Grandes descobertas

O persa Nasir al-Din al-Tusi criou nos anos 1240 o recurso geométrico que Copérnico usaria quase 300 anos depois

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Dois círculos girando, um dentro do outro, o menor com metade do raio do maior. Um ponto do círculo menor não descreve curva: vai e vem em linha reta. Nasir al-Din al-Tusi apresentou esse recurso em 1245, num tratado em persa, para consertar os modelos de Ptolomeu sem abandonar o movimento circular uniforme. Hoje ele se chama par de Tusi. Em 1543, o mesmo recurso aparece, com prova geométrica, no De revolutionibus de Copérnico.

A astronomia herdada de Ptolomeu previa bem o céu, mas violava a própria física: alguns movimentos dos seus modelos não eram uniformes em torno do centro do círculo que os produzia. Tusi listou 16 dessas dificuldades. Para a Lua, prometeu em 1235 uma solução 'elegante' e só a publicou cerca de dez anos depois, num apêndice terminado em outubro de 1245, na cidade de Tun, quando servia aos governantes ismaelitas do Quhistan. A versão final, com demonstração, veio em 1261 na Tadhkira, escrita em árabe quando ele dirigia o observatório de Maragha, erguido a partir de 1259 com patrocínio do mongol Hulagu. Ali o recurso ganhou também uma versão curva, usada para a latitude dos planetas. Se Copérnico o recebeu dessa tradição ou o reinventou é uma discussão que continua entre historiadores da ciência.

A pista bizantina

Por volta de 1300, o grego Gregório Quioniades levou a Constantinopla astronomia aprendida com mestres persas. Seu tratado reproduz o modelo da Lua com o par de Tusi e até um erro numérico do apêndice de 1245. Uma das cópias, o Vat. gr. 211, com diagramas muito parecidos com os de Tusi, já estava na Biblioteca do Vaticano em 1475.

O problema de Ptolomeu

No Almagesto, do século II, Ptolomeu previa bem as posições dos planetas, mas alguns movimentos dos seus modelos não eram uniformes em torno do centro do círculo que os produzia. Para a física aceita na época, o céu era feito de esferas que giravam de modo uniforme. Desde Ibn al-Haytham, no século XI, astrônomos do mundo islâmico apontavam essa contradição. Tusi listou 16 dificuldades e procurou modelos que conservassem os resultados de Ptolomeu usando apenas rotações uniformes.

Como o par funciona

Na versão retilínea, um círculo menor, com metade do raio, fica tangente por dentro a um círculo maior, e os dois giram de modo uniforme. Somados, os dois movimentos circulares fazem um ponto do círculo menor oscilar em linha reta. Com isso Tusi podia fazer a distância de um corpo celeste variar usando só rotações uniformes, no lugar do ponto excêntrico de Ptolomeu. Na Tadhkira, de 1261, ele criou também uma versão com esferas, que produz oscilação ao longo de um arco, usada para a latitude dos planetas.

De Tun a Maragha

Tusi anunciou a ideia em 1235, mas só a publicou num apêndice terminado em outubro de 1245, em Tun, sob patronos ismaelitas. A data veio de um colofão num manuscrito de Tashkent, publicado por F. Jamil Ragep em 2020. Depois que os mongóis tomaram Alamut, em 1256, Tusi passou ao serviço de Hulagu, que financiou a partir de 1259 o observatório de Maragha. Lá ele reuniu astrônomos e engenheiros, produziu as Tábuas Ilkhânicas e escreveu a Tadhkira, a forma final dos seus modelos.

O debate sobre Copérnico

Copérnico usa o recurso no Commentariolus, de cerca de 1514, e o demonstra no De revolutionibus, de 1543. Willy Hartner notou que até as letras dos diagramas coincidem. Há um caminho parcial documentado: um texto grego de c. 1300 com o modelo lunar de Tusi e cópias na Itália no século XV. Mas nenhum documento mostra o que Copérnico leu. Saliba, Ragep e Swerdlow veem transmissão muito provável; di Bono e Goddu propuseram descoberta independente ou outra via. Fora de debate está a cronologia: Tusi chegou ao recurso quase três séculos antes.

Como sabemos

Cronologia e conteúdo técnico vêm de dois trabalhos de F. Jamil Ragep (McGill), do verbete de George Saliba na Encyclopaedia Iranica e da MacTutor; a transmissão a Copérnico está marcada como controversa.

Em debate: Transmissão a Copérnico. Para George Saliba, F. Jamil Ragep, Noel Swerdlow, E. S. Kennedy e Willy Hartner, a semelhança entre os modelos (até nas letras dos diagramas) torna a transmissão muito provável, e há um caminho parcial documentado: o texto grego de Quioniades e manuscritos dele na Itália no século XV. Mas não se conhece o texto que Copérnico teria lido. Veselovsky sugeriu Proclo; Mario di Bono defendeu reflexão independente; André Goddu apontou Nicolau Oresme. Neugebauer chegou a escrever que, diante da lógica matemática dos métodos, a questão de contato ou descoberta independente era secundária.

Em debate: Data da primeira apresentação. Saliba (Encyclopaedia Iranica, 2009) situava a forma rudimentar na recensão do Almagesto de 1247; Ragep datou o Hall-i mushkilat-i Mu'iniyya de outubro de 1245 por um colofão de Tashkent e o põe antes. Por isso o título fala em 'anos 1240'.

Fontes

  1. Institute for the Study of the Ancient World, Universidade de Nova York (repositório) — The origins of the Ṭūsī-couple revisited (em Instruments – Observations – Theories: Studies in the History of Astronomy in Honor of James Evans, ed. A. Jones e C. Carman, 2020, pp. 229–237)
    consultada em 05/10/2026
  2. Max Planck Institute for the History of Science — From Tūn to Turun: The Twists and Turns of the Ṭūsī-Couple (Preprint 457)
    consultada em 05/10/2026
  3. Encyclopaedia Iranica — Ṭusi, Naṣir-al-Din ii. As mathematician and astronomer
    consultada em 05/10/2026
  4. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Nasir al-Din al-Tusi
    consultada em 05/10/2026
  5. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Nicolaus Copernicus
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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