Zoologia

O papagaio-cinzento Alex: que conceitos Pepperberg relatou, e por que os dados pedem cautela

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Alex, um papagaio-cinzento (Psittacus erithacus) treinado por Irene Pepperberg, respondia em inglês a perguntas sobre cor, forma, igual e diferente, quantificava conjuntos de até oito itens e usava a palavra “none” diante de conjuntos vazios. Mas papagaios eram tidos como meros imitadores, o argumento de Macphail (1987) reservava a linguagem aos humanos, e os dados lidos vêm de um único animal, relatados pela própria equipe.

Alex foi treinado a dizer o nome de objetos, cores e formas e a responder a perguntas faladas. Em vez de apertar teclas, ele respondia com a voz, o que permite perguntar direto o que se quer saber (“What color?”, “What’s same?”). A técnica usada, chamada modelo/rival (M/R), põe dois humanos para conversar na frente da ave, um fazendo o papel de modelo da resposta e outro de rival pela atenção do treinador. Os conceitos relatados são relacionais: igual e diferente, maior e menor, quantidade exata. A palavra “none” (nenhum) aparecia como resposta ao vazio. As críticas dizem respeito a três pontos: se palavras faladas por uma ave contam como referência ou só como associação, se a capacidade de uma ave serve de regra, e quanto da evidência foi produzida e relatada pela mesma equipe.

De onde vem o nome

“Alex” é uma sigla em inglês, de Avian Learning EXperiment (experimento de aprendizagem de aves), segundo uma revisão sobre cognição de papagaios. O nome do projeto virou o nome do papagaio.

Como sabemos: perguntar em voz alta

A ideia de Pepperberg foi usar a voz do papagaio como canal de resposta. Em vez de treinar a ave por centenas de tentativas a bicar uma tecla, a equipe fazia perguntas faladas, e Alex respondia com palavras. Isso torna o conteúdo da pergunta explícito e permite comparar com humanos, mas troca um problema por outro: a resposta depende de a ave ter aprendido a produzir os sons, e a avaliação passa pelo ouvido do experimentador. A autora diz ter mantido controles rigorosos, cujos detalhes ficam em publicações que não abrimos.

O que Alex fez nos testes

Segundo as revisões de Pepperberg, Alex nomeava objetos, cores e formas, respondia qual atributo era igual ou diferente entre dois objetos, transferia a regra de maior e menor a conjuntos novos, nomeava quantidades exatas até seis (e, em um estudo posterior, sete e oito) e somava conjuntos escondidos em copos. Também usava “none” para a ausência de itens. Os acertos giravam em torno de 80% a 90% nas tarefas descritas, com erros reais, inclusive de troca de palavra.

Associação, referência e a objeção da linguagem

A objeção mais discutida é conceitual. Um nome pode ser só uma associação entre som e recompensa; ou pode funcionar como símbolo de uma coisa ou de um conceito. Pepperberg diz que a distinção é difícil e que Alex não tinha linguagem humana plena, mas que seu uso de símbolos teria permitido resultados que outros não humanos sem símbolos não mostraram. Macphail (1987), segundo ela, restringia o sucesso desse tipo à linguagem humana plena. Cânone de Morgan e Clever Hans, em outros textos do WikiMundi, mostram o cuidado com leituras generosas.

O que não permite concluir

Os números de maior destaque vêm de um só animal, estudado por uma só equipe, e os relatos que lemos são da própria autora. Uma reanálise independente de uma tabela de 2002 mostra precisão entre 66,7% e 90,3% e erros por associação de ideias ou de som, em ambiente de laboratório. Não encontramos nas fontes abertas lidas replicação independente dos testes numéricos de Alex. O conjunto sustenta que a ave aprendeu a responder a perguntas variadas; que isso equivalha a conceito, como em crianças, segue em disputa.

Como sabemos

Os resultados sobre Alex foram lidos nas revisões da própria Pepperberg e numa reanálise independente; faltam os estudos originais e o texto de uma crítica independente.

Em debate: A discussão é se os nomes que Alex dizia funcionavam como símbolos que designam coisas e conceitos ou como associações aprendidas entre sons e recompensas. Pepperberg defende a primeira leitura e afirma que não era linguagem humana plena; entre as fontes lidas, a objeção aparece sobretudo como ela a descreve (Macphail), sem texto crítico independente sobre Alex.

Fontes

  1. Animals (MDPI) — A Review of the Model/Rival (M/R) Technique for Training Interspecies Communication and Its Use in Behavioral Research
    Pepperberg, I. M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/ani11092479
  2. Frontiers in Psychology — The Comparative Psychology of Intelligence: Some Thirty Years Later
    Pepperberg, I. M. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2020.00973
  3. Frontiers in Psychology — Nonhuman and Nonhuman-Human Communication: Some Issues and Questions
    Pepperberg, I. M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2021.647841
  4. Cognitive Science — From Human Child to Grey Parrot: Exploring a Common Model of Word Meaning Extension Across Species
    Fishkin, M.; Chang, S.; Xu, Y. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/cogs.70129
  5. Animal Cognition — Recent developments in parrot cognition: a quadrennial update
    Rössler, T.; Auersperg, A. M. I. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10071-022-01733-2
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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