Linguística

Caçula, moleque, quitanda e marimbondo vêm do quimbundo, uma língua banta de Angola

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Muitas palavras do português do Brasil que parecem não ter origem estrangeira vêm de línguas bantas. Os dicionários Aulete e Priberam registram o quimbundo, língua de Angola, como étimo de caçula (o último filho), moleque (de muleke, 'menino'), quitanda (de kitanda, 'feira') e marimbondo (de ma-, marca de plural, mais rimbondo, 'vespa'). Pelos mesmos dicionários, também vêm do quimbundo dendê, fubá, moqueca, xingar e quilombo.

Em 1983, a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, da Universidade Federal da Bahia, reuniu 1.950 empréstimos de origem banta e oeste-africana na fala da Bahia, de terreiros de candomblé à linguagem comum. Sua conclusão foi que a influência banta é a mais profunda e extensa no português do Brasil: são palavras tão integradas que o falante em geral não sabe dizer se são africanas, indígenas ou mesmo portuguesas, como jiló, dendê, fubá, tanga e bunda. Em alguns casos, a palavra banta tomou o lugar da portuguesa: caçula substituiu benjamim. A explicação histórica está no tráfico de pessoas escravizadas: no século XIX, Angola foi a principal origem dos africanos levados às Américas, sobretudo para o Brasil e Cuba, e o contato entre línguas africanas e o português no Brasil começou já no primeiro século da colonização.

Nem toda origem é certa

Samba, cafuné e cachimbo costumam ser apresentadas como palavras do quimbundo, mas os dicionários são cautelosos. O Aulete dá a samba apenas 'origem africana' e a cafuné 'origem incerta, possivelmente do quimbundo'. O Priberam registra a etimologia de cachimbo como duvidosa. Em etimologia, 'possivelmente' não é detalhe.

O que são línguas bantas

Banto não é uma língua, e sim um conjunto de línguas africanas do grande grupo nigero-congolês. Uma marca comum é a flexão por prefixos: em vez de mudar o fim da palavra, muda-se o começo. O próprio nome mostra isso: segundo o Priberam, vem de ba-, prefixo de plural, mais ntu, 'homem'. O quimbundo é uma língua banta de Angola; o umbundo também é falado em Angola; e quicongo designa um grupo de línguas bantas. Yeda Pessoa de Castro encontrou essas três como fontes predominantes da terminologia dos terreiros de nação angola e congo na Bahia, e o quimbundo é a origem que mais aparece nos verbetes consultados para este post.

Como as palavras chegaram

As palavras bantas chegaram ao Brasil com os africanos escravizados e trazidos à força. No século XIX, Angola foi a principal origem das pessoas traficadas para as Américas, sobretudo para o Brasil e Cuba, e muitas delas vinham do interior, de regiões que hoje pertencem a vários países da África Central. Segundo Yeda Pessoa de Castro, o contato entre as línguas africanas e o português no Brasil começou já no primeiro século da colonização e foi direto e permanente. Algumas palavras bantas passaram também ao português de Portugal, como moleque, carimbo e missanga. Outras ficaram sobretudo no Brasil, como caçamba, macumba e umbanda.

Do cotidiano à memória da escravidão

Parte do vocabulário banto do português registra a violência da escravidão e a resistência a ela. Senzala corresponde ao quimbundo san'zala, 'habitação'. Quilombo vem de kilombo, que o Priberam traduz como acampamento ou lugar de reunião, e mocambo, de mu'kamu, 'esconderijo'. Mucama vem do quimbundo mukama. Ao lado dessas, há as palavras da casa e da mesa, ditas sem que se pense na origem: caçula, moleque, fubá, dendê, moqueca, quitanda, jiló. Para Yeda Pessoa de Castro, essa integração tão completa é a prova de que a influência banta é a mais profunda e extensa entre as influências africanas no português do Brasil.

Quimbundo, quicongo ou umbundo?

Os dicionários costumam indicar uma língua específica, mas a atribuição nem sempre é simples. Línguas bantas aparentadas compartilham raízes, e uma mesma palavra pode existir, com pequenas variações, em várias delas. Por isso Yeda Pessoa de Castro prefere, em muitos casos, falar em 'banto em geral', e observa que palavras como candomblé, senzala, quilombo e missanga podem vir de uma área ampla ao sul do equador. Há casos atribuídos ao quicongo, como quindim, que o Aulete registra como provavelmente derivado de kénde. Nos terreiros de nação angola e congo da Bahia, a autora encontrou predominância de termos do quicongo, do quimbundo e do umbundo.

Quando o dicionário diz 'talvez'

Listas de 'palavras africanas' circulam com étimos que os dicionários não confirmam. Samba tem, no Aulete, só 'origem africana', e no Priberam aparece tanto como etimologia duvidosa quanto como possível derivado do quimbundo kusamba, 'saltitar'. Cafuné é 'possivelmente' do quimbundo; miçanga, 'talvez'. Cachimbo tem etimologia duvidosa. Corcunda é banta para Yeda Pessoa de Castro, mas de origem obscura para o Aulete. Minhoca aparece como banta em Nei Lopes e como controversa no Aulete. O Dicionário banto do Brasil de Lopes, de 1999, foi acusado de amadorismo na estreia e depois teve cerca de 250 propostas acolhidas pelo Houaiss. Em etimologia, a dúvida declarada também é informação.

Como sabemos

As etimologias do título e do texto aparecem sem ressalva em dois dicionários de referência e, em vários casos, no estudo de Yeda Pessoa de Castro; as discutidas estão marcadas como controversas.

Em debate: Muitas etimologias africanas são debatidas. Samba, cafuné, cachimbo, miçanga, corcunda e minhoca aparecem como bantas em listas populares e em parte da literatura, mas os dicionários de referência as registram como de origem incerta, duvidosa ou controversa. O post só afirma como certas as que Aulete e Priberam dão sem ressalva.

Em debate: Atribuir uma palavra a uma língua banta específica (quimbundo, quicongo ou umbundo) é difícil, porque muitas raízes são compartilhadas por línguas aparentadas. Yeda Pessoa de Castro prefere, em vários casos, falar em 'banto em geral'.

Em debate: O Dicionário banto do Brasil, de Nei Lopes, foi recebido com críticas na primeira edição (1999), acusado de amadorismo, e depois teve cerca de 250 propostas acolhidas pelo Houaiss. Parte de suas etimologias continua discutida entre especialistas.

Fontes

  1. Dicionário Caldas Aulete (Aulete Digital) — Verbetes caçula, moleque, quitanda, marimbondo, quilombo, dendê, fubá, moqueca, xingar, sanzala, mocambo, mucama, quindim, samba, cafuné, cachimbo, miçanga, corcunda, minhoca
    consultada em 03/10/2026
  2. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — Verbetes caçula, moleque, quitanda, marimbondo, quilombo, dendê, fubá, moqueca, xingar, samba, cafuné, cachimbo, corcunda, quimbundo, umbundo, quicongo, banto
    consultada em 03/10/2026
  3. Afro-Ásia, n. 14, Centro de Estudos Afro-Orientais, Universidade Federal da Bahia — Das línguas africanas ao português brasileiro
    consultada em 03/10/2026
  4. Revista Pesquisa FAPESP, n. 275 — Nei Lopes: The unorthodox lexicographer
    consultada em 03/10/2026
  5. Glottolog, Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva — Kimbundu (kmb)
    consultada em 03/10/2026
  6. Almanack, via SciELO — From beyond the Kwango: tracing the linguistic origins of slaves leaving Angola, 1811-1848
    consultada em 03/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 4 · 06/10/2026 — Capa trocada na conferência: imagem de abertura ligada ao assunto do título
  • Versão 3 · 06/10/2026 — Capa trocada na conferência: imagem de abertura ligada ao assunto do título
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