História do Brasil
Oswaldo Cruz atacou o mosquito da febre amarela no Rio e viu a vacina contra a varíola virar revolta em 1904
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 1903, o bacteriologista Oswaldo Cruz assumiu a Diretoria-Geral de Saúde Pública do Rio de Janeiro. Contra a febre amarela, defendeu que o transmissor era um mosquito, suspendeu as desinfecções tradicionais e criou as brigadas mata-mosquitos. Em 1904, a lei da vacinação obrigatória contra a varíola, de 31 de outubro, serviu de estopim para a Revolta da Vacina, e a obrigatoriedade foi revogada em 16 de novembro. Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, em 1907 a febre amarela estava erradicada da cidade.
Nascido em 1872 em São Luís do Paraitinga, Oswaldo Cruz formou-se em medicina em 1892 e especializou-se no Instituto Pasteur, em Paris. Dirigiu o Instituto Soroterápico Federal, criado em 25 de maio de 1900 em Manguinhos para fabricar soro contra a peste bubônica, e em 1903 passou a chefiar também a saúde pública. A teoria de que o mosquito transmitia a febre amarela, formulada pelo cubano Carlos Finlay, convivia com a crença da maioria dos médicos e da população em contágio por contato com roupas e secreções. As brigadas que inspecionavam casas e eliminavam focos de larvas provocaram forte reação popular. A vacinação obrigatória veio junto com a reforma urbana de Pereira Passos, o Bota-Abaixo, e acendeu uma oposição que misturava medo, política e disputa de poder.
A varíola voltou em 1908
Quatro anos depois da revolta, o Rio enfrentou a epidemia de varíola mais letal de que se tem registro até então. Segundo a Fiocruz, quase 6.400 pessoas morreram em 1908.
Formação e Manguinhos
Nascido em 1872, filho do médico Bento Gonçalves Cruz, Oswaldo Cruz entrou na Faculdade de Medicina aos 15 anos e se formou em 1892. Em 1896 foi a Paris, onde se especializou em bacteriologia no Instituto Pasteur. De volta, engajou-se no combate à peste bubônica em Santos. O Instituto Soroterápico Federal, criado em 25 de maio de 1900 em Manguinhos, ampliou sob sua direção a pesquisa básica e aplicada e a formação de pessoal, e a partir de 1908 recebeu seu nome.
O mosquito e a polícia sanitária
Como diretor-geral de Saúde Pública, Cruz enfrentou peste, varíola e febre amarela. Contra os ratos e as pulgas da peste, mandou exterminar roedores. Contra a febre amarela, adotou a teoria do mosquito, que já havia inspirado a saúde pública paulista, suspendeu as desinfecções de roupas e quartos e criou brigadas que visitavam casas, muitas vezes escoltadas por policiais. A invasão do espaço doméstico gerou uma reação popular violenta, mesmo antes da vacina.
A lei e a revolta
O projeto de vacinação obrigatória foi enviado ao Senado em 29 de junho de 1904 e virou lei em 31 de outubro. Em 5 de novembro nasceu a Liga Contra a Vacina Obrigatória. Entre 10 e 14 de novembro houve protestos, barricadas no bairro da Saúde e a destruição de bondes e lampiões, além de um levante de alunos da Escola Militar. Em 16 de novembro, o governo decretou estado de sítio e revogou a obrigatoriedade. Segundo o CPDOC, centenas de pessoas foram presas, e muitas, deportadas para o Norte sem processo formal.
Depois da revolta
Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, a febre amarela foi erradicada do Rio em 1907, ano em que Cruz recebeu medalha de ouro em Berlim. Em 1908, porém, a cidade sofreu a pior epidemia de varíola até então, com quase 6.400 mortes, segundo a Fiocruz. Em 1909 ele deixou a Diretoria-Geral de Saúde Pública; em 1913 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Doente, mudou-se em 1915 para Petrópolis e morreu em fevereiro de 1917, aos 44 anos.
Como sabemos
Conferido na biografia do Instituto Oswaldo Cruz, no verbete do CPDOC/FGV sobre a Revolta da Vacina e no portal histórico da Fiocruz.
Em debate: O peso real da lei da vacina na revolta é discutido: o verbete do CPDOC/FGV a trata como pretexto de uma oposição política, mas ela também mobilizou rejeição popular à vacinação compulsória, à exigência de atestado de vacina e à entrada de agentes nas casas.
Em debate: A avaliação de que a febre amarela foi erradicada do Rio em 1907 é a posição do Instituto Oswaldo Cruz; o texto a apresenta como tal.
- Fato estabelecido: Oswaldo Cruz nasceu em 1872 em São Luís do Paraitinga, mudou-se com a família para o Rio em 1877, ingressou na Faculdade de Medicina aos 15 anos e se formou doutor em 1892. [1]
- Fato estabelecido: Em 1896 foi ao Instituto Pasteur, em Paris, especializar-se em bacteriologia. [1]
- Fato estabelecido: O Instituto Soroterápico Federal foi criado em 25 de maio de 1900 na Fazenda de Manguinhos para fabricar o soro contra a peste bubônica, e passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz a partir de 1908. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em 1903, Oswaldo Cruz tornou-se diretor-geral de Saúde Pública, no governo Rodrigues Alves. [1] [2] [3]
- Fato estabelecido: Contra a peste bubônica, o combate se baseou no extermínio dos ratos; contra a febre amarela, no combate ao mosquito transmissor. [1] [3]
- Fato estabelecido: A maioria dos médicos e da população acreditava que a febre amarela se transmitia por contato com roupas e secreções de doentes; Oswaldo Cruz adotou a teoria do mosquito, suspendeu as desinfecções tradicionais e criou a polícia sanitária e as brigadas mata-mosquitos, o que provocou violenta reação popular. [1]
- Fato estabelecido: A teoria de que a febre amarela era transmitida por mosquitos foi defendida pelo cubano Carlos Finlay e já havia sido adotada pela saúde pública de São Paulo. [2]
- Fato estabelecido: O projeto de lei da vacinação obrigatória contra a varíola foi enviado ao Senado em 29 de junho de 1904, aprovado no Senado em 20 de julho e na Câmara no fim de outubro, e virou lei em 31 de outubro. [3]
- Fato estabelecido: A lei foi combatida por Lauro Sodré no Senado, por deputados como Barbosa Lima e Alfredo Varela, e pelo Apostolado Positivista do Brasil. [3]
- Interpretação: A oposição usou a lei como pretexto para se rebelar contra o presidente Rodrigues Alves; o motivo real eram disputas políticas anteriores. [3]
Interpretação do verbete do CPDOC/FGV; ela convive com a leitura de que também havia rejeição popular real à vacinação compulsória e à entrada de agentes nas casas. - Fato estabelecido: A Liga Contra a Vacina Obrigatória foi fundada em 5 de novembro de 1904; os conflitos de rua se intensificaram a partir de 10 de novembro e, no dia 13, mais de 20 bondes e muitos lampiões foram destruídos, origem do apelido Quebra-Lampiões. [3]
- Fato estabelecido: Em 14 de novembro houve um levante de alunos da Escola Militar, derrotado; em 16 de novembro foram decretados o estado de sítio e a revogação da obrigatoriedade da vacina, com centenas de presos. [3] [1]
- Consenso científico: Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, em 1907 a febre amarela estava erradicada do Rio de Janeiro. [1]
Afirmação do próprio IOC, tratada no texto como atribuição institucional. - Estimativa: Em 1908, o Rio enfrentou a mais letal epidemia de varíola conhecida até então, com quase 6.400 mortes. [2]
Número aproximado dado pela Fiocruz (nearly 6,400). - Fato estabelecido: Oswaldo Cruz deixou a Diretoria-Geral de Saúde Pública em 1909, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1913, deixou a direção do IOC em 1915 por motivo de saúde e morreu em fevereiro de 1917, aos 44 anos. [1]
Fontes
- Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) — Oswaldo Gonçalves Cruz
consultada em 04/10/2026 - Portal da Doença de Chagas (Fiocruz) — Discovery (história do Instituto Oswaldo Cruz e da descoberta da doença de Chagas)
consultada em 04/10/2026 - CPDOC/FGV, Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República — Revolta da Vacina
consultada em 04/10/2026
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