Zoologia

Um orangotango tratou a própria ferida com uma planta medicinal, e cientistas registraram

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 25 de junho de 2022, em Suaq Balimbing, no norte de Sumatra, um orangotango macho chamado Rakus mastigou folhas de um cipó, sem engolir, e passou o sumo com os dedos num corte aberto no rosto. Repetiu por sete minutos e, depois, cobriu a ferida inteira com a massa verde. A planta, Fibraurea tinctoria, tem compostos com ação antibacteriana e anti-inflamatória. Cinco dias depois, o corte estava fechado.

O caso foi publicado em maio de 2024 na Scientific Reports pela bióloga Isabelle Laumer, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, com pesquisadores indonésios da Universitas Nasional e do Projeto Suaq. Rakus ganhou o ferimento na face direita, provavelmente numa briga com outro macho, e a equipe o notou em 22 de junho. Os autores chamam o episódio de primeira documentação sistemática de um animal selvagem tratando uma ferida com uma planta sabidamente ativa. Não foi o primeiro curativo animal: em 2022, chimpanzés do Gabão foram vistos aplicando insetos em feridas. Os pesquisadores consideram o gesto intencional, porque ele tratou só a ferida, repetiu a aplicação e gastou tempo nela, mas ninguém sabe se Rakus inventou a técnica ou a aprendeu onde nasceu, que é desconhecido.

A pomada das orangotangas de Bornéu

Rakus não é o único orangotango que passa plantas no corpo. Na floresta de turfa de Sabangau, em Bornéu, orangotangos foram vistos mastigando folhas de Dracaena cantleyi por alguns minutos e esfregando a espuma nos braços e nas pernas por até 35 minutos. Povos locais usam a mesma planta contra dores, e análises mostraram efeito anti-inflamatório.

Vinte minutos de 25 de junho

Às 11h16, Rakus começou a comer caule e folhas do cipó Fibraurea tinctoria, que na região se chama akar kuning ou akar palo. Treze minutos depois, passou a mastigar folhas sem engolir e a levar o sumo da boca à ferida com os dedos. Repetiu isso durante sete minutos. Às 11h36 apareceram moscas no corte, e ele o cobriu inteiro com a massa verde de folhas mastigadas. Continuou comendo a planta por 34 minutos no total. No dia seguinte, comeu dela de novo por dois minutos.

Descansar também conta

O pesquisador que acompanhava Rakus notou que ele descansava mais do que o normal depois de ferido. Os números confirmam: média de 33% do dia em repouso no período da ferida, contra 14,8% antes e 23,6% depois da cura. Em três dias, passou mais da metade do tempo parado. Os autores observam que o repouso pode favorecer a cicatrização, mas não há como separar o efeito do descanso do efeito da planta.

Cultura entre orangotangos

Suaq Balimbing, uma área de cerca de 350 hectares de floresta de turfa, é estudada desde 1994. Ali, os orangotangos usam gravetos para tirar as sementes dos frutos de Neesia, coisa que outras populações com a mesma árvore não fazem. Em 2001, Carel van Schaik e Cheryl Knott concluíram que nem genética nem ambiente explicam essa distribuição: o que conta é a convivência densa e tolerante, que permite aprender com os outros. Em 2003, um estudo na Science reuniu variações desse tipo e defendeu que orangotangos têm cultura.

Três espécies em perigo crítico

Hoje se reconhecem três espécies de orangotango: o de Bornéu, o de Sumatra, como Rakus, e o de Tapanuli, também em Sumatra, descrito em 2017. Todas estão na categoria Criticamente em Perigo, a mais grave da Lista Vermelha da IUCN para espécies que ainda vivem na natureza. O de Tapanuli tinha menos de 800 indivíduos quando foi descrito. Para essa espécie, a IUCN aponta a destruição da floresta de Batang Toru, a matança de animais e a reprodução lenta: perder mais de 1% da população por ano já pode levá-la à extinção.

Como sabemos

Os fatos do caso vêm do artigo original revisado por pares (acesso aberto) e de um museu de história natural; cultura, ferramentas e status de conservação têm fontes de periódico e da IUCN.

Em debate: Se o gesto de Rakus foi automedicação intencional é uma inferência a partir do comportamento; os autores a defendem com três critérios, mas um único caso, sem registro em vídeo da aplicação, não permite medir o efeito da planta sobre a cura.

Fontes

  1. Scientific Reports, vol. 14, 8932 (2024); Instituto Max Planck de Comportamento Animal e Universitas Nasional — Active self-treatment of a facial wound with a biologically active plant by a male Sumatran orangutan
    consultada em 05/10/2026
  2. Natural History Museum (Londres) — Orangutan spotted treating head wound with medicinal plant
    consultada em 05/10/2026
  3. Science, vol. 299, p. 102–105 (2003) — Orangutan cultures and the evolution of material culture
    consultada em 05/10/2026
  4. American Journal of Physical Anthropology, vol. 114, p. 331–342 (2001) — Geographic variation in tool use on Neesia fruits in orangutans
    consultada em 05/10/2026
  5. IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) — New orangutan species described in Indonesia
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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