Química

Por que o pão cresce: a levedura produz CO2 e o glúten ajuda a massa a reter o gás

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

O pão cresce porque a levedura, ao consumir carboidratos da farinha, produz CO2 e álcool, e o gás se acumula em células dentro da massa. A capacidade da massa de reter esse gás está fortemente ligada ao glúten, a mistura de gliadinas e gluteninas do trigo, o que evita que as células de gás se fundam. No forno, a expansão térmica do gás aprisionado também contribui para o aumento de volume.

A levedura de padaria usa os carboidratos da farinha como alimento e libera CO2 e álcool (etanol). O CO2 se dissolve na massa e passa para células de gás aprisionadas nela, que então crescem. Gás só fica retido se a massa for elástica e resistente: é o papel do glúten, a mistura de proteínas gliadinas e gluteninas que se forma quando a farinha é hidratada e trabalhada. As gluteninas se ligam em estruturas de filamentos; atribui-se às gliadinas a extensibilidade. Em volta de cada célula de gás fica uma película fina de massa, a lamela, que se estica enquanto a célula cresce. Quando ela cede, células se fundem e o gás escapa. O assunto da levedura em si já foi tratado em outros posts.

Pão sem glúten também cresce

O amido de mandioca azedo, que no Brasil se conhece como polvilho azedo, é feito por fermentação espontânea e secagem ao sol. Segundo um estudo de 2026, ele permite fazer pão sem glúten e sem agente de fermentação, pela expansão do próprio amido no forno.

O que é o glúten e como a massa o forma

O glúten é uma mistura de duas famílias de proteínas do trigo, as gluteninas e as gliadinas. Segundo uma revisão de 2026, as gluteninas hidratadas se ligam por reações de troca de grupos sulfidrila e dissulfeto e se organizam em estruturas de filamentos. Tradicionalmente, atribui-se às gliadinas a elasticidade e a extensibilidade da massa e às gluteninas a resistência à tração.

Onde o gás fica: células e lamelas

O CO2 da levedura aparece primeiro dissolvido na parte líquida da massa; passado o limite de solubilidade, passa para células de gás já aprisionadas. À medida que elas crescem, a massa em volta forma lamelas, películas finas esticadas em duas direções. Estudos de reologia ligam a boa retenção de gás ao glúten e a seu endurecimento sob esticamento. Supõe-se que as lamelas sejam feitas sobretudo de filamentos de glúten, mas isso é hipótese dos autores.

No forno: expansão e limite

No assado, a expansão térmica do gás aprisionado contribui cada vez mais para esticar a massa. Ao mesmo tempo, o calor faz o glúten se polimerizar, e acima de 70 °C a massa passa a endurecer mais ao ser esticada. Quando a rede ultrapassa sua capacidade máxima de reter gás, ela se degrada. Em ensaios com massa de levedura, a capacidade de subir no forno ficou limitada já por volta de 60 °C. O resultado vale para as condições do experimento.

Como sabemos: medir o que a massa suporta

Os grupos de pesquisa estudam a massa por reologia, que mede como ela se deforma sob força. Um estudo comparou massa com levedura e sem levedura e, para separar o efeito do gás do dos outros produtos da fermentação, pôs etanol, ácido succínico e CO2 em massas sem levedura em quantidades como as encontradas na fermentação. O CO2, que expande a massa em células de gás, teve o efeito mais forte. Os ensaios são de laboratório e não medem uma fornada inteira.

Como sabemos

A explicação geral (gás da levedura retido por massa elástica com glúten) tem apoio em revisões e estudos de reologia, mas a composição das lamelas e a ruptura no forno são hipóteses dos autores.

Fontes

  1. Microorganisms — Exploiting the Native Microorganisms from Different Food Matrices to Formulate Starter Cultures for Sourdough Bread Production
    Hernández-Parada, N. et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/microorganisms11010109
  2. Polymers — The Self-Enforcing Starch–Gluten System—Strain–Dependent Effects of Yeast Metabolites on the Polymeric Matrix
    Alpers, T.; Tauscher, V.; Steglich, T.; Becker, T.; Jekle, M. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/polym13010030
  3. PLOS ONE — Strain-dependent assessment of dough’s polymer structure and functionality during the baking process
    Alpers, T.; Becker, T.; Jekle, M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0282670
  4. Biomolecules — Key Methodologies in Characterizing the Multi-Scale Structures of Gluten Proteins in Dough: A Comparative Review
    Su, F. et al. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/biom16030382
  5. Foods — Alpha-Amylase-Modified Cassava Starch in the Presence of Calcium Lactate as a Sour Starch Substitute for Gluten-Free Breadmaking
    Abad-Quevedo, V.; Correa, M. J.; Cornejo, F.; Maldonado-Alvarado, P. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/foods15173013
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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