Ciências da Terra

Oxigênio antes dos animais: de 0,1% a mais de 4% do atual, as estimativas para o 'bilhão entediante'

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Entre cerca de 1,8 e 0,8 bilhão de anos atrás o oxigênio era bem menor que o atual, mas o quanto é disputado: isótopos de cromo sugerem menos de 1% do nível de hoje, outros estudos indicam mais de 1% e até cerca de 4%. Se isso limitou a vida complexa também é debatido: eucariotos já existiam, e não se sabe se o oxigênio os atrasou ou apenas acompanhou a diversificação.

Oxigênio antigo costuma ser dado em fração do nível atmosférico atual (PAL, na sigla em inglês), já que hoje o O₂ é 21% do ar. Depois da Grande Oxidação, entre 2,4 e 2,3 bilhões de anos atrás, veio um longo intervalo apelidado de "bilhão entediante", porque os isótopos de carbono nas rochas variam pouco. Ninguém mede esse oxigênio direto: usam-se proxies, assinaturas químicas das rochas que dependem do O₂, como isótopos de cromo, cério, iodo, ferro em solos antigos e isótopos de oxigênio em sulfatos. Cada proxy traduz o sinal em oxigênio com modelos próprios, e é daí que vem a disputa.

Ar de 815 milhões de anos preso em sal

Gás preso em cristais de halita de 815 milhões de anos foi lido como ar antigo e indicou 50% do oxigênio atual. Uma reavaliação dos mesmos dados baixou o valor para menos de 10%.

Como sabemos: proxies, não um medidor

No isótopo de cromo, grandes fracionamentos exigem oxidação do cromo com óxidos de manganês no solo e oxigênio acima de cerca de 1% do atual; como muitos dados do intervalo quase não fracionam, leu-se oxigênio baixo. Nos isótopos de oxigênio, o ozônio gera uma anomalia no O₂ que o intemperismo da pirita transfere aos sulfatos. Os dois métodos dependem de suposições sobre solos, CO₂ e trocas ar-mar, e por isso dão números e não leituras diretas.

Por que as estimativas divergem

Cromo, cério e ferro em solos antigos apontam para menos de 1%; elementos traço em xistos e iodo em carbonatos sugerem mais de 1%. O estudo de Xiamaling dá pelo menos cerca de 4% a partir de uma zona de mínimo de oxigênio de 1,4 bilhão de anos, e teve réplica na mesma edição. Em 2021, a reanálise dos sulfatos de Sibley deixou o teto sem restrição: abaixo de 0,8% só com mais metano ou sinal diluído. A faixa tradicional ia de 1% a 40%.

Um oxigênio variável

A revisão de 2021 sugere que o oxigênio pode ter oscilado, com pulsos ligados a rifteamento de continentes, o que conciliaria dados "baixos" e "altos". Modelos descritos por ela também preveem oásis de O₂ no oceano raso em zonas de ressurgência e pouco oxigênio no fundo, o que importa para organismos que viviam no fundo. Tudo isso é hipótese ou resultado de modelo, sem medição direta do oceano da época.

Isso limitou a vida?

Não é consenso. Eucariotos existiam por volta de 1,7 a 1,6 bilhão de anos, mas o registro soma só 30 a 40 táxons de longa duração, e a diversificação ganha fôlego perto de 800 milhões de anos, quando o oxigênio parece subir. Autores de f3 e f4 defendem que havia oxigênio suficiente para animais primitivos muito antes deles; a revisão alerta que correlação não prova causa. O que mudou depois da Grande Oxidação está em outro post; a explosão cambriana, em outro.

Como sabemos

O quadro geral (oxigênio baixo, oceano profundo anóxico, disputa numérica) está bem sustentado pela revisão de 2021 lida na íntegra; os números vêm de estudos lidos só até o resumo e introdução.

Em debate: O valor do oxigênio atmosférico entre 1,8 e 0,8 bilhão de anos atrás segue em disputa: isótopos de cromo, cério e solos antigos apontam para menos de 1% do nível atual (talvez 0,1%), enquanto estudos com elementos traço, iodo, cromo em xistos da China e a modelagem da Formação Xiamaling propõem mais de 1% e até cerca de 4% ou mais. Uma reanálise de 2021 dos isótopos de oxigênio em sulfatos deixou o limite superior sem restrição. Também é debatido se o oxigênio atrasou os animais ou apenas acompanhou a diversificação.

Fontes

  1. Astrobiology — Oxygenation, Life, and the Planetary System during Earth's Middle History: An Overview
    Lyons, T. W.; Diamond, C. W.; Planavsky, N. J.; Reinhard, C. T.; Li, C. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1089/ast.2020.2418
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Triple oxygen isotope constraints on atmospheric O2 and biological productivity during the mid-Proterozoic
    Liu, P.; Liu, J.; Ji, A.; Reinhard, C. T.; Planavsky, N. J.; Babikov, D.; Najjar, R. G.; Kasting, J. F. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2105074118
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Sufficient oxygen for animal respiration 1,400 million years ago
    Zhang, S.; Wang, X.; Wang, H.; Bjerrum, C. J.; Hammarlund, E. U.; Costa, M. M.; Connelly, J. N.; Zhang, B.; Su, J.; Canfield, D. E. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1523449113
  4. Nature Communications — Highly fractionated chromium isotopes in Mesoproterozoic-aged shales and atmospheric oxygen
    Canfield, D. E.; Zhang, S.; Frank, A. B.; Wang, X.; Wang, H.; Su, J.; Ye, Y.; Frei, R. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-05263-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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