Neurociência

Um homem que não conseguia formar novas memórias mostrou que a memória tem partes separadas no cérebro

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 1953, para tratar convulsões graves, um cirurgião removeu dos dois lados do cérebro de Henry Molaison, então com 27 anos, estruturas do lobo temporal medial, entre elas o hipocampo. As convulsões diminuíram, mas ele perdeu a capacidade de formar novas memórias de fatos e episódios. Por 55 anos, até morrer em 2008, ele foi estudado como o paciente H.M. e mudou o que a ciência entende sobre memória.

O caso foi descrito em 1957 pelo cirurgião William Scoville e pela psicóloga Brenda Milner. Henry Molaison conseguia repetir uma sequência de seis ou sete dígitos e manter um número na cabeça por até 15 minutos com ensaio contínuo, mas não guardava o que acabara de viver. Memórias antigas, de antes da cirurgia, ficaram em grande parte preservadas. Esse contraste mostrou que a memória é uma função separável de percepção e raciocínio, e que o lobo temporal medial é essencial para consolidar novas memórias de longo prazo. A identidade dele só foi divulgada depois da morte; antes, a pesquisa o chamava apenas de H.M., para protegê-lo.

O cérebro dele virou 2.401 fatias

Henry Molaison doou o cérebro à pesquisa em 1992. Depois da morte, a equipe de Jacopo Annese, em San Diego, cortou o órgão congelado em 2.401 fatias e as digitalizou. O exame, publicado em 2014, revelou uma lesão pequena no córtex orbitofrontal esquerdo que ninguém conhecia.

A cirurgia e a perda

Henry Molaison tinha convulsões desde a infância, e depois dos 16 anos elas se tornaram graves. Em 1953, aos 27 anos, passou por uma cirurgia experimental para controlá-las, em que foram removidos dos dois lados do cérebro o hipocampo, a amígdala e o giro para-hipocampal. As crises diminuíram, mas ele deixou de formar novas memórias de fatos e episódios. Tinha consciência da condição e, segundo a neurocientista Suzanne Corkin, que o estudou por décadas, participava voluntariamente da pesquisa.

O que foi preservado

O caso foi valioso porque a perda era seletiva. A memória imediata funcionava: ele repetia seis ou sete dígitos e, ensaiando, mantinha um número por até 15 minutos. Memórias remotas, de antes da cirurgia, também ficaram em grande parte preservadas. O que falhava era a passagem do que vivia para o armazenamento de longo prazo. A leitura aceita hoje é que a memória é uma função distinta de percepção e raciocínio, e que o lobo temporal medial é crucial para fixar novas memórias.

Aprender sem saber que aprendeu

Em 1962, Brenda Milner o fez traçar uma figura enxergando-a apenas pelo reflexo de um espelho. Em dez tentativas, ele melhorou, e três dias depois ainda mostrava ganho, embora dissesse não lembrar de ter feito a tarefa. O resultado indicou que habilidades motoras e memória de fatos dependem de sistemas diferentes. Daí vem a divisão entre memória declarativa, de fatos e eventos conscientes, e não declarativa, de habilidades e hábitos.

Depois da morte

Em 1992, Henry Molaison doou o cérebro à pesquisa, e só depois de sua morte, em 2 de dezembro de 2008, o nome dele veio a público. A equipe de Jacopo Annese cortou o cérebro em 2.401 fatias, digitalizadas num mapa tridimensional. O exame, publicado em 2014 na Nature Communications, encontrou uma pequena lesão antes desconhecida no córtex orbitofrontal esquerdo, que parece ter sido causada na própria cirurgia de 1953.

Como sabemos

O caso é um dos mais documentados da neurociência; os fatos centrais foram conferidos em revisão do periódico Neuron e em páginas do MIT e da UC San Diego.

Fontes

  1. Neuron, via PubMed Central — The legacy of patient H.M. for neuroscience
    consultada em 04/10/2026
  2. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry (PubMed) — Loss of recent memory after bilateral hippocampal lesions
    consultada em 04/10/2026
  3. Department of Brain and Cognitive Sciences, MIT — An unforgettable life
    consultada em 04/10/2026
  4. UC San Diego Today — H.M.'s Brain Yields New Evidence
    consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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