Corpo humano
Onésimo, africano escravizado em Boston, descreveu em 1716 a inoculação contra a varíola usada na epidemia de 1721
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 1716, Cotton Mather perguntou a Onésimo, o africano que mantinha escravizado em Boston, se ele já tivera varíola. A resposta foi "sim e não": na África, ele passara por uma operação que lhe dera um pouco da doença e o protegeria para sempre. Mather registrou o relato numa carta à Royal Society. Cinco anos depois, com a varíola na cidade, a técnica de Onésimo foi aplicada em cerca de 287 pessoas, e só 6 morreram.
A técnica que Onésimo descreveu é a variolação: colocar pus de uma pústula de varíola num pequeno corte na pele de alguém saudável. A pessoa tinha uma forma em geral mais branda e ficava imune. Não é vacina, que só viria com Jenner em 1796, e tinha riscos, porque era a varíola de verdade. Onésimo não foi um caso isolado. Mather depois ouviu "um número considerável" de africanos em Boston, que contaram a mesma coisa e o mesmo método. Segundo a historiadora Eugenia Herbert, as descrições mais antigas conhecidas da prática na África subsaariana vêm justamente de africanos escravizados na América colonial. Relatos posteriores a mostram na África Ocidental e Central, na Etiópia e no sul do continente. Em 1721, o médico Zabdiel Boylston aceitou testar o método. Mather foi ridicularizado por confiar na palavra de africanos.
Não só em Boston
A historiadora Elise A. Mitchell encontrou registros de africanos escravizados que faziam inoculações contra a varíola no Caribe, na Jamaica e em Saint-Domingue (atual Haiti). O francês La Condamine escreveu, no século XVIII, que muitos povos da África Ocidental praticavam a inoculação desde "tempos imemoriais".
Quem foi Onésimo
Em 13 de dezembro de 1706, membros da congregação de Cotton Mather, pastor da North Church de Boston, compraram um jovem africano e o deram a ele. Mather lhe deu o nome bíblico de Onésimo. O que sabemos dele vem quase só dos escritos de quem o escravizou: Mather o chamou de "bastante inteligente" numa carta e, no diário de 1716, de "perverso" e indócil. Por volta dessa época, Onésimo obteve uma liberdade restrita: entregou uma quantia para a compra de outro jovem escravizado e continuou obrigado a prestar serviços.
O relato de 1716
Perguntado se já tivera varíola, Onésimo respondeu "sim e não". Explicou que passara por uma operação que lhe dera um pouco da doença e o protegeria para sempre, e que quem tivesse coragem de fazê-la ficava livre do medo do contágio. Mather mandou o relato a John Woodward, da Royal Society, e escreveu que ouvira de Onésimo sobre a prática africana muitos meses antes de saber de qualquer relato europeu. Os textos de Timonius e Pylarinus, de Constantinopla, já circulavam em Londres.
A epidemia de 1721
Quando a varíola chegou a Boston em 1721, Mather pediu aos médicos que testassem o método. Só Zabdiel Boylston aceitou. Ele inoculou cerca de 287 pessoas, das quais 6 morreram. Na cidade, quase 5.800 pessoas pegaram a doença e 844 morreram, cerca de 14%. A reação foi dura. O médico William Douglass ridicularizou Mather por acreditar em africanos escravizados, o jornal de James Franklin atacou a inoculação, e uma bomba foi atirada pela janela da casa do pastor.
Uma ciência africana
Onésimo não inventou a técnica: ele transmitia um saber do seu povo. Mather ouviu o mesmo de "um número considerável" de africanos em Boston. A historiadora Eugenia Herbert mostrou que as primeiras descrições da inoculação na África subsaariana vieram de pessoas escravizadas na América, e que a prática aparece em relatos da África Ocidental e Central, da Etiópia e do sul do continente. Era variolação, não vacina: usava a varíola humana, com risco real, mas protegia. A vacina de Jenner só viria em 1796.
Como sabemos
O relato de Onésimo está nas palavras do próprio Mather, citadas em artigo acadêmico e por instituições de Boston; a origem exata dele é debatida e está marcada como tal.
Em debate: A origem de Onésimo: Mather o ligou aos "Guramantese" e, em outra carta, disse que os africanos foram inoculados "na Barbária". A maioria dos historiadores lê "Guramantese" como "Coromantee" (Costa do Ouro, atual Gana) e o considera da África Ocidental; outros o situaram no norte da África (sul da atual Líbia).
Em debate: Os números de Boylston variam conforme a fonte: cerca de 287 inoculados e 6 mortes (Massachusetts Historical Society) ou 242 inoculações registradas e 2,5% de mortes (Paul Revere House).
- Fato estabelecido: Em 13 de dezembro de 1706, membros da congregação de Cotton Mather compraram um jovem africano escravizado e o deram a ele; Mather o chamou de Onésimo. [1]
Data do diário de Mather, citado por Koo. A Paul Revere House fala em 1707. - Fato estabelecido: Em 1716, numa carta a John Woodward, da Royal Society, Mather relatou que Onésimo respondera "sim e não" quando perguntado se tivera varíola, e que passara por uma operação que lhe dera algo da varíola e o protegeria para sempre, prática muito usada entre os "Guramantese". [1] [5]
- Fato estabelecido: Mather escreveu que soube da inoculação por um servo seu, como prática africana, muitos meses antes de conhecer qualquer relato europeu sobre ela. [5]
- Fato estabelecido: Relatos de Timonius (Constantinopla) e Pylarinus sobre a inoculação foram publicados nas Philosophical Transactions da Royal Society em 1714 e 1716. [1]
- Fato estabelecido: Mather registrou que um número considerável de africanos em Boston lhe contou a mesma história e descreveu o mesmo método: o líquido de uma pústula de varíola posto num corte na pele. [1] [3]
- Em debate: "Guramantese" é lido pela maioria dos historiadores como variante de "Coromantee", nome dado nas Américas a africanos embarcados na Costa do Ouro; outros situaram Onésimo no norte da África. [3]
Mitchell resume o debate: há 45 anos a maioria dos estudiosos o considera da África Ocidental, mas Mather escreveu também 'Barbary', e alguns o situaram no sul da atual Líbia. - Evidência forte: As descrições mais antigas conhecidas da inoculação na África subsaariana foram dadas por africanos escravizados na América colonial, no início e em meados do século XVIII; a prática aparece depois em relatos da África Ocidental e Central, da Etiópia e do sul da África. [4]
- Consenso científico: A inoculação (variolação) foi a precursora da vacinação e oferecia alguma defesa contra a varíola apesar dos riscos. [4]
- Estimativa: Na epidemia de 1721, quase 5.800 moradores de Boston pegaram varíola e 844 morreram, mortalidade de cerca de 14%. [2]
Contagens da época, citadas pela Massachusetts Historical Society. - Estimativa: Zabdiel Boylston foi o único médico de Boston a apoiar Mather e inoculou cerca de 287 pessoas, das quais 6 morreram. [2] [5]
A Massachusetts Historical Society diz cerca de 287 e 6 mortes; a Paul Revere House fala em 242 inoculações registradas e 2,5% de mortes. O texto usa 'cerca de'. - Fato estabelecido: A oposição, liderada pelo médico William Douglass e pelo editor James Franklin, foi violenta: uma bomba foi atirada pela janela da casa de Mather. [2] [5]
- Fato estabelecido: Douglass ridicularizou Mather por defender a inoculação e por acreditar no testemunho de africanos escravizados. [1]
- Evidência forte: Não há evidência de que Mather tenha consultado Onésimo de novo durante a epidemia de 1721; ele repetiu o relato de 1716. [1]
- Fato estabelecido: Onésimo obteve uma liberdade restrita ao entregar uma quantia para a compra de outro jovem escravizado, e continuou obrigado a prestar serviços a Mather. [1] [5]
- Evidência forte: Há registros de africanos escravizados que faziam inoculações contra a varíola no Caribe, na Jamaica e em Saint-Domingue; La Condamine escreveu que muitos povos da África Ocidental a praticavam desde 'tempos imemoriais'. [3]
Fontes
- Proceedings of the American Antiquarian Society — Strangers in the House of God: Cotton Mather, Onesimus, and an Experiment in Christian Slaveholding
consultada em 05/10/2026 - Massachusetts Historical Society — Object of the Month: Dr. Fansher's Rules, To be observed during Vaccination
consultada em 05/10/2026 - The Royal Society — West Africans and the history of smallpox inoculation: Q&A with Elise A. Mitchell
consultada em 05/10/2026 - Cambridge University Press — Smallpox Inoculation in Africa (The Journal of African History, 16(4), 1975, p. 539–559)
consultada em 05/10/2026 - Paul Revere House (Paul Revere Memorial Association) — Onesimus Mather and the Origins of Inoculation in Boston
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão