Evolução

O que é uma espécie? Por que os conceitos biológico, fenético e filogenético não contam as mesmas espécies

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

Espécie costuma ser definida, no conceito biológico de Ernst Mayr, como grupo de populações que se cruzam ou poderiam se cruzar e são isoladas de outros grupos. Mas já havia dezenas de definições rivais em 1997, baseadas em aparência, ancestralidade ou nicho, e elas nem sempre contam as mesmas espécies. Nenhuma serve para tudo: o cruzamento não se aplica a quem se reproduz sem sexo, e híbridos borram o limite.

Os seres vivos são classificados em espécies desde Lineu, mas "espécie" não tem uma única definição aceita. O conceito biológico, ligado a Ernst Mayr, usa o isolamento reprodutivo como critério. O conceito morfológico, ou fenético, agrupa organismos pela semelhança de aparência. O filogenético usa a ancestralidade: espécie seria a menor "ponta" da árvore evolutiva que se distingue das demais. Esses critérios medem coisas diferentes e, por isso, podem traçar fronteiras diferentes para os mesmos organismos. Tratar espécie como um grupo que troca genes funciona bem em animais que se reproduzem com sexo, mas deixa de funcionar quando não há troca de genes ou quando duas formas se cruzam apenas em parte.

Corvos que se cruzam e não se misturam

O corvo-de-capuz e o corvo-carniceiro têm plumagem diferente e cruzam sobretudo dentro do próprio grupo, mas se hibridizam em algumas áreas. Para Berkeley, é um caso em que o conceito de espécie fica difícil de aplicar.

O que cada conceito mede

O conceito biológico pergunta quem pode se cruzar e deixar filhos férteis; a espécie é, nesse sentido, o maior conjunto gênico possível na natureza. O fenético compara aparência: o que é parecido entre si e diferente dos demais forma uma espécie. O filogenético olha a árvore evolutiva: espécie é a menor "ponta" que tem ancestral próprio e pode ser distinguida das outras, com versões que exigem diagnóstico ou monofilia. Há ainda conceitos de reconhecimento de parceiros e de nicho ecológico.

Onde cada definição falha

Sem sexo, não há cruzamento a usar como critério: bactérias que se dividem por fissão binária desafiam o conceito biológico. Com híbridos, como os corvos-de-capuz e carniceiros, o isolamento é parcial. No conceito filogenético, uma espécie em anel como Ensatina pode ser uma só, apesar da variação, mas a versão que exige apenas diagnóstico tende a reconhecer muito mais espécies, como mostra de Queiroz. Os números de espécies mudam conforme a régua usada.

Como sabemos: medindo espécies em bactérias

Em 2018, Jain e colaboradores compararam cerca de 90 mil genomas procarióticos do NCBI e calcularam o ANI, a identidade média dos genes comuns a dois genomas. Os pares se agruparam acima de 95% (mesma espécie) ou abaixo de 83% (espécies diferentes), com poucos valores no meio. O corte de 95% bateu com os nomes existentes em mais de 98% dos casos de mesma espécie. O vazio pode ter explicação em viés de cultivo, recombinação ou processos neutros, e isso segue em aberto.

Por que o debate continua

Segundo de Queiroz, cada comunidade valoriza uma propriedade: quem estuda hibridização, barreiras reprodutivas; sistematas, diagnosticabilidade e monofilia; ecólogos, nicho. Ele propõe que todos os conceitos descrevem linhagens de metapopulações e que as outras propriedades seriam contingentes, uma ideia que contraria a maioria das definições atuais. Berkeley, por sua vez, lembra que o conceito biológico serve à maioria dos usos e à comunicação com o público, mas que a escolha do conceito depende do foco do pesquisador.

Como sabemos

Conceitos e exemplos conferidos em texto integral de uma revisão em acesso aberto, duas páginas de Berkeley e um estudo genômico; os pontos em debate estão marcados como tal.

Em debate:

Em debate:

Fontes

  1. Understanding Evolution, University of California Museum of Paleontology (Berkeley) — Defining a species
    University of California Museum of Paleontology · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Understanding Evolution, University of California Museum of Paleontology (Berkeley) — Other species concepts
    University of California Museum of Paleontology · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS); Smithsonian Institution — Ernst Mayr and the modern concept of species
    de Queiroz, K. · 2005 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0502030102
  4. Nature Communications — High throughput ANI analysis of 90K prokaryotic genomes reveals clear species boundaries
    Jain, C.; Rodriguez-R, L. M.; Phillippy, A. M.; Konstantinidis, K. T.; Aluru, S. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-07641-9
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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