Zoologia

Ornitorrinco e equidna botam ovos e amamentam: herança de uma linhagem separada há mais de 160 milhões de anos

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

Ornitorrinco e equidnas são os únicos monotremados vivos: mamíferos que botam ovos. Eles não têm mamilos; o leite sai por poros ligados às glândulas mamárias, na pele da barriga. Isso não é um meio-termo improvisado: os genomas mostram que eles têm a maioria dos genes de leite dos outros mamíferos e ainda guardam traços herdados de ancestrais comuns com répteis e aves, como a gema de ovo e os cromossomos sexuais.

Os monotremados formam a linhagem mais antiga de mamíferos que ainda tem representantes vivos. Hoje restam cinco espécies: o ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus), da Austrália, e quatro equidnas, na Austrália e na Nova Guiné. Todos botam ovos de casca mole, chocados por cerca de 10 dias, e alimentam os filhotes com leite por meses. Como não há mamilos, o leite aflora em áreas da pele e é lambido ou sugado pelo filhote. A análise do genoma do ornitorrinco (2008) e dos genomas de ornitorrinco e equidna (2021) permitiu comparar essas características com as de marsupiais e placentários e estimar quando a linhagem se separou.

Um gene de gema que sobrou

Galinhas têm três genes funcionais de vitelogenina, a proteína da gema. Marsupiais e placentários não têm nenhum. Monotremados mantêm só um gene funcional (VTG2) e restos de outro: um vestígio genético do ovo que ainda botam.

Leite sem mamilo

A fêmea do ornitorrinco tem glândulas mamárias, mas nenhum mamilo. O leite aparece em duas áreas de pele coberta de pelo na barriga, e os filhotes mamam ali, depois que os ovos eclodem. A equidna-de-bico-curto também não tem tetas: o leite sai por poros ligados às glândulas, dentro da bolsa. A lactação dura de três a quatro meses no ornitorrinco e de 150 a 200 dias na equidna.

Ovo e gema, com sobras de ancestrais

Répteis e aves usam proteínas de gema chamadas vitelogeninas. Galinhas têm três genes funcionais; marsupiais e placentários perderam todos. Os monotremados guardam apenas um funcional, o VTG2, e um fragmento de VTG1. Os autores do genoma de 2021 sugerem que eles dependem menos das proteínas do ovo porque o embrião também recebe secreções do útero antes da postura.

Genes de leite bem antigos

Os genes das caseínas, proteínas do leite, estão agrupados no ornitorrinco como nos outros mamíferos, o que indica um arranjo herdado do ancestral comum entre monotremados e terianos. Ou seja, o leite é mais velho do que a separação entre quem bota ovos e quem pare filhotes vivos. O genoma de 2021 acrescenta que falta aos monotremados um gene de leite de terianos (SPINT3) e que existem duas caseínas extras.

Datas que ainda variam

O genoma de 2008 estimou a separação entre monotremados e terianos em cerca de 166 milhões de anos, numa faixa de 160 a 210; o de 2021, em cerca de 187 milhões. Para ornitorrinco e equidna, o genoma de 2021 dá cerca de 55 milhões, mas um fóssil australiano do Cretáceo Inferior, Teinolophos, pode ser um ornitorrinco antigo e indicar uma separação bem mais antiga. Por isso as datas são estimativas.

Como sabemos

Fatos de biologia e genoma vêm dos dois artigos do genoma e de museu e ADW; as datas de divergência são estimativas e estão marcadas como tal.

Em debate: O genoma de 2021 aponta cerca de 55 milhões de anos; relógios moleculares dão de 17 a 80 milhões; o fóssil Teinolophos, do Cretáceo Inferior (121 a 112,5 milhões de anos), pode indicar que as duas linhagens já eram distintas então.

Fontes

  1. Nature (Warren et al., 2008), via PubMed Central — Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution
    consultada em 11/10/2026
  2. Nature (Zhou et al., 2021), via PubMed Central — Platypus and echidna genomes reveal mammalian biology and evolution
    consultada em 11/10/2026
  3. Australian Museum — Platypus
    consultada em 11/10/2026
  4. Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Tachyglossus aculeatus (short-beaked echidna)
    consultada em 11/10/2026
  5. Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Ornithorhynchus anatinus (platypus)
    consultada em 11/10/2026
  6. PNAS (Rowe et al., 2008), via PubMed Central — The oldest platypus and its bearing on divergence timing of the platypus and echidna clades
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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