Botânica

Como Ophrys atrai machos de abelhas e vespas: copia o perfume sexual da fêmea, muitas vezes com alcenos

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

As flores de Ophrys imitam sinais da fêmea de abelhas e vespas, e o cheiro é o sinal central. Em Ophrys sphegodes, os machos da abelha Andrena nigroaenea reagiram a bonecos perfumados com extrato da flor ou da fêmea, e misturas de alcenos bastaram para atraí-los. O macho tenta copular com o labelo e leva os polínios. Outras espécies usam outras substâncias.

Ophrys é um gênero euro-mediterrâneo de orquídeas que não oferecem néctar. Cada espécie costuma ser polinizada por uma só espécie de inseto, quase sempre macho de abelha solitária ou de vespa. A flor tem um labelo (pétala modificada) que lembra a fêmea e exala uma mistura de hidrocarbonetos, isto é, cadeias de carbono e hidrogênio da cera da superfície. Os alcanos têm só ligações simples; os alcenos têm uma dupla ligação, cuja posição varia entre espécies. Essa mistura imita o feromônio sexual da fêmea, a substância com que ela sinaliza estar pronta para o acasalamento. O macho pousa, tenta copular (pseudocópula) e os polínios, pacotes de pólen, grudam no seu corpo; na flor seguinte, são depositados.

Um cheiro, um endereço

Cada espécie de Ophrys costuma ter um só polinizador. A mistura de hidrocarbonetos funciona como endereço: só os machos daquela espécie de inseto se deixam enganar pela flor.

Como sabemos: bonecos, antenas e química

O teste clássico usa bonecos que imitam a fêmea. Em O. sphegodes, bonecos perfumados com extrato da flor ou da fêmea da abelha provocaram mais reações dos machos que bonecos sem cheiro [a3]. Depois vêm duas medidas: a eletroantenografia, que registra se a antena do macho responde a cada composto, e a cromatografia com espectrometria de massa, que identifica a substância. Compostos que ativam a antena e são partilhados por flor e fêmea foram então testados no campo [a6]. O limite: o resumo de 2000 não traz tamanhos de amostra.

A química: uma mistura, e nem sempre de hidrocarbonetos

Em O. sphegodes, misturas de alcenos atraíram mais os machos; alcanos sozinhos não [a4]. Alcenos e alcanos aparecem em padrões parecidos na flor e na abelha [a5], e os de cadeia longa subiram até o macho à distância [a7]. Mas não é regra única: em O. exaltata, três alcenos com dupla ligação na posição 7 atraem Colletes cunicularius [a9], e em O. speculum a vespa Campsoscolia ciliata responde a ácidos, aldeídos e ésteres [a8]. Em O. insectifera, flor e vespa Argogorytes partilham os mesmos compostos [a10].

Vista e tato pesam menos, mas não zero

O cheiro é o sinal de seleção; forma, cor e textura do labelo ajudam [a1]. Em O. heldreichii, o macho de Eucera berlandi foi guiado, na aproximação, pelo contraste de cor do perianto, e não pelo padrão do labelo [a15]. A conclusão vale para uma espécie e uma abelha. Que o desenho do labelo sirva ao aprendizado do macho depois da cópula é uma hipótese dos autores, ainda sem teste direto neste trabalho.

Por que as misturas diferem entre espécies, e de onde vêm

Como cada espécie de Ophrys costuma atrair uma só espécie de inseto [a11], a mistura funciona como uma barreira: espécies com buquês diferentes quase não trocam pólen [a12]. Parte da diferença está em genes de dessaturases, enzimas que fazem a dupla ligação dos alcenos [a13]. A capacidade de fazer alcenos é ancestral em Ophrys, o que levou os autores a vê-la como pré-adaptação [a14]. É uma inferência filogenética, não uma observação da evolução em si.

Como sabemos

O mecanismo químico está bem documentado em poucas espécies; boa parte vem de sínteses que citam estudos originais que não foram abertos.

Fontes

  1. Journal of Comparative Physiology A — Sex pheromone mimicry in the early spider orchid (Ophrys sphegodes): patterns of hydrocarbons as the key mechanism for pollination by sexual deception
    Schiestl, F. P.; Ayasse, M.; Paulus, H. F.; Löfstedt, C.; Hansson, B. S.; Ibarra, F.; Francke, W. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s003590000112
  2. International Journal of Molecular Sciences — Identification of (Z)-8-Heptadecene and n-Pentadecane as Electrophysiologically Active Compounds in Ophrys insectifera and Its Argogorytes Pollinator
    Bohman, B.; Weinstein, A. M.; Mozuraitis, R.; Flematti, G. R.; Borg-Karlson, A.-K. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/ijms21020620
  3. PLoS ONE — Transcriptome and Proteome Data Reveal Candidate Genes for Pollinator Attraction in Sexually Deceptive Orchids
    Sedeek, K. E. M. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0064621
  4. BMC Evolutionary Biology — Evolution of sexual mimicry in the orchid subtribe orchidinae: the role of preadaptations in the attraction of male bees as pollinators
    Schiestl, F. P.; Cozzolino, S. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/1471-2148-8-27
  5. Arthropod-Plant Interactions — Visual discrimination between two sexually deceptive Ophrys species by a bee pollinator
    Streinzer, M.; Ellis, T.; Paulus, H. F.; Spaethe, J. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s11829-010-9093-4
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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