Ecologia

Pantanal em chamas: o que explica o fogo de 2020 e o que ele fez com a fauna

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Em 2020 queimaram cerca de 39 mil km² do Pantanal brasileiro, mais que o dobro da área de 2019. Os estudos apontam a soma de uma seca excepcional, com chuva cerca de 40% abaixo da média, de vegetação acumulada em anos chuvosos e de fogo de origem humana. Estima-se que as chamas mataram de imediato ao menos 17 milhões de vertebrados.

O Pantanal é uma planície alagável: a cheia anual fertiliza o solo e sustenta muita vegetação, que seca na estação de estiagem e vira combustível. Em geral a água funciona como barreira e o fogo é limitado. Em 2020 a barreira falhou. Houve uma seca de vários anos, de intensidade sem precedente nos dados analisados, depois de um período chuvoso que tinha engordado a biomassa. Pesquisadores combinaram imagens de satélite, modelos de umidade do solo e levantamentos de campo para separar o papel do clima, da vegetação acumulada e da ação humana, e para contar os animais mortos. Este texto trata das causas físicas e dos efeitos documentados; a política de combate ao fogo fica de fora.

O fogo correu por baixo do chão

Segundo uma das análises, o fogo se espalhou por baixo da superfície do solo e atravessou áreas que normalmente ficam alagadas ou perto da água, onde ele costuma parar.

Seca, vegetação acumulada e fogo: três ingredientes

As análises apontam três fatores. Primeiro, a seca: a chuva de 2020 ficou cerca de 40% abaixo da média e a umidade do solo foi anormalmente baixa em grande parte da planície. Segundo, o combustível: anos chuvosos como 2018 aumentaram a vegetação, que secou em 2019 e 2020. Terceiro, a ignição: o fogo de origem humana, que na seca escapou para áreas naturais. Os trabalhos lidos não dizem qual fração das queimadas teve cada causa.

Como sabemos que foi tão grande

A área queimada vem de satélites, que detectam cicatrizes de fogo na vegetação. Já os animais mortos exigiram trabalho de campo. A equipe percorreu 126 linhas ao longo do Pantanal e anotou cada carcaça vista, e um modelo estatístico (amostragem por distância) corrigiu o fato de que animais mais longe da linha são menos vistos. O resultado tem margem de erro grande e é um piso, porque tocas e cinzas escondem corpos.

Onças, câmeras e o que ainda não se sabe

A onça-pintada ilustra a escala: o fogo alcançou áreas com 45% da população estimada. Isso mede exposição, não mortes. Em um monitoramento por câmeras na Serra do Amolar, o fogo não alterou a ocupação das áreas, mas 64% das espécies perderam abundância relativa até 2022. Se a causa foi o fogo, a perda de abrigo ou outro fator é uma pergunta que esses dados não resolvem, e efeitos de longo prazo seguem em aberto.

Vegetação e água depois do fogo

Modelos baseados em satélite indicam que a produtividade da vegetação ficou muito abaixo do normal em mais de 30% das áreas naturais e de conservação. Nessas áreas, a evaporação caiu cerca de 9% e o escoamento subiu cerca de 5%, em comparação com as áreas mais manejadas. São resultados de modelo, não medições diretas, e mostram como o fogo muda o balanço de água e pode influenciar a recuperação e o risco de novos incêndios.

Como sabemos

Os números centrais vêm de estudos revisados em acesso aberto, mas a divisão entre causas de ignição e os efeitos de longo prazo na fauna ainda são pouco medidos.

Fontes

  1. Scientific Reports — Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020's wildfires in the Pantanal, Brazil
    Tomas, W. M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-02844-5
  2. Communications Biology — Wildfires disproportionately affected jaguars in the Pantanal
    de Barros, A. E. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s42003-022-03937-1
  3. Scientific Reports — Changes in land use enhance the sensitivity of tropical ecosystems to fire-climate extremes
    Kumar, S.; Getirana, A.; Libonati, R. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-05130-0
  4. Scientific Reports — Dynamics of major environmental disasters involving fire in the Brazilian Pantanal
    Pelissari, T. D.; Teodoro, P. E.; Teodoro, L. P. R. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-49154-6
  5. Ecology and Evolution — Living in the Pyrocene: Assemblage-Wide Terrestrial Vertebrate Responses to Mega-Fires in the Pantanal Wetlands
    Loureiro, N. G.; Viana, D. F. P.; Noble, C. D. et al. · 2026 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/ece3.74130
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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