul se abriu, o que era um só campo de lavas ficou em dois continentes.

Lava sobre dunas

Os derrames do Paraná correram sobre um deserto de dunas e, durante as erupções, o clima seguiu árido. Camadas de arenito eólico de até 160 m aparecem intercaladas entre as lavas, marcando fases em que as dunas voltaram a avançar sobre o terreno.

O que sobrou do derrame, e onde

O campo do Paraná cobre ao menos 1,2 milhão de km² no sul do Brasil, no Uruguai, no leste do Paraguai e no norte da Argentina, e seu limite atual acompanha a borda da bacia sedimentar do Paraná. O acúmulo mais espesso preservado, de 1,5 a 1,7 km, fica no norte; a média é estimada em cerca de 0,7 km. No Brasil, essas lavas formam a Formação Serra Geral, bem exposta na escarpa de mesmo nome. O Etendeka, na Namíbia, é o fragmento do outro lado do oceano. São números de uma revisão de 1997, mínimos e aproximados.

Como sabemos a idade: do K-Ar ao 40Ar/39Ar, e uma disputa que continua

Mais de 200 idades por K-Ar (potássio-argônio) deram de cerca de 400 a menos de 100 Ma, sinal de que argônio entrou ou saiu da rocha depois que ela se formou. Os esforços de datação se concentraram então no 40Ar/39Ar, que usa isótopos de argônio da mesma amostra. Mesmo assim, a duração do evento varia conforme o estudo e a área amostrada: menos de 1 milhão de anos, cerca de 3 ou cerca de 10. Trabalhos recentes citam um pulso de até 1,2 milhão de anos por volta de 135 Ma, e outro, um início em cerca de 145 Ma.

A relação com a abertura do Atlântico: o derrame vem antes da separação final

O derrame é um episódio vizinho da abertura do oceano, não o seu primeiro passo. O fundo oceânico começou a se formar a mais de 2.000 km ao sul da província, e a expansão avançou para o norte. A pluma de Tristan, cujo rastro seria a cadeia de Walvis, aparece ora como gatilho, ora como agente quase passivo, ora dispensável como cabeça inicial, conforme o estudo. A sequência das fases do rifte está no post sobre a abertura do Atlântico Sul; aqui o ponto é que as idades da lava e as do oceano se sobrepõem em parte, e a causa segue em aberto.

O que a lava pode ter feito ao clima, e o que ainda não se sabe

Mercúrio enriquecido em sedimentos europeus do Valanginiano foi lido como sinal de emissões vulcânicas, e os autores apontam a Paraná–Etendeka como a candidata mais provável. Outro estudo, sobre microfósseis nas rochas da própria província no Brasil, chama a correlação com o evento Weissert de incerta. Uma revisão de 1997 anotou que os basaltos são mais novos que a maioria das estimativas para o limite Jurássico–Cretáceo, o que descartaria ligação com uma extinção de fauna. É o contrário da CAMP, no fim do Triássico, em que a ligação com a extinção é o argumento central.

Como sabemos

Extensão e volume vêm de uma revisão de 1997, mínimos e antigos; as idades e a duração divergem entre estudos, e a relação com o clima e com a pluma é hipótese.

Em debate: Duração e início do magmatismo

Em debate: Papel da pluma de Tristan

Fontes

  1. American Geophysical Union (Geophysical Monograph 100, Large Igneous Provinces) — The Parana-Etendeka Province
    Peate, D. W. · 1997 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/GM100p0217
  2. Scientific Reports — Ignition of the southern Atlantic seafloor spreading machine without hot-mantle booster
    Sauter, D.; Manatschal, G.; Kusznir, N.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-28364-y
  3. Scientific Reports — Mercury enrichment indicates volcanic triggering of Valanginian environmental change
    Charbonnier, G.; Morales, C.; Duchamp-Alphonse, S.; Westermann, S.; Adatte, T.; Föllmi, K. B. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/srep40808
  4. Scientific Reports — Organic walled microfossils in wet peperites from the early Cretaceous Paraná-Etendeka volcanism of Brazil
    Del Mouro, L.; Becker-Kerber, B.; Janasi, V. A.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-42483-6
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Causes and consequences of asymmetric lateral plume flow during South Atlantic rifting
    Morgan, J. P.; Taramón, J. M.; Araujo, M.; et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2012246117
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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