Biologia
O que é vida? A definição de trabalho da NASA e por que não existe uma definição consensual
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Origem da vida
Não existe definição de vida aceita por todos. A mais citada é a definição de trabalho associada à NASA: um sistema químico autossustentado capaz de evolução darwiniana. Ela nasceu de uma discussão num grupo consultivo, não é oficial e, segundo Joyce, a NASA não a usa para decidir financiamentos. Vírus e a mula são os casos-limite clássicos, e cada área escolhe o critério que lhe serve: lista de atributos, processo central ou sinais detectáveis.
Evolução darwiniana, aqui, é um processo com três ingredientes: cópia com erros, herança desses erros e diferença de sucesso entre as cópias. "Sistema" quer dizer que o que vive é o conjunto, não o indivíduo isolado. Uma definição de trabalho é uma frase útil para orientar pesquisa, sem pretensão de ser a última palavra. A dificuldade vem de "vida" ser um termo popular antes de científico: a biologia comum funciona sem defini-lo, mas astrobiologia, origem da vida, vida artificial e biologia sintética precisam de algum critério. As propostas se dividem entre listas de atributos, um processo fundamental e sinais físicos detectáveis.
Quem inventou a "definição da NASA"?
Gerald Joyce diz que não foi ele. Conta que a ideia saiu de um grupo de 12 pessoas e que ninguém votou nela. O nome dele ficou associado porque a citou no prefácio de um livro de 1994.
A frase, palavra por palavra
Segundo Joyce, "sistema" aponta para a população ou para a ecologia, não para o indivíduo: um organismo isolado pode estar morto, fossilizado ou sem parceiro e ainda assim parecer "capaz". "Autossustentado" significa que toda a informação necessária para evoluir está dentro do sistema. "Químico" delimita a vida que a NASA procura. "Evolução darwiniana" traz junto reprodução, hereditariedade e variação.
Por que a pergunta resiste
Joyce diz que "vida" é um termo popular e que cada grupo procura algo diferente: lista de atributos, processo fundamental ou sinais detectáveis. Cleland e Chyba, resumidos por Chodasewicz, comparam as tentativas atuais às de definir "água" antes da química molecular: falta uma teoria madura. Trifonov reuniu 123 definições publicadas. Koonin e Starokadomskyy lembram que há quem as considere nem viáveis nem necessárias.
Casos-limite: fogo, vírus, mula e células dormentes
O fogo consome, cresce e se move, mas não herda suas imperfeições, e por isso fica fora da definição darwiniana. O vírus fica fora segundo Joyce, mas a questão está em disputa. A mula é o contraexemplo contra definições baseadas em reprodução; a resposta de Chodasewicz é olhar para a população. Esporos e células dormentes mostram que o corte entre vivo e morto nem sempre existe.
Como sabemos: definições são postas à prova por contraexemplos e pelo uso
Uma definição se testa procurando casos que ela classifica mal: o cristal de clorato de sódio e o fogo para listas, a mula para a definição darwiniana. Benner propõe olhar também o que os cientistas fazem. Na missão Viking, os testes de metabolismo foram positivos, mas a ausência de compostos orgânicos pesou mais. Isso é evidência de qual critério prevaleceu, não de que Marte tenha ou não tido vida.
Como sabemos
A redação da definição e as críticas vêm de textos lidos (Benner, Joyce, Chodasewicz, Koonin e Starokadomskyy); a origem histórica é contada de dois modos e vários debates são posições de autores, não resultados.
Em debate: Os vírus estão vivos? Raoult e Forterre os tratam como organismos; Moreira e López-García negam que sejam vivos por dependerem de hospedeiro; Koonin e Starokadomskyy dizem que a pergunta depende de uma definição arbitrária. A definição de trabalho da NASA, segundo Joyce, não os inclui.
Em debate: O problema da mula: a definição darwiniana parece tratar animais inférteis como inanimados. Chodasewicz responde que a evolução é propriedade de populações, não de indivíduos; não há veredito aceito por todos.
- Fato estabelecido: A definição de trabalho associada à NASA descreve a vida como um sistema químico autossustentado capaz de evolução darwiniana. [2] Introdução [3] Texto da página
Contexto: Redação citada pela NASA em duas páginas institucionais; a entrevista de 2013 omite a palavra "chemical", a página sobre detecção de vida a inclui. · Limitações: A versão com "químico" é a que a NASA registra na página de detecção de vida; usamos essa na tradução. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Gerald Joyce, a quem a definição costuma ser creditada, diz que ela não é dele, que não é oficial e que a NASA não a usa para decidir financiamentos. [2] Resposta de Joyce
Contexto: Depoimento do próprio Joyce, em entrevista publicada em 2013. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A origem exata da definição é contada de modos diferentes: Joyce a descreve como produto de um grupo de 12 pessoas por volta de 1992 e lembra ter sugerido o trecho "sistema químico autossustentado"; Benner a atribui a um comitê reunido em 1994, com sugestão de Carl Sagan. [2] Resposta de Joyce [1] Seção 1
Contexto: Detalhe histórico; não afeta o conteúdo da definição. · Limitações: Não conferimos o texto de Joyce (1994) nem o documento interno do grupo, que Joyce diz não ser público. · Joyce (testemunha direta) fala em 1992; Benner cita 1994, possivelmente o ano da publicação em que Joyce registrou a definição. O documento original do grupo não é público. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Não há definição de vida geralmente aceita, e há quem argumente que definições desse tipo nem seriam viáveis nem necessárias. [5] Introdução
Contexto: Estado do debate segundo artigo de 2016. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma análise do vocabulário de 123 definições de vida reunidas numa tabela encontrou nove grupos de termos; (auto)reprodução e evolução (variação) formaram o conjunto mínimo, e o autor propôs "vida é autorreprodução com variações". [6] Resumo
Contexto: Estudo de Trifonov (2011) sobre definições publicadas até então. · Limitações: Só o resumo foi lido; a proposta de Trifonov é uma entre várias e não resolve o desacordo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Joyce afirma que "vida" é um termo popular, não científico, e que os cientistas procuram coisas diferentes: lista de atributos, processo fundamental ou conjunto de sinais reconhecíveis na detecção. [2] Resposta de Joyce
Contexto: Avaliação de um dos autores da definição, não uma medição. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Benner, toda definição de vida vem presa a uma teoria; a definição darwiniana exclui contraexemplos que derrubam definições em lista, como o fogo (cujas imperfeições de crescimento não são herdáveis) e cristais de clorato de sódio, que se "reproduzem" por semeadura mas não transmitem seus defeitos. [1] Seção 2
Contexto: Argumento de Benner (2010) a favor da definição darwiniana como a mais sólida entre as discutidas. · Limitações: É a defesa de uma posição, não consenso; outros autores, como Koonin e Starokadomskyy, tratam a fronteira entre vivo e não vivo como arbitrária. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pela definição de trabalho, um vírus não se qualifica, segundo Joyce, porque o genoma viral só evolui no contexto da célula hospedeira; o sistema que evolui seria vírus mais hospedeiro. [2] Resposta de Joyce
Contexto: Aplicação da definição por um dos seus formuladores. · Limitações: Benner, em f1, lê a mesma definição de outro modo: um vírus pode estar "vivo" como entidade sem exemplificar a vida como sistema. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: O estatuto dos vírus segue em disputa: Raoult e Forterre os classificam como uma das duas categorias fundamentais de organismos, enquanto Moreira e López-García sustentam que não são vivos por não se reproduzirem sem hospedeiro celular; para Koonin e Starokadomskyy, a pergunta "vírus estão vivos?" não tem substância, pois a resposta depende de uma definição arbitrária. [5] Resumo
Contexto: Debate conceitual, não um resultado experimental. · Limitações: As duas posições de f5 são relatadas de segunda mão. · Divergência publicada entre especialistas; as posições de Raoult e Forterre e de Moreira e López-García são relatadas por Koonin e Starokadomskyy (segundo f5), cujos artigos originais não foram lidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Uma crítica clássica à definição darwiniana é o "problema da mula": animais inférteis, como a mula, seriam classificados como objetos inanimados; a resposta de Chodasewicz é que a evolução é propriedade de populações, e a mula é viva por pertencer a uma população que evolui. [4] Seção "Mule’s problem" [2] Resposta de Joyce
Contexto: Debate filosófico sobre como aplicar a definição a indivíduos. · A resposta de Chodasewicz é um argumento publicado; não há veredito aceito por todos. Joyce, ao dizer que o sistema, e não o indivíduo, é "capaz", segue a mesma linha. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Células bacterianas dormentes e esporos ficam num estado em que a divisão entre vivo e morto falha: esporos são quase inertes bioquimicamente e podem ou não voltar a se reproduzir; segundo Koonin e Starokadomskyy, alguns tardígrados expostos ao espaço sobreviveram e tiveram descendentes, e a pergunta "X está vivo?" muitas vezes não admite resposta sim ou não. [5] Introdução
Contexto: O experimento com tardígrados é citado por f5 a partir de Jönsson e colegas (2008); a conclusão sobre "sim ou não" é interpretação dos autores. · Limitações: O experimento dos tardígrados é relatado de segunda mão (f5 cita Jönsson et al.); o artigo original não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O laboratório de Joyce desenvolveu um sistema químico autossustentado capaz de evolução darwiniana, que até 2013 ainda não tinha evoluído novas funções; ele usa o caso para mostrar que o limiar de "capaz" é difícil de fixar. [2] Resposta de Joyce
Contexto: Declaração de 2013 sobre sistema de RNA do laboratório de Joyce (a apresentação da entrevista o descreve como feito de enzimas de RNA). · Limitações: O estado atual desse sistema não foi verificado; a frase vale para a data da entrevista. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Benner lê a missão Viking (1976) como exemplo do que se faz na prática: os testes de vida buscavam produtos do metabolismo, deram resultados positivos, mas a ausência de moléculas orgânicas no espectrômetro de massas levou a comunidade a concluir que não havia vida na superfície de Marte. [1] Seção 6
Contexto: Leitura de Benner (2010) sobre os critérios de vida adotados de fato pelos cientistas. · Limitações: Interpretação de um autor; Benner registra que Gilbert Levin, que projetou um dos testes, ainda defende que ele detectou vida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Joyce, a definição serve para orientar o raciocínio, por exemplo ao lembrar que procurar só compostos orgânicos não basta, já que eles podem ser biogênicos ou abiogênicos; segundo Chodasewicz, sem definição amplamente aceita a busca de vida extraterrestre ainda se apoia sobretudo em moléculas orgânicas e água. [2] Resposta de Joyce [4] Seção "Problems with the definition of life"
Contexto: A observação de Chodasewicz é de 2014; o estado atual das missões não foi verificado. · Limitações: Não verificamos como missões recentes escolhem seus alvos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Na biologia comum a pesquisa avança sem definição de vida; já astrobiologia, origem da vida, vida artificial e biologia sintética dependem de algum critério. [4] Seção "Problems with the definition of life"
Contexto: Avaliação de uma autora (2014), não uma medição. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Astrobiology (Mary Ann Liebert) — Defining Life
Benner, S. A. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1089/ast.2010.0524 - NASA Astrobiology (reproduz astrobio.net) — Forming a Definition for Life (entrevista com Gerald Joyce)
Mullen, L. (entrevista com G. Joyce) · 2013-07-25 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - NASA Astrobiology — About Life Detection
NASA Astrobiology Program · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Theory in Biosciences (Springer) — Evolution, reproduction and definition of life
Chodasewicz, K. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s12064-013-0184-5 - Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences — Are viruses alive? The replicator paradigm sheds decisive light on an old but misguided question
Koonin, E. V.; Starokadomskyy, P. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Journal of Biomolecular Structure and Dynamics — Vocabulary of definitions of life suggests a definition
Trifonov, E. N. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1080/073911011010524992
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)