Paleontologia

Dois ossos que seguravam a mandíbula de répteis viraram parte do ouvido dos mamíferos

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em répteis, a mandíbula se liga ao crânio por uma articulação entre dois ossos, o articular e o quadrado. Nos mamíferos, esses mesmos ossos viraram o martelo e a bigorna, dois dos três ossinhos do ouvido médio. Fósseis de cinodontes, parentes antigos dos mamíferos, mostram etapas dessa mudança: a mandíbula ganhou uma segunda articulação e a antiga passou a servir à audição.

A homologia entre articular e martelo, e entre quadrado e bigorna, é aceita há mais de um século e se apoia em duas linhas de evidência. A primeira é o fóssil: formas como Morganucodon tinham duas articulações da mandíbula ao mesmo tempo, a antiga e uma nova entre o dentário e o esquamosal. Em formas mais recentes, os ossinhos já estavam soltos do dentário, mas ainda ligados a ele por cartilagem ossificada. A segunda é o desenvolvimento: no embrião de mamífero, martelo e bigorna surgem ligados ao dentário pela cartilagem de Meckel, que depois se desfaz. O quadro não é uma linha reta. Estudos recentes indicam que o ouvido médio mamífero pode ter se separado da mandíbula mais de uma vez.

Cinodontes do Rio Grande do Sul

Fósseis brasileiros de cerca de 225 milhões de anos, Riograndia e Brasilodon, mostraram em 2024 que a nova articulação da mandíbula surgiu mais de uma vez entre cinodontes: Riograndia a tinha, Brasilodon não.

Uma segunda articulação

Entre os cinodontes, apareceu uma articulação nova entre o dentário e o esquamosal, ao lado da antiga. Morganucodon tinha as duas funcionando juntas. Com a nova assumindo a mastigação, a velha ficou livre para mudar de função, o que ilustra o reaproveitamento de estruturas existentes.

Ossinhos soltos, cartilagem presa

Em Liaoconodon, os ossinhos do ouvido médio já estão separados do dentário, mas ligados a ele por cartilagem de Meckel ossificada. Nos mamíferos atuais, essa cartilagem se desfaz durante o desenvolvimento e vira um ligamento, o que completa a separação entre ouvir e mastigar.

O que o embrião mostra e o que não mostra

No embrião, martelo e bigorna começam ligados ao dentário, o que confirma a origem comum. Já a ideia de que o desenvolvimento repete as etapas da evolução não teve apoio quantitativo em um estudo de 2016. Em marsupiais recém-nascidos, a articulação martelo-bigorna é usada na sucção.

Experimentos no Triássico gaúcho

Em 2024, uma equipe com participação brasileira reconstruiu por tomografia as mandíbulas de Riograndia e Brasilodon, de cerca de 225 milhões de anos. Riograndia tinha contato entre dentário e esquamosal, e Brasilodon não. A conclusão: grupos diferentes de cinodontes testaram soluções parecidas, e traços de mamífero surgiram mais de uma vez.

Como sabemos

A homologia é consenso e está em fontes revisadas por pares; os pontos em debate aparecem marcados no texto.

Em debate: A ideia de que o desenvolvimento do ouvido médio repete a história evolutiva é popular, mas um estudo de 2016 não encontrou apoio quantitativo para ela. O que o embrião mostra com segurança é a origem comum: martelo e bigorna começam ligados ao dentário.

Em debate: Se o ouvido médio mamífero se separou da mandíbula uma vez ou mais de uma vez continua em debate.

Fontes

  1. Universidade de Bristol — Brazilian fossils reveal jaw-dropping discovery in mammal evolution
    consultada em 06/10/2026
  2. Proceedings of the Royal Society B (PMC) — Mammalian development does not recapitulate suspected key transformations in the evolutionary detachment of the mammalian middle ear
    consultada em 06/10/2026
  3. Journal of Anatomy (PMC) — Evolution of the mammalian middle ear and jaw: adaptations and novel structures
    consultada em 06/10/2026
  4. Sci.News (resumo do estudo da Nature) — New Cynodont Fossil Discoveries are Rewriting Our Understanding of Mammal Evolution
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +3 imagem(ns)
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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