Evolução

Papa-méis havaianos: de um só ancestral a mais de 60 espécies, em um surto ligado à formação de Oʻahu

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Mais de 60 espécies de papa-méis havaianos descendem de um único ancestral, parecido com um carpodaco (tentilhão-rosado), que colonizou o Havaí há cerca de 5 a 6 milhões de anos. A maior parte das linhagens distintas surgiu depois que Oʻahu emergiu, em um surto de cerca de 1 milhão de anos, entre 2,5 e 3,5 milhões de anos atrás, quando as aves se espalharam pelas ilhas e houve troca de genes entre linhagens.

Uma irradiação adaptativa ocorre quando uma linhagem se divide em muitas espécies adaptadas a modos de vida diferentes. Os papa-méis (tribo Drepanidini) são um exemplo clássico: vivem em um arquipélago vulcânico isolado, e as ilhas surgiram uma após a outra, de Kauaʻi, a mais antiga, até a ilha do Havaí. Os ancestrais chegaram uma vez só. Daí saíram aves que comem néctar, frutos, sementes ou insetos, com bicos muito diferentes. Hoje há 17 táxons vivos, e a maior parte das espécies conhecidas já se extinguiu, o que complica reconstruir a história: parte das linhagens só pode ser estudada por DNA degradado de peles de museu e ossos.

Uma árvore difícil de desenhar

Em 2026, genomas de museu mostraram que os mamo, antes agrupados com as aves vermelhas e pretas, formam um clado extinto sem parentes vivos próximos. A base da árvore segue mal resolvida: ramos surgiram rápido e trocaram genes.

Como sabemos quando e de onde vieram

A datação usa DNA de espécies vivas e peles de museu. Os pesquisadores comparam 13 locos nucleares e genomas mitocondriais e convertem diferenças em tempo usando a idade geológica das ilhas como calibração. Assim, a origem asiática vem do parentesco com os carpodacos (Carpodacus) e a data de 5,7 milhões de anos, da idade de Kauaʻi e Niʻihau. O limite é que o método depende da calibração: se a idade das ilhas mudar, as datas mudam junto.

O surto depois de Oʻahu e o papel do isolamento

Em 2011, a maior parte das linhagens com formas distintas aparecia entre a emergência de Oʻahu e a de Maui. O estudo de 2026, com espécies extintas, vê 10 a 11 divergências por milhão de anos entre 2,5 e 3,5 milhões de anos atrás. O cenário proposto é de ida e volta entre Kauaʻi e Oʻahu, com diferenciação em isolamento. As datas coincidem com a geologia, mas coincidência não prova mecanismo.

Bicos, línguas e o que a árvore corrige

As espécies se dividem em dietas de néctar, insetos, frutos e sementes. O bico grosso de papagaio aparece no ʻōʻū, no kiwikiu e no extinto bico-de-gancho de Lānaʻi, mas na árvore o kiwikiu fica em outro ramo. Isso sugere, em leitura nossa e não conclusão dos autores, que bicos parecidos possam ter surgido mais de uma vez. O estudo de 2026 também sugere que a língua tubular pode ter surgido ou se perdido várias vezes.

Genes trocados, extinções e uma árvore incompleta

Os dados indicam troca de genes (introgressão) entre linhagens, o que ajuda a explicar por que a ordem dos ramos é tão difícil de fixar. Além disso, cerca de dois terços das espécies conhecidas já desapareceram, e algumas linhagens extintas não têm parentes vivos próximos. Entre as causas do declínio, a malária aviária é uma delas; o tema geral das invasoras é tratado em outro post, e este aqui fica na origem da diversidade.

Como sabemos

O quadro geral (ancestral único, surto após Oʻahu) tem boa sustentação em dois estudos; o estudo de 2026 é recente e os detalhes da árvore e do mecanismo seguem em discussão.

Em debate:

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences — Reticulated adaptive radiation and phylogenomic diversity loss in the Hawaiian honeycreepers
    Przelomska, N. A. S. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2536533123
  2. Current Biology — Multilocus resolution of phylogeny and timescale in the extant adaptive radiation of Hawaiian honeycreepers
    Lerner, H. R. L. et al. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2011.09.039
  3. Biology Letters (The Royal Society) — Population structure and inter-species admixture within a likely extinct yet formerly widespread Hawaiian honeycreeper, the ʻōʻū
    Przelomska, N. A. S. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2025.0265
  4. PLOS ONE — Modeling future conservation of Hawaiian honeycreepers by mosquito management and translocation of disease-tolerant Amakihi
    Samuel, M. D. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0049594
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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