Astronomia

Panspermia: o que os testes em órbita mostram sobre micróbios no espaço e o que segue como hipótese

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Fora da Estação Espacial Internacional, aglomerados secos de Deinococcus radiodurans com 0,5 mm ou mais ficaram vivos após 3 anos; os de 0,1 mm quase não resistiram. A camada externa, morta pelo ultravioleta, protege as células de dentro. Isso mostra que micróbios podem durar anos em órbita baixa, não que a vida tenha viajado entre planetas: ejeção, trajeto e pouso continuam hipóteses, sem teste completo.

Panspermia é a hipótese de que formas microscópicas de vida podem ser levadas pelo espaço de um planeta a outro. Na versão rochosa, a litopanspermia, os micróbios iriam dentro de fragmentos ejetados por impactos. Dá para testar uma etapa: as células aguentam o espaço? Para isso, pesquisadores expõem microrganismos do lado de fora da Estação Espacial Internacional (ISS), na órbita baixa da Terra, a cerca de 400 km de altitude, com vácuo, radiação e ultravioleta solar. O organismo-modelo é a bactéria Deinococcus radiodurans, muito resistente a radiação e ressecamento. O fator que mais limita a sobrevivência é o ultravioleta, por isso os testes variam a espessura da camada de células, que funciona como escudo.

O experimento que não chegou ao espaço profundo

O Phobos LIFE levaria 10 organismos de três domínios da vida numa cápsula de 34 meses fora da magnetosfera terrestre. A sonda russa Phobos-Grunt falhou logo após o lançamento, e esse teste nunca aconteceu.

Como o Tanpopo testou a ideia

Células secas de Deinococcus foram postas em poços de 2 mm numa placa de alumínio, em quantidades diferentes, e fixadas fora do módulo japonês da ISS. Três painéis ficaram expostos por 1, 2 e 3 anos, o que deu uma curva de sobrevivência ao longo do tempo. Aglomerados de 500 μm ou mais estavam vivos no fim de 3 anos e repararam o dano ao DNA quando cultivados. Os de 100 μm quase não sobreviveram.

Por que a espessura importa

O ultravioleta mata as células da superfície do aglomerado, e essa camada morta protege as de baixo. Em D. radiodurans, 500 μm bastaram; em D. aerius, foi preciso 1.000 μm. Isso aponta o ultravioleta como o fator decisivo e explica por que células isoladas, sem escudo, não são o cenário testado. É uma interpretação dos autores, feita a partir da comparação entre espessuras.

Esporos, impacto e a missão que não voou

Em outro experimento, o EXPOSE-E, cerca de 8% dos esporos de Bacillus subtilis MW01 protegidos da luz solar sobreviveram a 559 dias na órbita baixa. Em laboratório, D. radiodurans manteve alta sobrevivência a até 3 GPa, pressão de impacto compatível com a ejeção de fragmentos de Marte. O Phobos LIFE, que levaria 10 organismos para fora da magnetosfera, não voou porque a sonda Phobos-Grunt falhou.

Onde a hipótese continua aberta

Cada teste cobre uma etapa isolada: a sobrevivência em órbita baixa, a pressão do impacto, o tempo de viagem. As próprias fontes lembram que falta combinar ejeção, trânsito e pouso, e que a maioria dos fragmentos leva milhões de anos para chegar, muito mais do que as estimativas de 2 a 8 anos de resistência em aglomerados. Por isso a panspermia segue como hipótese, e os testes mostram o que seria possível, não o que aconteceu.

Como sabemos

Os resultados experimentais são sólidos, mas a conclusão sobre viagem entre planetas é hipótese.

Fontes

  1. Frontiers in Microbiology — DNA Damage and Survival Time Course of Deinococcal Cell Pellets During 3 Years of Exposure to Outer Space
    Kawaguchi, Y. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2020.02050
  2. Microbiome — Molecular repertoire of Deinococcus radiodurans after 1 year of exposure outside the International Space Station within the Tanpopo mission
    Ott, E. et al. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/s40168-020-00927-5
  3. Astrobiology — Phobos LIFE (Living Interplanetary Flight Experiment)
    Betts, B. H. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1089/ast.2018.1904
  4. PNAS Nexus — Extremophile survives the transient pressures associated with impact-induced ejection from Mars
    Zhao, L. et al. · 2026 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/pnasnexus/pgag018
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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